Atleta Manu Vilaseca garante pódio na Ultramaratona do Monte Fuji

Redação Webrun | Ultra Maratona · 06 maio, 2014

A ultramaratonista Manurla Vilaseca participou do grande desafio da Ultramaratona do Monte Fuji 2014

Veja o depoimento sobre o feito:

Manu participou da UltraMaratona do Monte Fuji que tem 168 quilômetros Foto: Arquivo Pessoal Manu participou da UltraMaratona do Monte Fuji que tem 168 quilômetros Foto: Arquivo Pessoal

Em 2013, quando vim ao Japão pela primeira vez fazer uma prova de 84 quilômetros nas montanhas de Yamanashi, tive a certeza de que voltaria. Em 2014 comecei a agitar as coisas com antecedência, muitas coisas envolvem uma corrida de 168 quilômetros, principalmente se ela acontece do outro lado do mundo.

O nível competitivo da Ultramaratona do Monte Fuji neste ano estava muito elevado e a prova ganhou uma enorme importância no calendário mundial. A prova entrou para o circuito Ultra Trail World Series e eu queria carimbar minha participação no circuito.

Cheguei ao Japão com bastante antecedência. São quatro dias dormindo mal até entrar no fuso horário, fora o desgaste de pegar dois voos, no total de 24 horas. A temperatura estava baixa na semana da prova. Durante o dia chegava a fazer três graus. Eu pensava como seria encarar o percurso com chuva e frio absurdo. Minhas preces foram atendidas, pois no dia da prova acordamos com uma temperatura de 15 graus.

A largada foi às 15h na beira do Lago Kawaguchi e saímos em direção ao templo das árvores gigantes, onde iniciamos nossa primeira subida. Eu estava tranquila, sei que são muitos quilômetros e por isso é possível sair devagar, aquecendo e acordando o corpo aos poucos.

Na primeira subida consegui colocar um ritmo bom. Apesar de não estar preocupada com colocação, me animava pelo fato de estar subindo com a Nerea Martinez, grande atleta que admiro muito. Essa primeira subida era toda de estradão e foi bom para que a prova dispersasse um pouco. Ao chegar no topo veio à descida e a Nerea foi embora. Na última subida antes de chegar no A3 encontrei o Sinoca, seguimos juntos e conversando um pouco. Chegamos ao A3, que era o primeiro ponto encontrando nossa equipe de apoio. Estávamos com fome e eu sabia que isso era um ótimo sinal. Comi batata cozida e alguns biscoitos salgados.

Já era noite e eu seguia reconhecendo o percurso sabia que havia alguém junto comigo, eu pensava ser o Sinoca. Mas ao chegar no A4 escutei a Satoko falando no telefone, perguntando se estava bem, e depois fiquei sabendo que Sinoca havia tido problemas de estômago.

A atleta em um dos postos de alimentação e hidratação Foto: Arquivo Pessoal A atleta em um dos postos de alimentação e hidratação Foto: Arquivo Pessoal

Segui rumo ao A5 por um trecho de muita areia vulcânica, estávamos atingindo a base do Fuji. Apesar das subidas não serem inclinadas (no princípio), o terreno era bastante pesado. Fazia muito frio e eu sentia que o meu problema na vista começava a se manifestar. Coloquei colírio, mas já tinha dificuldades para enxergar. Quando cheguei no A5 vesti casaco, luvas e limpei o rosto.

Ao descer via pessoas subindo, mas não conseguia identificar ninguém, desci com cuidado. Foi aí que a minha lanterna começou a piscar. Com a temperatura muito baixa a bateria acabou rapidamente. Por sorte havia um carro parado e aproveitei o farol para fazer a troca de pilha.

Pegamos um trecho de asfalto e eu aproveitava para economizar minha luz, que poderia fazer falta mais na frente. Eu sabia que esse trecho era mais curto entre os abastecimentos, sendo um total de apenas 5.9 quilômetros. Cheguei ao A6, comi, abasteci e saí de novo.

Depois disso veio um trecho bem técnico. Parecia um rio seco, com pedras grandes, alternado com trilhas em sobe e desce. Procurei não me abalar e segui da maneira que podia. Assim cheguei ao A7, Limpei meu rosto novamente e abasteci minha mochila com muita comida e hidratação.

As belas paisagens do Japão encantaram a ultramaratonista Foto: Arquivo Pessoal As belas paisagens do Japão encantaram a ultramaratonista Foto: Arquivo Pessoal

Segui junto com um corredor mexicano e ele me chamava para ir com ele. Eu só pensava na sorte que estava tendo de encarar um trecho de estradão justo quando minha visão estava pior. Mas pouco depois levei um tombo feio, fui de joelho em uma pedra e senti muita dor. Fiquei um tempo no chão e meu joelho sangrava. Levantei e andei um pouco até que eu me acostumasse com a dor para voltar a correr. Só rezava para que amanhecesse, pois ficaria mais fácil de enxergar. Caí algumas vezes até que isso acontecesse.

Quando cheguei ao A8, quilômetro 104, estava amanhecendo. Gastei um pouco mais de tempo nessa transição, comendo e tendo a certeza de que estava com a mochila lotada para encarar o próximo trecho. Ele era o mais duro de todo o percurso.

Saí e veio uma subida que no comecinho era suave, mas durou pouco. Peguei um trecho em zigue-zague, que começou a ficar pesado. Como não era permitido o uso de bastes, tudo ficava mais difícil. Depois disso começamos a encarar as subidas íngremes de frente. Toda vez que achava estar chegando ao fim, subia mais. Aquela serra parecia não ter fim.

Quando começamos a descer de vez, nada aliviou. Era muito técnico, íngreme e perigoso. Chegando ao final estava perto do A9, tão sonhado abastecimento. Vi minha equipe comemorei como louca. Foi aí que avistei uma enorme bandeira do Brasil e pessoas que gritavam meu nome. Era a família Onoda, pessoas maravilhosas que conhecemos na semana anterior à prova. Estava prestes a encarar mais um duro trecho de montanha. Saí sozinha e aos poucos fui encontrando outros corredores. Vi uma mulher, e quando a ultrapassei percebi que era a Julia, da Salomon. Ela não parecia estar muito bem, pois andava em ritmo devagar. Depois de um pouco de tempo no plano entramos numa linda floresta e começamos a subir.

A descida começou suave e divertida. Em alguns momentos me deparava com degraus feitos de tocos de madeira, que eram bastante ruins de descer. No final de tudo encontrei mais uma vez a família Onoda, que me sinalizava que o A10 estava apenas a três quilômetros daquele ponto. O asfalto doía, mas com o incentivo deles cheguei rapidamente ao ponto de abastecimento.

Minha equipe de apoio me esperava com muito ânimo no A10. Eu estava com fome e sabia que faltavam apenas a 30 quilômetros para o final da prova. Cheguei com a intenção de comer um cup noodles, mas enquanto esperava preparar comi um kit kat, depois comi outro e depois comecei a comer uma barra de sneakers. Eu não entendia como o meu corpo aceitava comidas doces depois de passar a prova inteira me alimentando de gels. De qualquer forma esqueci do macarrão e saí rumo ao A11. Me despedi da equipe de apoio, pois eu só os veria na chegada.

Saí em direção a uma subida, que confesso ter sido uma surpresa. Me confundi com a altimetria no mapa e jurava que pegaria um trecho plano, porém era um trecho de muitas subidas. Isso foi um jogo mental e tive que driblar essa dificuldade com sabedoria, pois meu corpo já estava cansado.

Foi aí que um corredor japonês me ultrapassou, me felicitando pelo pódio. Eu não entendia o que ele estava falando, mas ele repetia. Foi aí que escutei com clareza. Eu não acreditava! Aquilo simplesmente caiu como uma injeção de ânimo, e vibrei com aquela notícia.

Quando desci da montanha, cheguei à parte plana. A trilha neste ponto era linda. Depois veio um trecho maior de asfalto, em que fiz jogos mentais para driblar o cansaço. Assim, sai rumo aos últimos 11 quilômetros de prova.

Minha energia já estava toda focada na linha de chegada. Aqueles 168 quilômetros foram compactados em 11, eu deveria seguir lutando. A última subida não era nada comparada as outras, mas já estava com muitos quilômetros nas pernas e isso pesava.

Coloquei o Ipod e comecei a escutar música. Relaxei um pouco com o som e em certo momento resolvi olhar para trás. Meu corpo inteiro gelou. Vi uma mulher se aproximando e não acreditei. Veio o filme do UTMB na minha cabeça, onde tive que disputar os últimos quilômetros. Não queria viver aquilo novamente. Meu corpo doía e eu queria fechar a prova de maneira mais tranquila.

Desliguei o Ipod imediatamente. Em seguida tomei toda minha água. Sabia que daquele ponto em diante teria que correr até a chegada, brigando por cada passo que tivesse que dar. Entrei na guerra. Comecei a correr mais forte. Acelerei tudo que podia naquelas descidas e pensava no pódio, que podia escapar por entre meus dedos por uma questão de segundos. Pensava o quanto queria a quinta colocação e nas pessoas que estavam torcendo por mim.

Foi aí que veio a surpresa. Um corredor japonês me ultrapassou e quando me dei conta ele era a “mulher” que tinha visto. Pela roupa, vi que era a mesma pessoa. Já estava cansada e um pouco delirando por não ter dormido, por isso na minha cabeça viu uma mulher. Senti um alívio inexplicável.

Depois de um tempo correndo escutei uma voz chamando meu nome. Era o Takaki, estava muito próxima do fim. Fui abordada pela Marie Onoda, sua mulher, que corria ao meu lado. O Takaki se juntou a nós e me disse que faltavam apenas 500 metros. Avistei o Yasuo, Satoko e toda minha equipe de apoio. Meu corpo estava todo arrepiado. Eu havia conseguido!

Ela completou a prova em 28h21m Foto: Arquivo Pessoal Ela completou a prova em 28h21m Foto: Arquivo Pessoal

Cruzei a linha de chegada com um pulo e deixei sair um grito muito forte. Percorri os 168 quilômetros de prova em 28h21min, terminando em quinto lugar e garantindo o meu lugar no pódio. Em seguida avistei Naoki com minha cerveja na mão e saí para abraçar todos que estavam me acompanhando. Foi um momento especial e inesquecível!

Apesar de não ter sido nada fácil, tenho a certeza de que cada passo dessa jornada valeu a pena! Gostaria de agradecer muita gente. Agradeço meu patrocínio The North Face, meus apoios D Vitaminas, IBS Bikes, Recover You, Espaço Nirvana e Kofukan. Agradeço a equipe de profissionais que me acompanha, sendo meu treinador, fisioterapeuta, nutricionista, acupunturista, médico, e meus professores de pilates e yoga. Agradeço a torcida enorme que me acompanha e que nela estão meus amigos dos mais próximos aos mais distantes. Agradeço minha família, que sempre está ao meu lado me dando suporte. Agradeço a família Goldwin pelo apoio durante a prova e na minha estadia no Japão. Agradeço a Família Onoda por todo o suporte antes, durante e depois da prova. Agradeço meu amigo e parceiro de equipe Marcelo Sinoca e minha amiga e parceira de equipe Fernanda Maciel pela companhia todos esses dias no Japão. Um agradecimento especial à Susana Matos e Francisco, que nos ajudaram a chegar e voltar do Japão. Agradeço saúde, proteção e essa luz especial em cima de mim, sempre me guiando. Obrigada!

Manu conquistou o quinto lugar no pódio Foto: Arquivo Pessoal Manu conquistou o quinto lugar no pódio Foto: Arquivo Pessoal

Este texto foi escrito por: Webrun

Redação Webrun

Ver todos os posts

Releases, matérias elaboradas em equipe e inspirações coletivas na produção de conteúdo!