O joelho da mulher corredora – parte 1: condromalácia

Redação Webrun | Atletismo · 15 abr, 2013

O desenho mostra a fragmentação focal da cartilagem articular da patela (foto: Arquivo pessoal)
O desenho mostra a fragmentação focal da cartilagem articular da patela (foto: Arquivo pessoal)

A quantidade de mulheres que ingressam na corrida de rua tem aumentado de maneira consistente. Desde que a americana Kathrine Switzer correu a Maratona de Boston em 1967, disfarçada de homem, e quebrou o tabu de que as mulheres “não tinham força e resistência para correr os 42.195 metros”, elas não pararam mais de aderir ao movimento de saúde e qualidade de vida por meio da caminhada e corrida.

Aliado a isso, o surgimento nos últimos dez anos de assessorias e circuitos focados no sexo feminino sem dúvida fomentam esta explosão de corredoras nas ruas. Segundo o site Running USA, as mulheres já representam 53% dos corredores naquele país. O número foi apresentado no 19º Congresso Mundial da AIMS (Associação de Maratonas Internacionais e Corridas de Distância) em Praga, em maio de 2012.

Joelho– Estudos publicados nos últimos 20 anos mostram que as mulheres não apenas estão se lesionando, mas que o fazem em taxas absurdamente maior que os homens. Para a corrida de rua, esta proporção de lesão no joelho extrapola o índice de um homem para sete mulheres lesionadas, considerando a mesma intensidade e volume dos treinos. Mas, por que isso ocorreria? Seria o uso do salto alto, força muscular reduzida? Anatomia? Por que o joelho da mulher é mais suscetível a lesões?

Autores que estudam a mulher corredora afirmam que as atletas exibiriam um tempo de recrutamento de grupos musculares mais prolongado que os observados em homens e que isso poderia afetar a dinâmica de diversas articulações, principalmente do joelho. De maneira mais didática, isso significa que, em uma aterrissagem do vôlei, por exemplo, o “comando” vindo do cérebro para que a musculatura se contraia de maneira adequada chega “atrasado” em alguns músculos, principalmente nos glúteos médio e mínimo no quadril (músculos estabilizadores da pelve) e no vasto medial (músculo interno da coxa) fazendo com que o fêmur “rode para dentro” e deixe a patela mais exposta, em contato reduzido das superfícies articulares.

Quanto menor a área de contato, maior a pressão e, consequentemente, maior a chance de lesão crônica de tecidos, em especial a cartilagem patelar. Nos últimos cinco anos, alguns autores provaram existir o valgo dinâmico (figura 1) por meio do exame chamado eletromiografia e da ressonância magnética dinâmica (em movimento) e postulam que o problema de mulheres corredoras é na verdade funcional e não só anatômico como se pensava há 30 anos.

Isso significa que a cada passo da corrida, a mulher estaria sujeita ao valgo dinâmico? Sim. A fase inicial da corrida é chamada de absorção de impacto, no qual a energia cinética do contato do pé ao solo é absorvida através da contração muscular e da flexão do joelho. Havendo o valgo dinâmico, existiria um microtrauma de repetição que em medio e longo prazo desenvolveriam sintomas como a dor, desconforto e inchaço no joelho.

A figura 1 mostra a diferença de uma aterrissagem de uma mulher (à esquerda) e de um homem (à direita). Note que os joelhos da mulher caem “para dentro” (valgizado) e em rotação interna e que isso não acontece com o homem.

Confira na continuação do artigo a caracterização da condromalácia, seus sintomas e tratamento.

Condromalácia– A condromalácia patelar (também conhecida como síndrome da dor patelo-femoral, ou “joelho de corredor”) consiste em uma doença degenerativa da cartilagem articular da superfície posterior da patela (figura 2).

O termo vem do latim e significa, em sua essência, “amolecimento da cartilagem”. Muito comentada e estudada desde o início dos anos 90 com o advento da ressonância nuclear magnética como ferramenta diagnostica de lesões no joelho.

Dentre o rol de doenças do joelho da mulher corredora, esta estaria intimamente ligada ao valgo dinâmico e, infelizmente, tratada de maneira incorreta em muitos casos. Acredita-se que a doença desenvolva-se a partir do contato excessivo da cartilagem da rótula que estaria lateralizada em relação ao seu “trilho”, a tróclea femoral. A distribuição desigual dos pontos de pressão causaria, em longo prazo, morte celular e desarranjo da matriz extra-celular, com consequentes sintomas de dor, crepitação ou sensação semelhante à “areia” dentro do joelho,estalos e, às vezes, falseios. No início, a lesão dá-se por amolecimento da cartilagem. A seguir, pode haver ulcerações, fissuras, terminando com o desgaste de toda sua espessura, evoluindo, assim como qualquer lesão cartilaginosa, para a osteoartrose.

Graus– Segundo a classificação descrita por Outerbridge (1961), existem 4 níveis de condromalácia patelar, de acordo com o estágio de deterioração da cartilagem.

  • I – Amolecimento da cartilagem e edemas. Este estágio é considerado como normal por quase todos os autores e estaria presente em quase toda a população acima de 20 anos de idade.
  • II – Fragmentação de cartilagem ou fissuras com diâmetro menor do que 1,3 centímetro.
  • III – Fragmentação ou fissuras com diâmetro superior a 1,3 centímetro.
  • IV – Erosão ou perda completa da cartilagem articular, com exposição do osso subcondral.
  • O que se sente? – Os principais sintomas são: dor profunda no joelho, às vezes irradiada para a região posterior, desencadeada na corrida e, posteriormente, ao subir e descer escadas, ao levantar-se de uma cadeira, muitas vezes restringindo para atividades da vida diária. Crepitação e estalos, muitas vezes audíveis são comuns.

    Quando existe o acúmulo de líquido dentro do joelho, conhecido popularmente como “água no joelho” indica haver agravo da doença com uma complicação comum denominada sinovite, uma reação inflamatória da membrana sinovial que reveste o joelho.

    Como se trata? – O tratamento fundamenta-se na detecção da presença do valgo dinâmico e de desequilíbrios musculares através do exame físico minucioso, com atenção especial para a musculatura do quadril feminino, observando-se a postura adotada no movimento de descida, detecção de pisada muito pronada pelo teste de baropodometria e avaliação do equilíbrio muscular entre musculatura anterior da coxa (extensores do joelho) e posterior (flexores do joelho) através do teste de força ou avaliação isocinética.

    A reabilitação envolve recursos anti-inflamatórios iniciais como o laser e o ultrassom, seguidos da ativação de grupos musculares enfraquecidos, muitas vezes com auxílio da eletroterapia (correntes russa ou australiana), seguida do fortalecimento e aumento do tempo de ativação de grupos musculares através dos treinos proprioceptivos e pliométricos. Muitas vezes, o uso do salto alto deve ser reduzido por determinado período e pisadas muito pronadas ou muito supinadas também devem ser tratadas.

    Tratamento cirúrgico – O tratamento cirúrgico da condromalácia patelar nunca deve ser a primeira opção no tratamento da doença e se reserva aos casos em que não houve melhora após reabilitação bem feita com defeito cartilaginoso de graus III ou IV e com encurtamento crônico da retinácula lateral (tecido que segura a patela na região externa). Nestes casos, através da artroscopia do joelho pode-se realizar a regularização da cartilagem lesada (Figura 3), retirada de corpos livres e a soltura da retinácula encurtada, procedimento chamado de “release lateral”. Terapias adjuvantes como a aplicação intra-articular de ácido hialurônico no período pós-operatório auxilia no tratamento e previne a recidiva de sintomas.

    Referências bibliográficas

  • 1 Hewett TE, Myer GD, Ford KR, et al. Biomechanical measures of neuromuscular control and valgus loading of the knee predict ACL injury risk in female athletes. Am J Sports Med. 2005;33:in press.
  • 2 Beynnon BD, Fleming BC. Anterior cruciate ligament strain in-vivo: a review of previous work. J Biomech 1998;31:519 25.
  • 3 Li G, Rudy TW, Sakane M, et al. The importance of quadriceps and hamstring muscle loading on knee kinematics and in-situ forces in the ACL. J Biomech 1999;32:395 400.
  • 4 Markolf KL, Graff-Redford A, Amstutz HC. In vivo knee stability: a quantitative assessment using an instrumented clinical testing apparatus. J Bone Joint Surg [Am] 1978;60:664 74.
  • 5 Besier TF, Lloyd DG, Cochrane JL, et al. External loading of the knee joint during running and cutting maneuvers. Med Sci Sports Exerc 2001;33:1168 75.
  • 6 Rozzi SL, Lephart SM, Gear WS, et al. Knee joint laxity and neuromuscular characteristics of male and female soccer and basketball players. Am J Sports Med 1999;27:312 19.
  • 7 Wojtys EM, Ashton-Miller JA, Huston LJ. A gender-related difference in the contribution of the knee musculature to sagittal-plane shear stiffness in subjects with similar knee laxity. J Bone Joint Surg [Am] 2002;84:10 16.
  • 8 Zazulak BT, Ponce P, Straub SJ, et al. Gender comparison of hip muscle activity during single-leg landing. J Orthop Sports Phys Ther 2005;35:in press.
  • 9 Myer GD, Ford KR, Hewett T. The effects of gender on quadriceps muscle activation strategies during a maneuver that mimics a high ACL injury risk position. J Electromyogr Kinesiol 2005;15:in press.
  • 10 Besier TF, Lloyd DG, Ackland TR, et al. Anticipatory effects on knee joint loading during running and cutting maneuvers. Med Sci Sports Exerc 2001;33:1176 81.
  • Este texto foi escrito por: Dr. Adriano Leonardi

    Redação Webrun

    Ver todos os posts

    Releases, matérias elaboradas em equipe e inspirações coletivas na produção de conteúdo!