
Muitos atletas correram caracterizados com os antigos gregos (foto: Arquivo Pessoal)
Direto de Atenas – A Grécia transborda história e tradição. Para os pitagóricos, o número 28 tem um significado especial. É considerado perfeito, pois a soma de seus divisores é igual a ele mesmo (1 + 2 + 4 + 7 + 14 = 28). E a 28a Maratona Clássica de Atenas pode ser considerada assim mesmo: perfeita ao melhor estilo grego. A prova do último domingo (31/10) comemorou os 2.500 anos da batalha que deu origem à prova mais mística do atletismo. Teve largada na cidade de Maratona e repetiu o percurso do mensageiro Philippedes até Atenas no ano 490 antes de Cristo, com chegada no estádio Panathinaikos, onde Spiridon Louis venceu a primeira Maratona dos Jogos Olímpicos da Era Moderna (com 2h58, a titulo de curiosidade…).
Garantem os gregos com quem falei que a Maratona de 2010 foi a mesma dos últimos 27 anos, apenas com um pouco mais de publicidade e investimento. Dinheiro o bastante para proporcionar um conforto incomparável aos participantes (largada perfeita em ondas com um minuto de diferença entre os pelotões, evitando atropelos; posto de água a cada 2,5 quilômetros; centenas de médicos pelo percurso; esponjas a cada 5km; Coca-Cola, isotônico e gel de carboidrato à vontade; kit recheado com camisa, squeeze, mouse pad, caneta e a medalha mais bonita que já vi). E marketing suficiente para alinhar cerca de 12 mil pessoas na largada, entre eles uns 400 brasileiros. Eu entre eles.
Foi de arrepiar. Uma torre de babel que fez jus ao berço do Olimpismo: dezenas de povos em festa pelo esporte. Assim, tentando puxar da memória, vi corredores de África do Sul, Alemanha, Austrália, Áustria, Bahrein, Bélgica, Brasil, Canadá, China, Chipre, Croácia, Dinamarca, Eslovênia, Espanha, Estados Unidos, França, Holanda, Hong Kong, Hungria, Ilhas Faroe, Inglaterra, Itália, México, Noruega, Romênia, Sérvia, Suécia, Uruguai e, claro, os anfitriões gregos. Esses foram os que lembro ter esbarrado pela estrada… Mas podes crer que tem mais.
A largada festiva, com balões coloridos e chuva de papel picado já anunciava a emoção que estava por vir. Ao longo da via, centenas de moradores da região, bandeiras gregas e ramos de oliveira em punho, saudavam os corredores. Foi incrível. Em que pese o desnível assustador (com razão… imagine você correr uma maratona que vai ladeira acima do 12o ao 32o quilometro), os gritos de incentivo e mãos estendidas para cumprimentar quem passava foram a energia que faltava para vencer cada passo do caminho. Houve quem corresse descalço e fantasiado de Philippedes se para se divertir ou aparecer nos jornais, não se sabe. Mas os austríacos e alemães que correram de túnica, escudo e espada na mão (e completaram a prova abaixo de cinco horas!!!) levantaram a torcida por onde passavam numa onda de felicidade contagiante.
Se para os gregos a Maratona de Atenas tem um significado especial, para troianos ou melhor, brasileiros ela também tem. Ou alguém consegue tirar da cabeça o fanático irlandês que agarrou nosso Vanderlei Cordeiro de Lima a poucos quilômetros do ouro olímpico em 2004? Não conseguimos e eles, os gregos, também não. Vanderlei, bronze naqueles Jogos, é o único atleta com duas fotos na exposição que passeia pelos 2500 anos da Maratona. Ao saber que eu era brasileira, a maioria dos gregos inevitavelmente citava o episódio com Vanderlei… Não a toa me emocionei lá pela altura do quilometro 35. E me permiti a licença poética de cruzar a linha de chegada no Panathinaikos de braços abertos repetindo o aviãozinho de Vanderlei seis anos atrás. Fanfarronice justificada, certo?
Como sempre os africanos ganharam. Ganharam o que? Os campeões de verdade foram os milhares de corredores anônimos que escreveram um capítulo especial em suas histórias. Com lágrimas de alegria pelo momento mágico e pela superação física de um dos percursos mais duros de maratonas do mundo. Depois que cruzei o pórtico depois de 4h08min sentei nos degraus de mármore do Panathinaikos. Fiquei observando a chegada das pessoas em transe. Tenho certeza de que como eu, elas fariam tudo de novo.
Este texto foi escrito por: Manoela Penna, especial para o Webrun