Eu amo Nova York e sempre quis correr nessa cidade. Apesar de não ser adepta de corrida de rua, obviamente faço meus treinos em pistas, parques e ruas para me preparar para as corridas de aventura e de montanha que sempre corro e tenho mais aptidão, digamos assim. Já havia me inscrito pra Meia Maratona de NY em 2012 e fui aprovada, mas não corri porque lesionei a perna e fiquei três meses sem poder correr. Foi então que resolvi arriscar o sorteio ano passado e fui aprovada.
A equipe Núcleo Aventura foi em peso para a prova. Foto: arquivo pessoalForam três meses de preparação após um ano de poucos treinos. Passei por um tratamento muito forte no primeiro semestre, que me deixou bem debilitada por alguns meses. Só voltei a me sentir bem por volta de setembro e retomei os treinos. Foi então que no fim de dezembro, quando eu ia começar a periodização pra Meia Maratona de NY, minha técnica Cris Carvalho faleceu. Um dia antes do falecimento era a data que havíamos combinado para ela me mandar as planilhas para as dez semanas de treino.
Foi um baque, um choque e eu resolvi começar os treinos sozinha, colocando em prática tudo que ela havia me ensinado nesses anos todos. Dali em diante a Renata Castro, professora do Núcleo Aventura, começou a supervisionar meus treinos. Fiz todos eles sozinha, sem participar dos treinos da equipe, focando no resultado que eu queria e dosando o nível de esforço e por conta da minha saúde.
Cheguei em NY três dias antes da prova me sentindo super bem, forte, preparada. Fiz ótimos treinos a 11/ 12km/h e estava confiante que conseguiria um bom resultado. Um dia antes da largada, um frio absurdo começou a me deixar preocupada. Saí correndo pra comprar um casaco a mais para poder manter a temperatura controlada durante a prova. Esperava frio, mas a previsão mostrava possíveis temperaturas ainda mais baixas a cada momento. Largamos com o termômetro marcando sensação de -3°C e um vento cortando a pele, mesmo com roupa para isso. Eu não sentia minha perna e quadril, pareciam anestesiados.
O rosto de Cris Carvalho estampado na camisa foi uma homenagem à treinadora e amiga. Foto: arquivo pessoalA prova largou no Central Park e desceu para o Bronx, retornando para MidTown pelo Central Park mesmo e depois descia a 7ª Avenida até a Times Square. Dali, virávamos na 42th St até a West Side Highway, uma via enorme que beira o Rio Hudson e onde começaram meus reais problemas com o frio. O sol desapareceu e o céu já mostrava que a neve estava chegando. O vento contra durante as cinco milhas (oito quilômetros) que percorremos ali cortava o rosto, atravessava o casaco, a segunda pele e, principalmente, as pernas, que só tinham uma camada de roupa. Comecei a sentir meus músculos completamente contraídos, diminuindo minha passada, forçando a lombar e em um momento eu percebi que não evoluía nada. Um fato interessante é que a prova passa pelo novo World Trade Center e termina na Wall Street.
Essa medalha foi uma bela recompensa. Foto: arquivo pessoalO gel já não fazia mais efeito e o jeito foi alternar corrida e caminhada para soltar os músculos. Assim, com dores, cãibras, contrações e fadiga muscular, fui até o fim, cerca de oito quilômetros nessa tortura. Terminei muito acima da minha expectativa, com um tempo que jamais imaginei fazer, mas consciente de que todos podem ter problemas em uma prova, mesmo fazendo bons treinos. O clima é um dos nossos desafios sempre. Não adianta estar bem preparado fisicamente, apenas. Temos que contar com fatores favoráveis também, para que tudo evolua bem.
Mas, mesmo decepcionada com o resultado, fiquei absolutamente feliz em fazer a prova. A energia das pessoas que vão para assistir é incrível. São vários cartazes com frases motivacionais, piadas que te distraem no momento de dor, grupos gritando incentivos, bandas tocando em várias esquinas, policiais aplaudindo os atletas o tempo todo e uma organização impecável. São 35 mil pessoas correndo em uma prova onde não falta água, staff, equipe médica, gel de carboidrato, nada!!
A energia e a emoção de correr pela cidade que mais amo valeu cada cãibra que senti. Fiquei engasgada com meu tempo, mas quem sabe em 2017 não estarei aqui de novo fazendo melhor, não é!? Enquanto isso, volto pro meu mato, para minha lama, minhas montanhas com subidas e descidas cheias de pedras e galhos mas com a cabeça no asfalto gelado de Manhattan.
Este texto foi escrito por: Lilian Haddad Akkouh, especial para o Webrun