A corredora brasileira Juliana Salgado participou da prova de dez quilômetros da Patagonia Run, que aconteceu no último dia 12 de abril, e dá seu relato sobre a prova.
Segue relato da corredora:
Juliana sofreu no início da prova com o frio da região Foto: Arquivo PessoalTinha colocado como meta neste primeiro semestre os dez quilômetros na Patagonia Run, a qual seria minha primeira prova de trail run internacional e tinha como objetivo ficar entre as três primeiras. Foram quatro meses de foco total para essa prova, meses de dedicação exclusiva, com dieta, preparação física, treinamento de running, tudo isso em prol do meu objetivo.
A ansiedade mesmo só bateu na semana que antecedia a corrida, já começava a dar um friozinho na barriga. Cheguei em San Martin de Los Andes, local onde aconteceu a prova, na quarta-feira, dia nove, para fazer adaptação de climatização. Realizei meu ultimo treino na quinta-feira de tarde, no qual rodei oito quilômetros pelas ruas de San Martin e subi até o mirante do Lago Lácar. Neste dia não estava muito frio, girava em torno dos 12 graus, clima muito bom, visual maravilhoso, me senti super bem com aquele friozinho e agora era só aguardar o dia da prova.
Chegado o grande dia, não havia mais lugar para tanta ansiedade! Minha largada era só as 11h30, mas logo fui para o Regimento de Cavalarias de Montanha 4 (RCM4), local da largada, pois fui acompanhar meu namorado que iria correr a meia maratona, largando às 10h15. Dentro do Regimento estava quentinho, tinha café da manha, chocolate, água, isotônico e muita gente circulando no local.
Após a largada da galera dos 21 quilômetros fui aquecer para a minha largada. Estava muito frio, minhas mãos começaram a perder a sensibilidade e o nariz estava congelado, eu não parava de pular e correr de um lado para o outro para tentar me aquecer. Quando larguei a adrenalina estava mil. Com sangue nos olhos, pensava o tempo todo: “Esse é o momento de colocar em prática todo o meu esforço durante esses quatro meses. Estou aqui. É agora, muito obrigada meu Deus”.
Depois de quatro meses de preparação a brasileira conquistou o segundo lugar no geral feminino da Patagonia Run Foto: Arquivo pessoalO locutor disse que no momento estava fazendo 10 graus, mas com certeza a sensação térmica estava mais baixa. A contagem regressiva começou… Três, dois, um e a buzina dispara. Sai forte porque sabia que já pegaria uma single track há cerca de 500 metros e não queria pegar engarrafamento. Logo na primeira curva já sai na frente das mulheres. A subida era bem íngreme, achei estranho, pois estou acostumada com elas, até mais íngremes e não costumo andar, porém nessa, meus batimentos aceleraram demais, a respiração estava muito ofegante, impossível não andar!
Foi muito difícil encaixar a respiração e minhas mãos estavam congelando, eu mal conseguia pegar o damasco que estava na minha mochilinha e quando consegui pegar foi super difícil mastigá-lo. O ar gelado ardia, tentava respirar pelo nariz para o ar entrar mais aquecido e não prejudicar tanto o desempenho, mas era muito difícil. O que me salvou foi minha echarpe, que, de vez em quando levava até o nariz para aquecer a respiração, porém isso dificultava o campo de visão. Eram muitas as dificuldades no início, mas que se tornaram irrelevantes comparadas ao visual fascinante, montanhas com neve ao fundo, cores das árvores, céu azul. Tudo isso me fazia esquecer das dificuldades e perceber o quanto valeu a pena estar ali!
Quando chegou no quilômetro três, na subida, uma argentina me passou em um ritmo que parecia estar bem confortável para ela. Mais ou menos no quilômetro seis começou a descida, a partir dali parecia que eu era uma outra pessoa, meu corpo já estava bastante aquecido e comecei a ficar mais solta, aliás, nunca desci tão forte. Passei por pedras, riachos, campos abertos, trilhas fechadas, o percurso era lindo, a terra estava fofa, dando um amortecimento natural ao corpo. Eu ia descendo, parecia uma dança onde meu corpo fluia de uma forma rítmica de um lado para o outro, às vezes abaixando ou pulando. Eu agradecia o tempo todo por estar ali naquele lugar, foi uma injeção de felicidade, foi incrível!
Acabando a trilha do bosque, continuamos descendo, mas desta vez pela rodovia, onde não era uma descida tão agradável quanto na trilha, era de asfalto dando muito impacto. Mas neste momento eu estava tão enérgica, que mal conseguia sentir, conseguia avistar bem de longe a argentina que me passou. O último quilômetro da prova foi em uma superfície plana, nunca havia corrido um quilômetro tão rápido, estava com o pace médio de 4m19s.
Foi uma emoção muito grande ver a linha de chegada ao fundo! Consegui puxar a minha bandeirinha do Brasil, coloca-lá no alto e ouvir algumas pessoas gritando: “Vai Brasil”. Foi inesquecível!
Passando a linha de chegada tive uma mistura de sentimentos, emoção, realização, conquista. Não parava de tossir, rir e chorar! São momentos que irão ficar na memória para sempre.
Patagonia Run, uma prova inesquecível, sensacional, com uma organização muito boa e que com certeza, um dia voltarei para percorrer uma distância maior porque vale a pena!
Não importa o quão difícil ou grande seja o seu desafio, encare-o! Faça valer a pena e não desista. Lute por aquilo que você quer!
Este texto foi escrito por: Webrun