A Indomit Ultra Trail teve sua primeira edição fora do Brasil no último final de semana (27 e 28/05) na cidade argentina de Mendoza, conhecida pelos seus vinhos Malbec e pelas altas montanhas nevadas. Sob um clima com temperaturas negativas, percurso com rios, trilhas e neve, Ana Giovanelli fez história ao se tornar a primeira campeã da prova com 17h51min39, ao lado do espanhol José Manuel Perez, que marcou 13h41min53.
A arena da prova foi montada em frente ao Grand Hotel Potrerillos para disputas de 100, 80, 50, 35, 21 e 12 quilômetros repletos de desafios que fizeram a prova ser a mais casca grossa do circuito segundo a maioria dos atletas. A largada da corrida maior foi às 23h com uma temperatura de 5◦C .
Os brasileiros Geison (esquerda) e Ana fazem festa antes da largada. Foto: Alexandre Koda/ WebrunOs primeiros quilômetros foram percorridos no asfalto e com velocidade limitada pela moto madrinha, já que o trânsito local não estava interrompido. Enquanto o brasileiro Geison Ignácio acelerou logo de cara, deixando os adversários para trás, Ana preferiu um ritmo mais controlado para não gastar todas as energias logo de cara.
No quilômetro dez foi montado um posto de abastecimento rápido com água e isotônico, já que a partir de lá Mendoza mostraria toda a sua força com o início dos trechos em trilhas. Após percorrerem alguns metros em estrada de terra, os atletas cruzaram um rio e não tiveram outra opção a não ser encharcar os pés na água gelada.
O primeiro posto de abastecimento era para uma rápida reposição de água e isotônico. Foto: Alexandre Koda/ WebrunO primeiro posto completo de abastecimento foi no quilômetro 30, no povoado de Las Vegas. Apesar de não haver cassinos e hotéis luxuosos como na cidade homônima nos Estados Unidos, os corredores certamente se sentiram reconfortados com a lareira acesa para esquentar o corpo, além de uma fartura de comida que incluía sopa, refrigerante, bolo e até pizza recém-assada. Neste local cada um tinha uma sacola previamente enviada à organização com uma muda de roupa extra, novos tênis e outros equipamentos.
No Posto Las Vegas os corredores se sentiam em casa com o calor e a farta comida. Foto: Alexandre Koda/ WebrunAna e Geison ficaram pouco tempo no conforto e logo voltaram a encarar o frio da noite argentina num trecho de estrada de terra que levava ao leito de um rio. Nesse momento a temperatura era de três graus abaixo de zero e a neve caía fraca, mas com intensidade suficiente para cobrir de branco a vegetação desértica e até os refletivos instalados pela organização. Nessa parte era necessário cruzar um rio duas vezes antes de encarar uma subida em no meio da mata, mas por sorte as pedras permitiam uma travessia sem a necessidade de molhar os já úmidos e fadigados pés.
Com temperatura negativa ninguém queria molhar o pé. Foto: Alexandre Koda/ WebrunApós uma breve descida, chegou a vez de encarar a parte mais alta da prova, entre a estação de esqui Vallecitos e o Cerro Arenales, a quase 3.500m acima do nível do mar. No refúgio de montanha da estação foi montado outro posto de abastecimento completo, com sopa de frango e de lentilha, pães, bolos, jujuba, café, chá, além de uma lareira com fogo sempre alto.
José assumiu a liderança no primeiro terço da prova. Foto: Alexandre Koda/ WebrunA essa altura o espanhol José Manuel já liderava, enquanto Geison aparecia entre os dez primeiros, mas o esforço feito no início da prova teve seu preço. Sentindo-se mal, o brasileiro ficou por quase quatro horas no posto, dormiu para tentar se recuperar e ainda voltou ao combate, mas preferiu abandonar alguns quilômetros depois. Com o sol já iluminando as montanhas e derretendo parte do gelo, Ana seguia na frente tendo a companhia de um cachorro local e com vantagem de mais de 1h30 para a segunda colocada, Alic Viana.
O início da subida a Vallecitos era numa estrada que misturava barro e gelo. Foto: Alexandre Koda/ WebrunO último trecho de alta montanha foi percorrido com neve que em alguns trechos chegava até a canela. Todos retornaram do cume da montanha Arenales, passaram novamente pelo posto de abastecimento e seguiram viagem num percurso inverso rumo novamente ao Grand Hotel Potrerillos. Foram quase de 25 quilômetros de descida e, quando todos já esperavam dar de cara com o pórtico de chegada, vinha uma surpresa: o Morro do Crocodilo.
Ana teve a companhia de um cachorro durante boa parte da prova. Foto: Alexandre Koda/ WebrunOs 40 metros de desnível positivo, mais 40 negativos durante três quilômetros por um terreno de pedras soltas e barro deixou muita gente se perguntando o motivo de estar ali. Vencido esse trecho, nada melhor do que passar pelo meio de um vinhedo e cruzar a linha de chegada sob os aplausos do público presente.
Por volta do quilômetro 20 éramos quatro corredores brigando pela ponta e, aos poucos comecei a ultrapassá-los para chegar à liderança, afirma o campeão José Manuel que atualmente mora em Neuquén, na Argentina. Tive que estar concentrado o tempo todo para não perder tempo nos postos de abastecimento, mas ao mesmo tempo consciente que a hidratação e alimentação eram fundamentais para chegar bem ao final, completa o espanhol que não resistiu em admirar o sol nascendo nas montanhas. Corro muito focado, mas não tinha como não admirar esse espetáculo da natureza.
O Cerro Crocodilo foi o último desafio. Foto: Alexandre Koda/ WebrunEle lembra ainda que em alguns momentos da madrugada o frio castigou bastante. Além do frio, havia também uma neblina e em alguns trechos a gente não enxergava o que estava à frente. Eu não via a hora de chegar a Vallecitos para tirar o tênis molhado e trocar por um novo. A partir daí as coisas melhoraram, já que a subida estava muito bem marcada. Apesar de preferir montanhas a percursos planos e em praias, José deve ir ao Brasil em outubro para a disputa da Indomit Costa Esmeralda, já que ganhou como prêmio hospedagem, em Bombinhas e inscrição.
José reside na Argentina temporariamente por trabalho. Foto: Alexandre Koda/ WebrunAlgumas horas depois chegou Ana Giovanelli com a bandeira do Brasil em mãos e um sorriso largo de orelha e orelha. Certamente essa foi a prova mais maluca que já fiz em toda a minha carreira como atleta, afirma. Senti um pouco de dificuldade na altitude, tive dor de cabeça, taquicardia e o frio também complicou porque o pé e a mão congelavam e nunca estava com as articulações totalmente aquecidas.
A curitibana fez um treinamento nos morros de sua cidade, com altimetrias de até seis mil metros, mas nada que se comparasse ao que ela enfrentou na Indomit Mendoza. Quando a gente acha que já viu de tudo, no final ainda aparece morro para escalar e pedra solta. Estou muito feliz e ainda nem consegui assimilar tudo o que passei, finaliza.
Ana diz que foi uma prova totalmente diferente do que já fez na vida. Foto: Alexandre Koda/ WebrunO segundo colocado foi o argentino Ignacio Doheijo, com o tempo de 14h45min11 e o terceiro Diego Panazzolo, de Bento Gonçalves (RS) com 15h47min21. Uma prova muito dura com clima extremo, neve afundando o pé, mas muito linda e aproveitei cada quilômetro, afirma Ignacio. Já Diego, chegou muito emocionado por ter conquistado um lugar no pódio em sua primeira prova de 100 quilômetros. Estava muito frio, faltou ar no topo da montanha, mas foi uma prova fantástica e os organizadores estão de parabéns, relata o gaúcho que só havia corrido provas de até 80 quilômetros. Escolhi essa prova como estreia pela dureza e porque as provas da Indomit são sempre muito bem organizadas, completa.
Diego comemorou o terceiro lugar com a família. Foto: Alexandre Koda/ WebrunNo feminino o segundo degrau mais alto do pódio ficou com Alic Viana, representante da tradicional assessoria esportiva Núcleo Aventura. Correr estes 100 quilômetros da Indomit Mendoza foi muito difícil, mas o mais legal de tudo não foi receber um troféu, mas sim saber que estou cercada de gente do bem que torce por mim, independente de resultado, relata a corredora que marcou 21h55min02. A terceira foi a argentina Veronica Riedmatten, com 24h08min. Essa foi minha primeira prova de alta montanha e uma das mais difíceis que já fiz. Passar a noite correndo com frio foi muito duro, mas completar é muito reconfortante, relata a representante de Parque Leloir.
Alic ficou um bom tempo no Posto de Vallecitos antes de voltar à prova. Foto: Alexandre Koda/ WebrunPara o idealizador da prova, Juan Carlos Asef, o resultado foi acima do esperado. Essa não é apenas minha opinião, mas sim da maioria dos corredores. Sempre acontecem alguns imprevistos que temos que solucionar para os próximos anos, mas mesmo assim o resultado é positivo.
Para Mariano Alvarez, diretor geral da prova, essa foi uma etapa muito especial da Indomit. Ao mesmo tempo em que os desafios são grandes para os corredores e para nós com altitudes elevadas, frio, neve e uma geografia distinta, é uma prova para ser desfrutada, relata o argentino responsável também por provas como a Patagônia Run e El Origem. Como diz o meu sócio Juan Carlos Asef, ficamos muito felizes em termos essa pequena máquina de realizar sonhos , finaliza.
Mariano e Juan Carlos aprovaram o desafio da Indomit Mendoza. Foto: Alexandre Koda/ WebrunDepois de Mendoza o Circuito volta ao Brasil para a já tradicional Indomit Bombinhas no dia 13 de agosto e para a Ultra de Costa Esmeralda nos dias 28 e 29 de outubro. E seguindo com o conceito de inovação, no dia 28 de janeiro já está confirmada a etapa Caribe, na Ilha Margarita, Venezuela.
O amanhecer na neve foi o grande diferencial da prova. Foto: Alexandre Koda/ WebrunEste texto foi escrito por: Alexandre Koda