
Nelson garante que a experiência faz o atleta saber respeitar melhor os seus limites (foto: Arquivo Webrun)
O ano mais marcante na minha vida de corredor de rua foi 2003, quando obtive os meus melhores tempos, em diversos percursos, desde os cinco quilômetros até uma meia maratona. Nesse período treinei como nunca e, apesar de ter muito mais biomecânica e facilidade para as corridas curtas (corria 100 e 200m em pista), em todas as provas de rua que participei, entrei decidido a dar o meu melhor e pagar o preço que fosse para chegar mais rápido.
Este mês de abril completa oito anos que vivenciei esta experiência, mas ainda me lembro como se fosse hoje. A Meia Maratona da Corpore eu cheguei a correr em um ritmo abaixo de 4/km (1h24min23), resultado: fiquei magro feito um frango, mas valeu a pena!
De lá para cá muita coisa mudou. Mais trabalho, mais responsabilidades, mais ocupações, mais compromissos e bem mais respeito pelos limites do corpo. Seria loucura querer treinar como naquele tempo, pois além de estar oito anos mais velho, outras atividades que executo durante o dia sairiam comprometidas .
Outra boa razão para não tentar repetir a dose é que o tempo, a vida, me proporcionou novas metas desafios tão maiores ou mais interessantes quanto baixar alguns segundos nas provas. De toda forma, aquele famoso bichinho que mora dentro de quem tem a ambição de sempre superar seus limites ainda vive bem aceso dentro de mim.
Resolvi que faria algo tão desafiador quanto antes, porém, mais ajustado a minha nova realidade de vida. Decidi que no primeiro semestre correria a mesma Meia Maratona da Corpore (10/04) em ritmo abaixo de 1h30 (415/km) e, no segundo, faria uma prova rápida de dez quilômetro abaixo de 40 (4/km).
Para isso sabia que era necessário treinar muito sério. Era uma meta que exigia muito respeito e sabia que havia o risco de não conseguir atingir meus objetivos caso pegasse uma temperatura adversa, dado a minha grande dificuldade em correr provas longas no calor. Mas isso foi só um tempero para deixar o projeto ainda mais interessante.
Fez parte do plano repartir minha ambição com o maior número de amigos possível, assim a pressão ficaria maior e me obrigaria a não esmorecer. Sabia que a manifestação dos amigos torcendo a cada treino realizado e a cada prova preparatória seria uma forte injeção energética, logo usei a moderna estratégia de ao final de cada treino correr para o computador e postar os resultados, assim como fiz em 2003 e deu muito certo!
Apesar da rotina de trabalho que me faz levantar pelo menos cinco dias da semana às 4h45, cheguei realizar seis treinos de corrida na semana, mais três de musculação, totalizando quase 70 quilômetros de corrida e quatro quilos a menos na balança.
Em seis domingos iniciei meus longos antes da 6h da manhã, quando ainda estava escuro, contrastando totalmente com a volta da turma da balada, que vinha no sentido contrário e, às vezes, até dizia algumas coisas do tipo: um dia ainda terei este pique e serei igual a você!
Alguns dias treinei em dois períodos, pois ou não dava tempo de fazer o treino inteiro em função de compromissos profissionais, ou não me senti muito disposto no primeiro treino e precisava dar continuidade depois. A lição que tirei disso é que saber ouvir seu corpo é algo muito importante e a gente aprende com o tempo.
Contagem Regressiva – Fiz apenas uma prova preparatória, exatamente três semanas antes da prova principal, mas que ajudou muito, foi primeira etapa do Circuito das Estações (dez quilômetros). O percurso, bem difícil, com muito sobe e desce, sendo os dois últimos quilômetros em subida, não tirou o meu otimismo de correr entre 41 (406/km) e 4130 (409/km), mas estava frio e para minha surpresa marquei 3955
Além de atingir a meta de correr abaixo de 4/km, programada para o semestre, fui 49° no geral e consegui pela primeira vez correr a segunda parte da prova mais forte que os cinco quilômetros iniciais. Ou seja, foi um grande presente dos céus poder correr sub 40 novamente, após seis anos. Fiquei uns dois ou três dias como uma criança feliz em dia de Natal!
Finalmente o tão esperado dia 10 de abril chegou e alguns minutos antes da prova lá estava eu alinhado atrás da faixa. Tocou a sirene e largamos. Digo largamos, pois além dos mais de quatro mil corredores inscritos, sabia que existiam dezenas de amigos na torcida. Gente que não poupou incentivos e orações pela minha tão sonhada prova.
Tive que me segurar muito nos primeiros quilômetros, pois o GPS dizia que estava rápido, mas o corpo pedia que eu corresse ainda mais. Estava num ritmo entre 412 e 415/km, mas me controlava bastante, vinha em um bloco onde o pessoal corria bem ritmado e sabia que preciosos segundos me dariam uma certa folga no final.
Passei os dez quilômetros em 4140 (410/km) e lá pelo quilômetro 12 parei para tomar um Gatorade, momento em que o sol dava as caras e já não corria com a mesma facilidade, embora ainda com um ritmo forte. No quilômetro 13 entramos na USP e cada vez fazia mais força para manter o ritmo. Tomei um gel, vi aquela galera toda torcendo, me empolguei e opa: quando olhei estava a 405/km! Tratei logo de conter a empolgação para não pagar caro depois.
Passei os 15 em 1h03min12 (413/km) e calor aumentava, o cansaço batia forte e ainda tinha uma boa sobra de tempo. Havia treinado muito para superar tudo e não poderia de forma alguma falhar. No quilômetro 17 começou uma luta tremenda entre o corpo e a mente, mas persisti.
Muita calma nessa hora – Há uma frase de um corredor vencedor das maratonas de NY, Londres e Chicago, chamado Steve Jones que diz: “Se, ao final de uma corrida eu ainda estiver de pé, me acerte com uma boa paulada, porque isso significa que não dei o meu máximo.
Sempre gostei de correr desta forma, mas por sorte, na véspera uma grande amiga disse, via SMS, para eu respeitar meus limites e não me exceder muito. Palavras curtas e sábias que martelaram em minha mente a prova toda. Tanto que, ao contrário do que sempre fiz, corri tentando não ultrapassar o limite da dor. Forte como pedia a meta, mas sempre com um pouco de sobra, dentro do que havia treinado e sabia que poderia suportar.
Faltando aproximadamente 3.000m para o final, fiz o quilômetro 19° em 420 e o 20° em 425, sendo estas minhas piores passagens. Mas estava bem consciente, sabendo que entraria no último quilômetro confortável, imaginando conquistar o sub 1h30.
Neste momento, ao invés de aumentar o ritmo, dar sprinter forte e ultrapassar um monte de gente, como sempre gostei de fazer, resolvi renunciar totalmente meu ego de ex-atleta, curtir um pouco mais aquele final de prova e chegar mais feliz, na verdade nem eu mesmo estava me reconhecendo.
Mais a frente, vi a tão sonhada linha de chegada e já pude ouvir o amigo locutor (Paulo Bueno) anunciando meu nome. Abri os braços, sorri e cruzei a faixa muito feliz. Dei alguns passos e ajoelhei para agradecer a Deus por todos os meus treinos difíceis, por tudo que aprendi durante a preparação e por mais uma inesquecível prova. O relógio marcava 1h29min25 (414/km). A missão finalmente estava cumprida: Meia Maratona abaixo de 1h30!
Este texto foi escrito por: Nelson Evêncio