Ultramaratonista Manuel Lago vence prova nos EUA mesmo com um urso no meio da trilha

Redação Webrun | Corrida de Montanha · 18 jun, 2013

Não foram só os corredores que tiveram de enfrentar as dificuldades do percurso. Um urso pipoca acabou aparecendo pela trilha (foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal)
Não foram só os corredores que tiveram de enfrentar as dificuldades do percurso. Um urso pipoca acabou aparecendo pela trilha (foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal)

Participar de uma ultramaratona de montanha prova com mais de 42 quilômetros de distância em trilhas já requer um preparo muito diferenciado. Afinal, o chão não é de asfalto e sim terra batida, cascalho, areia, grama e barro. Sem contar as subidas íngremes, que são os maiores desafios. Mas cruzar com cobras e um urso no meio do percurso são desafios que nenhum treino consegue prever.

Acompanhe no relato do ultramaratonista Manuel Lago como foi que o atleta conseguiu superar a distância de 100 quilômetros e os “pipocas” que surgiram pelo caminho.

Direto de Santa Bárbara, Estados Unidos– No início do ano, montando o meu calendário de corridas Ultra Trail visando o “grand finale” UTMB (Ultra-Trail du Mont-Blanc), que acontece em agosto, escolhi os 100k de Bandera (Texas, Estados Unidos – janeiro), 100k Patagonia Run (Argentina – abril) e 100k SBTR (Santa Barbara Trail Run Santa Barbara, Estados Unidods – junho).

Entretanto, essa última escolha não foi exatamente o que eu esperava. Fiquei na dúvida entre três corridas: 100 milhas de San Diego, 100k SBTR e 80k San Juan Solstice (Colorado).

A prova de San Diego lotou em dois dias e como não havia acertado o projeto com meu patrocinador ainda (Barthodomeu) comecei a estudar as outras duas. Sobre a prova no Colorado, fiquei receoso sobre correr numa altitude de 4.200 metros, não haveria tempo para aclimatar e achei melhor ir para a Califórnia.

Decisão tomada– A SBTR foi realizada simultaneamente com a DRTE (Dirt Road and Trails Endurance) 100 milhas, cujo recordista é simplesmente Geoff Roes (ultramaratonista americano com currículo recheado de vitórias e recordes). Além disso, a prova está cadastrada como qualificativa para o UTMB, logo há certa credibilidade.

Um pouco antes da corrida, fiquei sabendo que a demanda não estava legal, havia entre 25 e 35 corredores somente. Porém, estava concentrado em ganhar a prova, não importava quantos ou qual o nível dos competidores. Ledo engano.

Apenas três competidores conseguiram terminar a SBTR, que teve Manuel Lago como campeão   Foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal
Apenas três competidores conseguiram terminar a SBTR, que teve Manuel Lago como campeão Foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal

A prova é um pouco desorganizada, o diretor faz tudo por ser um entusiasta do Trail Run, não tem lucro com o evento. Apesar dos postos de controle serem completos, não há staff médico ao longo do percurso. O pórtico de largada e chegada é bem rústico e até o sistema de controle de tempo é manual.

A largada foi no dia 15 de junho, às 7h. As trilhas são muito boas de correr, a paisagem é deslumbrante e há somente um pedaço longo de estrada de terra, aproximadamente nove quilômetros de descida na ida, logo, nove quilômetros de subida na volta. Sim, o percurso é no formato bate-volta. Vai 50 quilômetros e volta 50. O desnível positivo do percurso impressiona: 5.700 metros!

Companheiros inesperados– Porém, o maior inimigo foi o calor. Foram 30°C o dia todo, muita gente desidratando, com insolação e a maioria desistindo. Há muito tempo que não competia num clima tão desfavorável. Nesse aspecto foi bom, para testar minha capacidade física.

Não bastasse o calor, muitas cobras cascaveis pelo caminho, sorte que não cruzei com nenhuma. Só as vi se escondendo na vegetação. Mas o principal foi um urso preto no meio do percurso! Isso mesmo, um urso gigante! Faz o quê? Correr mais rápido ainda!

Reflexões– Ao final da prova liderei de ponta a ponta , fechei em 12h02, mais ou menos, com a seguinte reflexão: poderia ter curtido mais, fotografado mais, conversado mais… Deixei-me levar pela competição pura e simples e não aproveitei o que a montanha nos oferece. Resisti fisicamente e sem sequelas, mas com uma ponta de decepção. Que o UTMB cure tudo isso!

A bela paisagem do percurso fez Manuel Lago rever seus conceitos sobre a corrida de montanha   Foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal
A bela paisagem do percurso fez Manuel Lago rever seus conceitos sobre a corrida de montanha Foto: Manuel Lago/ Arquivo Pessoal

P.S: Dos 30 corredores que largaram, só três completaram os 100 quilômetros! A segunda colocada fechou em 15h30 aproximadamente. Na prova DRTE 100, 35 largaram e só 16 completaram. Foi considerada uma das corridas de montanha mais duras do Oeste americano.

Deixar o registro de agradecimento aos patrocinadores Barthodomeu, B2C Construções, Farmácia Analítica, Geonunes e Dra. Maria Amélia Bogéa.

Este texto foi escrito por: Manuel Lago, especial para o Webrun

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