Os ensinamentos de uma corrida na montanha

Claudio Cotter | Corrida de Montanha · 20 dez, 2015

É incrível a quantidade de ensinamentos que absorvemos durante uma prova longa na montanha e gostaria de compartilhar esta experiência incrível que tive durante o último Desafio das Serras, pois percebi que nada te prepara para uma prova como esta, mas conversar com pessoas que já passaram por isso pode ajudar muito. Além do mais, muitas dessas dicas podem fazer com que você evite muitas lesões, afinal, este é o principal objetivo desta coluna.

A prova

O desafio era subir de Ubatumirim até Cunha os 15 quilômetros da Serra do Mar com 1.500m de desnível. Este Desafio das Serras foi uma surpresa até para organização. O erro inicial foi em relação à medida, pois os corredores que fariam 20 quilômetros no sábado subindo e mais 20 descendo no domingo acabaram correndo 35 já no sábado, um erro assumido, mas que impediu que muitos corressem no dia seguinte pela exaustão. A outra opção, que foi a que escolhi, era correr os 40 sábado e domingo, com a diferença de pegar uma estrada de terra batida em Cunha que tinha 18 quilômetros.

Mas a maior surpresa ficou por conta da dificuldade da trilha, pois não bastasse a subida e os obstáculos naturais, tivemos que enfrentar uma quantidade absurda de cipós e lama, o que impediu a maior parte das pessoas de correrem na trilha, pois o risco de quedas era constante e a preferência acabava sendo mesmo por caminhar. Uma corrida que muitos como eu previam fazer entre sete e oito horas aumentaram suas expectativas para mais de nove. O Meu tempo foi 9h45.

Os ensinamentos

As provas de montanha exigem trechos de subida intensos e às vezes por muito tempo, o que significa caminhar por longos períodos rapidamente, em desnível e com os batimentos cardíacos por volta de 150 por minuto. Este tipo de atividade exige um metabolismo totalmente diferente da corrida, portanto a recomendação é treinar em condições parecidas, pois este tipo de exigência muscular para quem não está acostumado pode ocasionar câimbras e até levar a um abandono.

Nunca pise com os pés num alinhamento muito próximo na lama, sempre tente abrir ao máximo sua base de apoio, pois na hipótese de um escorregão seus pés não irão se cruzar e você evita uma queda quase certa.

Uma prova como essa nunca deve ser subestimada. Foto: arquivo pessoal Uma prova como essa nunca deve ser subestimada. Foto: arquivo pessoal

Recomendo totalmente a utilização dos bastões de caminhada, que são meio complicados de carregar, mas ajudam a evitar lesões por prevenirem desequilíbrios e melhorarem em muito o rendimento nas subidas.

Fim de prova

A solução encontrada no sábado à noite para o segundo dia de prova seria descer apenas quem estivesse seguro para isso, mas a maior parte dos corredores já havia desistido e preferiu descer de van.

Na manhã do domingo num novo breafing às 8 da manhã foi decidido por segurança que não haveria a descida da serra e que faríamos todos apenas um circuito de 25 quilômetros de prova com sete de trilha e 18 de terra batida. Neste momento houve uma grande agitação e muitos que já haviam desistido desfizeram as malas e resolveram participar da segunda etapa, assim como eu.

Esta trilha do segundo dia foi muito mais amistosa e tranquila, apenas com muita lama e acabei fazendo em 3h09.

A conclusão é que os aspirantes a corredores de montanha devem se preparar não apenas participando de provas de rua, mas precisam se preocupar em treinar volumes muito maiores com variação de ritmo e sempre ter suplementação e água extra. Isso porque, além da técnica de correr em trilha, usar bastões, estar com o calçado e equipamentos adequados, você tem que estar preparado para o inesperado e nesta hora o mais importante é que a cabeça esteja bem treinada.

Em muitos momentos a vontade de desistir aparece, mas a de completar a prova tem que ser sempre maior!

Este texto foi escrito por: Claudio Cotter

Claudio Cotter

Ver todos os posts

Fisioterapeuta formado, sempre trabalhou com reabilitação esportiva na clínica, em vários eventos nacionais e internacionais, incluindo O 1º mundial FIFA pela Seleção Sub 17 Feminina como fisioterapeuta da equipe. Ao mesmo tempo se especializando em postura e análise de marcha e da corrida. Hoje, desenvolve trabalhos dentro de um conceito de equipe multidisciplinar em sua clinica e pós graduando em medicina psicossomática, aplicando seus conhecimentos em pacientes esportistas ou não, com o objetivo de tratar a fundo as causas das dores, sendo físicas, relacionadas à postura no trabalho ou na corrida, ou emocionais. Além de consultor da Mizuno em alguns projetos nos últimos 3 anos e ultramaratonista.