Versão 42.195 – MARATONISTA

Redação Webrun | · 18 nov, 2013

Consegui! Quero mais! Só queria antes que inventassem uma maquina que entrasse dentro e restaurasse cada pedacinho destruído. Vi isso num filme, o Elysium… Ahh lembrei, só os ricos tinham acesso… hahahaha… Então, no meu caso, só o tempo, o gelo, o alongamento, o fortalecimento e os antiinflamatórios pra me curar…
 

Na noite anterior eu estava me cagando mesmo… Passavam vários medos pela minha cabeça, os clássicos como: Será que vou aguentar? E a dor? Acelero no início ou no fim? E o paredão? E os medos mais bobos como: Imagina se cago na calça correndo? Duvido quem nunca teve medo de cagar na calça correndo…
 

A prova começou e eu fui indo no meio de uma multidão, e o mais incrível era que a multidão não dispersava, estava todo mundo com o pé no freio, dosando aos poucos a velocidade pra sobrar até o fim.
 

Já no inicio tive companhia. Roberto, veterano de maratonas, diretamente de Ribeirão Preto pra Curitiba. Me contou que não tinha dormido direito, pois ouviu dizer que Curitiba tinha um dos piores percursos do Brasil. Se quem é veterano não dormiu direito, imagina eu? Roberto perguntou qual era minha estratégia, e eu disse: Terminar a prova (não revelei meu segredo que era fazer em menos de 4h). Curiosa, perguntei qual era a dele. Ele me falou que iria separar em quatro blocos, aumentando a velocidade entre cada um. Como o primeiro bloco era o mais lento ele seguiu comigo os primeiros 10 kms. E disse: Patrícia, a parte difícil já passou, foram nossos treinos. Hoje é só um passeio, então aproveite a vista, aproveite a festa! 
 

Valiosos conselhos foram os que Roberto me deixou antes de partir, nas subidas ele mandava reduzirmos sem dó pra poupar energia e quando o vento batia forte ele dizia pra ficar no vácuo dele, usei as dicas durante toda a prova. Roberto parou no posto pra usar o banheiro e eu segui viagem. E claro que depois de meia hora ele me alcançou, me ultrapassou e sumiu na multidão. 
 

Eu continuei concentrada, achei melhor não forçar, afinal era uma prova desconhecida pra mim. Estava num pace em torno de 5:20, correndo confortavelmente, quando comecei a sentir meu pé esquerdo. Meu joelho não me incomodava, mas o meu pé… só rezando!
O que me fazia seguir era imaginar que lá pelo quilometro 22 eu veria minha família, que estava a minha espera. E como é bom encontrar pessoas conhecidas pelo meio do caminho, por alguns minutos elas fazem a dor passar e a velocidade aumentar.

 
Eu já sabia que a dor faria parte da corrida e eu não era a única. Se tem um cheiro que marcou todo o percurso foi o de spray antiinflamatório.  Era gelol pra todo lado. Todo mundo tentando minimizar suas dores. Eu não podia dar uma de chorona e andar, estava todo mundo no mesmo barco, a diferença era que uns tinham mais força que outros pra aguentar a dor. E se tem uma coisa que eu cresci ouvindo é que mulher aguenta a dor muito mais do que homem, segui correndo com dor, tinha medo de andar, esfriar e não conseguir continuar correndo.

 
Eu, particularmente, não vi aquele muro que insistem em colocar no quilometro 30. Pensei: Agora só faltam 12km e aqueles outros metros. Durante toda a prova encontrei diversas vezes  com um cara que me chamou atenção, pois no inicio da corrida ele caiu duas vezes no asfalto, tropeçando naquelas “tartarugas” que separam as pistas. Ele se ralou todo. Eu olhava pra ele correndo e pensava: Caramba, ele caiu duas vezes e está aqui, firme! Então, inesperadamente ele me disse: Obrigada! E Eu: Oi? Ele disse: Você me ajudou a vir até aqui. Eu não acreditei… A gente motiva pessoas a continuarem sem nem saber. Eu ali imaginando que ele me motivava por ter caído e continuado…Muitos corredores me motivaram e nem imaginam, senhores, senhoras, pessoas que se emocionavam chorando incontrolavelmente durante a corrida, pessoas simples, humildes… e aqueles que escolheram passar a manhã dando força pra quem corria. Curitiba não tem a cultura de torcer por corredores, mas ainda assim era possível sentir uma força tão verdadeira de algumas pessoas que me emocionava e me recarregava.

 
Durante quase toda a prova me controlei pro meu pace ficar sempre abaixo de 6:00 minutos o km. Mas a partir do quilometro 37 passou a ser impossível. As descidas que apareciam pelo caminho baixavam demais meu ritmo, em cada descida eu me sentia pisando em cacos de vidro. Antigamente eu amava as descidas… Olhei no relógio e meu ritmo estava 6:30 por km. Já não ligava mais estar abaixo dos seis, só não queria atingir os sete.
 

Pra mim, os últimos 5kms foram os mais difíceis da prova. E quando eu já estava ali me entregando, aceitando que eu já estava sem forças, reduzindo meu ritmo, uma antiga professora de spinning, quem me inspirou a iniciar nas corridas, apareceu. Ela me ultrapassou e disse: Vamos junto, você não vai ficar! Vem! Vem junto! Eu disse: Não, eu não consigo. Ela insistiu, e então eu espremi tudo que tinha dentro de mim e fui. A Hallyne me carregou durante uns 2 ou 3 kms, e perto da linha de chegada a filha dela veio ao seu encontro e elas foram correndo juntas pra linha de chegada, eu reduzi, vendo aquela cena tão bonita. Tive vontade de chorar, eu ainda não conseguia acreditar que tinha alcançado a linha de chegada. E ela estava lá cheia de gente aplaudindo, gritando, esperando alguém… 

 
Acabei minha prova, pulei no colo do meu namorado, que me agüentou durante meus treinos e humores mais obscuros. Abracei minha irmã, minha companheira de academia. Ela me perguntou: E aí como foi? Eu não conseguia responder! Deu um nó na garganta e eu simplesmente não conseguia.

 
Como o Roberto disse, ontem era só um passeio, o pior já havia passado. Difícil foram os últimos 4 meses, os últimos treinos, superar lesões, achar que depois de tanto esforço eu teria que desistir. Difícil foram aqueles 30kms que percorri sozinha com uma garrafa na mão, difícil foi encontrar tempo todo dia, escolher treinar ao invés de uma taça de vinho, escolher treinar ao invés de ir numa festa, entre tantas outras escolhas.

Ontem foi colher o fruto de tanta dedicação, ontem foi sentir o carinho e admiração das pessoas, ontem foi o dia de oficializar minha conquista. Ontem foi descobrir que corrida se tornou amor na minha vida.

 
Meu sincero obrigada a todas as pessoas que de alguma forma me motivaram nessa conquista. Minha irmã Pri, parceira de vida e academia, a Poli que me aguentou correndo durante toda a viagem de férias, o Osvaldo que fez um dos treinos difíceis ao meu lado, o  Jorel e a Gi que estavam lá na linha de chegada, meu pai que gritou no meio do percurso, minha mãe que aguentou minhas reclamaçoes, minha nutricionista que preparou o melhor plano de suplementação do mundo pra aguentar o tranco, a Vanuza que preparou minhas planilhas, o André que fez os treinos de musculação, o pessoal que comentou aqui no blog, os amigos e minha família que não me entendia, mas que não me criticava. Todas as pessoas que me motivaram durante a corrida, inclusive o “cara” lá de cima, algumas coisas é só por Deus mesmo.  E claro, meu namorado, que em alguns momentos acreditou mais em mim do que eu mesma. Obrigada!

E hoje? Tudo dói! Sabe aquele vídeo the day after the marathon? Igualzinho! E claro que já fui no médico mostrar minha nova lesão versão maratonista, agora no pé. Ele disse que se eu continuar correndo vai me internar hahaha… Ahhh sim, quase esqueci! Não consegui fazer a prova abaixo de 4 horas, fiz em 4 horas e 2 minutos. E são esses dois minutos que justificam minha próxima maratona hahaha, ano que vem, quem sabe…

Este texto foi escrito por: PATRICIA GUIMARãES PEROTTO

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