Revendo o vídeo da mega atleta, recordista mundial da maratona, Paula Radcliffe, sentada na calçada e chorando após desistir da Maratona Olímpica de Athenas, onde era a favorita, cada vez mais entendo que o corpo não é uma máquina e que tem dias que ele realmente não quer correr. Anos atrás estava treinando para uma Meia Maratona importante e acordei bem cedo para fazer um treino intervalado no Parque do Ibirapuera. Já estava no período específico e aquele treino era dos mais difíceis do planejamento, mas tinha plena consciência de como ele seria importante e me daria confiança para a prova alvo.
O problema é que na noite anterior não havia dormido as horas necessárias e logo que iniciei o aquecimento já senti que a coisa não estava boa. Fiz o primeiro tiro sofrendo e em ritmo bem acima do programado. O segundo foi pior ainda, meu organismo estava dando vários sinais negativos e como tinha um horário livre na parte da tarde, resolvi que iria interromper a sessão, ir para casa descansar e voltar para cumprir o treino inteiro depois.
Lá pelas tantas da tarde estava eu na pista do Centro Olímpico novamente fazendo meu treino. Já no aquecimento me senti bem mais à vontade. Sai para o primeiro tiro e foi até fácil. Segundo, terceiro, quarto, quinto e assim foi. Para ajudar, alguns atletas estavam na pista e ficavam gritando e me incentivando a cada volta.
Tiros e mais tiros fortes e quando vi já havia completado os meus 20 de 400 metros com pausa de 100 metros trotando. Foi simplesmente inesquecível. O melhor treino de minha vida. Agradeci o apoio da turma e saí de lá rindo à toa, me sentindo o melhor atleta do mundo!
Bom senso – Se tivesse insistido em realizar o treino na parte da manhã, além de gerar em meu organismo uma carga totalmente desnecessária e acima do programado. Eu demoraria muito mais para me recuperar, comprometeria a semana de treinos e correria o sério risco de sofrer uma lesão e de ter que ficar um bom tempo parado, podendo inclusive ficar fora da prova para a qual tanto havia treinado.
Quando o corpo não quer correr, seja em um treino ou em uma prova, o mais sensato é reduzir o ritmo e, se necessário, até interromper o treino ou abandonar a prova. Que nos perdoem aqueles que acham lindas as histórias heróicas de quem chegou cambaleando, porém chegou, mesmo que após tenha ficado meses sem poder calçar um tênis. Na concepção mais moderna, inteligente e sensata, preconizada pelos grandes estudiosos, antes de cada sessão de treino ou prova é muito importante saber como está o corredor.
É importante saber se dormiu as horas necessárias, se está bem alimentado e como está seu ânimo para cumprir aquela meta. Qualquer sinal apresentado também durante o treino deve ser avaliado. Em épocas passadas o treinador dizia que o corredor tinha que fazer aquele treino e acabou. Alguns até fizeram resultados com esta metodologia militar, mas muitos outros talentos foram desperdiçados ou infelizmente lesionaram-se gravemente.
Todos nós, independente de nível técnico ou tempo de treinamento, já passamos por uma situação na qual o corpo não correspondeu, mesmo muitas vezes enfrentando um treino ou um ritmo de prova sem um grau de exigência física elevado. Os motivos são muitos: alimentação inadequada para aquele dia, problemas emocionais, uma noite mal dormida, um dia tenso no trabalho, temperatura adversa, falta de recuperação adequada de um treino para o outro, baixo nível hormonal, queda do sistema imunológico, indisposição estomacal, TPM no caso das mulheres, super treinamento, início de gripe e etc.
No trabalho próximo com nossos alunos e atletas, temos buscado fazer planilhas mais flexíveis e ouvi-los o máximo possível antes, durante e após os treinos. Rotineiramente trocamos o treino mais forte pelo mais fraco e o transferimos para o outro dia, mesmo que para isso haja algum prejuízo no plano da semana. Lógico, não se pode confundir este tipo de situação com a velha e famosa preguiça. Também não se pode sair por aí parando em provas ao mínimo sinal que não se vai atingir o tempo ou colocação desejada, como muitos corredores fazem.
É preciso estar sempre atento àquelas pessoas mais manhosas, que costumam amolecer diante da primeira adversidade apresentada. Mas em geral deve haver um plano de treino mais flexível e um plano B de prova, sobretudo se considerarmos que o corpo não é uma máquina programada feito um computador, até porque os computadores também costumam dar muito problema!
Alternativas – Uma planilha de treinos flutuante seria uma boa solução para este tipo de situação. Uma planilha em que haja a opção de percorrer uma quilometragem menor ou em ritmo mais fraco em dias de indisposição, ou até aumentar um pouco o ritmo ou volume de treino, em dias onde o corredor sentir que corpo está muito bem. O treinador deve inclusive orientar o corredor a abandonar o plano de prova e ousar um ritmo um pouco mais forte, caso esteja sentindo-se em um dia especial. Foi assim que fizeram nosso Vanderlei Cordeiro de Lima quando ganhou a medalha olímpica na maratona de Athenas e Marilson Gomes dos Santos ao vencer brilhantemente a Maratona de Nova York em 2006.
Quando o assunto é treinamento ou competição, é necessário ficar sempre muito atendo às condições climáticas, conhecer o máximo de variáveis fisiológicas possíveis e estar sempre bem perto
da pessoa que elaborou seu treino. Daí, mais um ótimo motivo para treinar sob a orientação de um profissional qualificado, evitar o auto treinamento e fugir daquelas tão milagrosas planilhas genéricas, preparadas como se treinamento fosse receita de bolo!
Algumas vezes será mesmo necessário buscar o limite daquele dia, principalmente quando se almeja uma prova importante, ou um recorde pessoal. Todavia, é importante sempre considerar que o resultado final de um objetivo é a soma de vários treinos e descansos e não somente o que você conseguiu produzir naquele dia.
Para treinar ou competir corretamente e obter sucesso é preciso muita sabedoria. Como diz a famosa frase do velho sábio: o rio atinge seus objetivos, pois aprendeu a contornar os obstáculos.
Este texto foi escrito por: Nelson Evêncio