A etapa brasileira da The North Face Endurance Challenge, no Parque Nacional do Itatiaia, era uma das provas mais esperadas do calendário brasileiro de corridas de montanha, mas deixou muita gente decepcionada. A prova do último sábado (23/05) reuniu a elite nacional dos corredores de trilha e de quebra passou pela região do Pico das Agulhas Negras, num percurso inédito até então.
Mas algumas falhas técnicas ofuscaram o brilho da competição e durante todo o fim de semana as redes sociais dos corredores ficaram cheias de reclamações e pedidos de explicação por parte dos organizadores. Uma dos principais pontos era o aumento do percurso de 80 quilômetros para quase 90.
Até o quilômetro 43, 44, estava tudo indo muito bem, afirma Vera Saporito, corredora de montanha experiente e com vaga assegurada para os 100 quilômetros da Ultra Maratona do Do Mont Blanc (CCC) esse ano. Do quilômetro 50 em diante começou o pesadelo. O meu GPS marcava 57 quilômetros, mas estávamos chegando à placa dos 50 e assim foi indo até o fim da prova, completa.
Ela conta ainda que, por ser uma prova com pontuação válida para o Mont Blanc, esse tipo de erro não poderia acontecer. Fizeram uma baita propaganda afirmando que teria padrão internacional, mas não foi nada disso. Não adianta reclamar porque ninguém vai dar o braço a torcer, comenta.
Giliard foi o grande campeão da prova. Foto: Rosalia GuarischA desorganização começou na retirada de kits, segundo André Guarich, que também participou e completou os 80 quilômetros. Cheguei ao Shopping Leblon na sexta-feira e disseram que não tinha kit e que deveríamos voltar no dia seguinte. Já nos postos de controle deveríamos ganhar um carimbo de comprovação, mas no primeiro não tinha nada, apenas uma mulher anotando nossos números num papel.
André conta ainda que a organização não se deu conta do aumento dos percursos e que muitos staffs eram despreparados e não sabiam dar informações corretas. Estou feliz por ter completado, mas foi uma das piores provas que participei da minha vida. O corredor prepara toda sua comida e hidratação para uma determinada distância, decora o que vai ter em cada posto e quando chega lá está tudo uma bagunça. Cada erro estressa mais a pessoa.
Já Maria Sílvia Resende afirma que em boa parte da prova não se deu conta das placas e se guiava apenas pelo seu GPS de punho. Eu comecei a observar na altura do quilômetro 50 uma diferença de dois quilômetros a mais, o que seria normal, porém isso foi aumentando com o decorrer da prova. Enquanto uma das placas marcava 50 quilômetros, meu GPS marcava 57 e aí ascendeu o alerta. Ela conta, inclusive, que durante a passagem por um dos postos de abastecimento comentou o fato com um dos staffs, que confirmou o problema.
No posto nove meu GPS marcou 80 quilômetros e me disseram que havia uma diferença de seis quilômetros para mais. Pouco tempo depois parei num posto improvisado e disseram que novamente faltavam seis quilômetros, lamenta. Segundo a carioca, durante o congresso técnico disseram que poderia haver uma diferença de aproximadamente dois quilômetros.
Manuela Vilaseca foi a terceira colocada. Foto: Rosalia GuarischAinda sobre postos mal montados, ela conta que chegou num local onde havia apenas uma pessoa distribuindo água, que lhe disse: era para ser um ponto de abastecimento, mas o pessoal não veio trabalhar. Ela descobriu depois que os corredores dos 50 quilômetros ficaram sem água do quilômetro 23 ao 40 e a organização teve que contornar a situação de forma improvisada.
Maria Silvia e André são unânimes na opinião de que o tempo de corte deveria ser aumentado com esse aumento de distância, até porque o trecho inicial da prova era de single track, feito à noite, com muita gente se preservando para evitar colocar a segurança em risco. Eu pensaria muito antes de fazer essa prova novamente. Acho que eles sempre souberam sobre esse aumento de quilometragem e não divulgaram. Poderiam ter nos avisado durante o congresso técnico, lamenta Maria.
André completou prova, mas é um dos que defendia o aumento do tempo limite. Foto: Rosalia GuarischO Outro Lado
Segundo Raphaela Guaracho, Gerente de Marketing da The North Face no Brasil, os corredores foram avisados na largada que o percurso poderia ser maior. Essa margem de 10% é aceitável considerando que era a primeira edição da prova. Quem se prepara para os 80 quilômetros consegue correr mais nove, afirma a dirigente. Ela diz ainda que não foi exigido um currículo com comprovação de participação prévia em provas do gênero, o que levou muitos corredores despreparados para as distâncias de 50 e 80 quilômetros. A maioria ficou retida no tempo de corte porque não estava preparada para os desafios dessa corrida, ressalta.
Ela reconhece que esse aumento prejudicou muita gente, mas afirma que em nenhum momento a segurança dos corredores foi ameaçada. Isso era primordial e ninguém correu o risco de quebrar um pé, ficar sem socorro ou até de morrer. Há poucas semanas da prova a organização recebeu um comunicado afirmando que os corredores não poderiam passar por dentro do Parque Nacional, o que provocou uma correria para remarcação do percurso. Também sofremos com vandalismo, já que a marcação foi retirada na véspera e corremos para acertar tudo.
Segundo Maria Silvia, havia postos de água improvisados. Foto: Michele Soares/ divulgaçãoSobre um possível aumento do tempo de corte, Raphaela afirma que a norma internacional do Endurance Challenge não poderia ser modificada. A gente não poderia mudar essa regra lá na hora, mas para o ano que vem vamos estudar melhor. O tempo talvez não mude, mas pensamos em percorrer o trajeto mais uma vez para garantir e fazer outras mudanças.
Ela finaliza dizendo que o Endurance Challenge Agulhas Negras certamente elevou o patamar do trai run no Brasil, educando os atletas para que estejam preparados para os desafios. SE a pessoa não está treinada para os 50 e 80, tem a opção de escolher as distâncias menores. Queremos sempre ouvir os corredores e melhorar a cada ano.
Este texto foi escrito por: Alexandre Koda