
Liberdade do pace e ambientes diferentes são os fatores que motivam Rosalia (foto: Alexandre Koda/ www.webrun.com.br)
A diferença entre uma prova de rua e uma corrida de montanha não se limita somente ao aspecto visual. A troca do asfalto nivelado por vias de paralelepípedos e trilhas com barro e cascalho exige preparação física específica, além do uso de equipamentos para garantir a segurança e desempenho para quem decide se aventurar longe dos locais urbanizados.
Em uma prova de montanha o contato com a natureza acontece a todo o momento, além de ser intenso. Segundo adeptos do trail running, gostar de estar perto da natureza é fundamental para deixar o asfalto e enfrentar as trilhas. O primeiro ponto é saber respeitar a natureza. O corredor de montanha precisa adorar estar no meio do mato, afirma Manuel Lago.
O ultramaratonista e treinador de corrida ainda acrescenta que somente ser ligado ao meio ambiente não é o suficiente para deixar de lado treinos e competições na cidade. Outro ponto básico são os acessórios. Já corri várias provas com tênis de asfalto, mas com o tempo é necessário ter um calçado específico para trail. Outro detalhe está nas meias de compressão, que além de melhorarem a circulação, protegem as pernas contra plantas urticárias, conta. A mochila de hidratação também é essencial. Saber correr com ela é muito importante.
Mudança nos treinos– Após iniciar no mundo das corridas, Lago experimentou sua primeira ultramaratona de montanha em 2009, mas foi durante a Ultra Trail du Mont Blanc (UTMB), prova que corta os Alpes, passando por França, Itália e Suíça, que o atleta se deu conta dos pontos necessários para se tornar um corredor de montanha de alto nível.
Quando cheguei para fazer a prova, achei que estava bem treinado. Mas logo no início percebi que teria de me preparar muito mais para ter um bom desempenho, revela o treinador.
Durante a fase de transição do asfalto para a trilha, Lago aponta que o corredor precisa ter em mente que o plano não existirá mais. A rotina de treinos precisa ser adaptada para que o atleta se acostume com a falta de nivelamento do solo e colocar na cabeça que caminhar também é normal e necessário, afirma.
Começar os treinos em ruas de paralelepípedos ao invés do asfalto ou concreto liso é um dos pontos principais apontado pelo ultramaratonista. Além disso, estudar a altimetria e se preparar psicologicamente para as dores no corpo também fazem parte da mudança.
Depois de se acostumar com o desnível, é hora de encarar subidas e descidas, no asfalto mesmo. Subir escadas também é um bom treino. A fadiga muscular com essa rotina de preparação será muito maior, adianta.
Andar é mais rápido– Durante a UTMB, Lago precisou encarar subidas em que muitos competidores conseguiam o acompanhar andando. Muitas vezes andar é mais inteligente. Você consegue desenvolver boa velocidade e faz esforço muito menor. Isso poupa seus músculos para as descidas, que é a parte em que é preciso ser rápido para ganhar tempo.
Escravidão do pace– Rosalia de Camargo é uma corredora de montanha amadora, mas os resultados conquistados por ela a credenciam como uma das melhores atletas da categoria no Brasil. Em 2012, a carioca venceu as etapas de Tiradentes e Mangaratiba do Xterra, além de ter conquistado o segundo lugar na XC 42K Búzios e quinto lugar na K42 Bombinhas.
Antes de ingressar nas trilhas, Rosalia era adepta de corridas de rua e participava de competições de Ironman, porém, a rotina de treinos puxada e desgastante acabaram levando-a para ambientes menos agitados. A minha transição do asfalto para a trilha foi rápida. Depois que eu fiz minha primeira maratona de montanha, não quis mais abandonar a trilha, conta.
Para a amadora, os treinos de subida são os mais difíceis, mas o fato de estar em locais diferentes, sem a mesma preocupação em checar toda hora o relógio e o frequencímetro é o que a motiva. Não corro mais na rua. Não sou mais escrava do pace também, afirma.
Segundo Rosalia, três pontos são importantes para quem está prestes a iniciar em corridas de montanha: equipamentos, consciência ecológica, para não deixar lixo na trilha, e do próprio corpo. Eu demorei para conseguir achar a vestimenta ideal para as corridas. Eu não uso meias de compressão, nem mochila de hidratação, porque não me sinto bem, explica a carioca, que não vê diferença entre as organizações de corridas de rua e montanha. Hoje você encontra postos de hidratação nas trilhas, por isso poupo meu corpo do peso da mochila.
Este texto foi escrito por: Renato Aranda