Quem tem lesão põe o dedo aqui! – parte II

Redação Webrun | · 28 maio, 2012

Pessoas, vamos continuar falando de lesão –ou melhor, do que leva um ser corredor a se lesionar? Porque a maioria dos artigos fala para o corredor novato “fazer exames médicos, achar o tênis adequado e não exagerar”, ou seja, fica tudo meio óbvio e vago. Para o corredor experiente, os mesmos artigos falam para “tomar cuidado com overtraining e respeitar a recuperação”. Não vou nem entrar nessa questão do tal “tênis adequado” nesse post que, como vocês sabem, eu tenho opinoões não muito populares a respeito. O exame médico, para quem vai começar a corrida, é CLARO que faz –mas não é esse exame que vai te ajudar a não se lesionar.

No post anterior, falei sobre os corredores que sofrem de Ultra Mega Boga Bold Plus Entusiasmo, ou seja, que nem sempre conseguem sacar quando dar uma descansada. Este é um dos top 3 motivos de lesão mas não é o único, viu Cesar Augusto, querido e sábio leitor deste blog, que já previa uma epidemia de corredores desacansando em beiras de piscina e furando planilhas.

Porque outro campeão lesionador é o fator Não Precisa. Funciona assim: você está treinando para uma prova e sua planilha diz algo como longo de 28K, aí você faz 20K, pára, toma uma água de coco, corre mais 2K e diz “ah, 28K não precisa, 22K está de bom tamanho”. Ou você tinha que correr 1h30 e corre 1h10. Ou tinha que dar 8 tiros de 1K e acha que que 7 tiros está ÓTEMO e não precisa ser EXATAMENTE 8.

Aí os treinos ficam assim: hoje 1K a menos nos tiros. Amanhã 2 fartleks ficam para a próxima que estava atrasado pro trabalho/reunião/aniversário da vó. No sábado o longão fica devendo mais uns quilômetros e assim vai indo a semana. Aliás, o Corredor Não Precisa acaba elevando este conceito a outras esferas. Não precisa tomar gel PRECISAMENTE nos 45/50/60min, né? Também não tem essa necessidade de alongar TANTO assim. E tomar água é bom mas tem que ser TODA essa quantidade? E por aí vai.

O problema desse método elástico de treino é que quando chega a hora da prova, o ser super relax aprende mais uma grande verdade das corridas: treino duro = prova fácil e treino fácil = prova dura. Ou seja, se você treinou duro MESMO, a tendência é que a sua prova seja mais fácil do que se você tivesse treinado leve. E antes que alguém venha reclamar que exagerar nos treinos pode acabar com a prova de uma pessoa, vou ressaltar que ninguém falou em EXAGERAR, estou falando em seguir uma planilha projetada por um profissional que você confia e que já deve considerar quando é hora de fazer o máximo de força e quando começar a aliviar.

Uma planilha séria não tem 6 tiros de 1K por acaso, porque a pessoa fazedora de planilhas sonhou com o nº 6 e acha que 5 dá azar e 7 na numerologia do corredor não funciona bem. Os longos também não são pensados considerando-se que “ah, vou colocar 32K porque na verdade o que precisa é 28K mas sei que a pessoa vai parar antes”. NÂO! A verdade aterradora é que a idéia é que você REALMENTE corra aquele nº que está na planilha!

Aí a Pessoa Não Precisa faz tipo 70% do treino –ou menos. E é aí que a matemática fica mais cruel, porque isso não significa que ela vai correr 30% pior/mais fraco na prova. Os treinos que o ser ficou devendo podem vir em forma de…lesão.

Talvez ela até acabe a prova super bem e em um tempo ótimo. Mas talvez no dia seguinte não consiga colocar o pé no chão. Ou só tenha conseguido terminar a base de remédios. Ou a dor na perna pós prova revele-se uma fratura por stress.

A outra opção é quebrar na prova. Terminar andando (ou se arrastando) quando a idéia era só correr. Desistir porque o corpo realmente não vai mais. Ou ainda se lesionar DURANTE a prova, uma experiência das mais desagradáveis. Ah, só um aparte: não estou dizendo que se machucar numa prova ou ter que parar SEMPRE significa que a pessoa treinou de menos. Saber quando parar é sinal de consciência corporal e responsabilidade e exige cabeça boa para não pirar depois. MAS quem treinou de menos normalmente paga um preço alto, seja físico ou emocional.

Porque a pessoa que se lesiona por não ter treinado o suficiente, nunca vai saber como teria sido se tivesse treinado direito. Será que teria se lesionado? Porque mesmo uma torção de pé pode ser fruto de um cansaço pela falta de preparo. Quão melhor será que teria sido o tempo de prova? O dia seguinte seria indolor?

Se este perfil Não Precisa for de alguém que está começando na corrida, a coisa fica ainda mais feia. Porque além de não ter disciplina, esta pessoa também não base (sobre a qual falei no post anterior). Aí este elemento sem noção começou a correr ontem, acha que seguir a planilha não precisa, que é abençoadamente forte por natureza, corre algumas provas e não morre e pronto, é o DiCaprio se achando o king of the world na proa do navio. E a gente lembra o que acontece neste lamentável filme né? O negócio todo afunda.

O sujeito se machuca e sai falando o que? Que a corrida é um esporte perigoso. Que todo mundo se lesiona, é só uma questão de tempo. Que sobrecarrega demais. Que o impacto é impraticável e bla bla bla whiskas sache. Mas NUNCA, jamais, em hipótese alguma este ser humano diz “é, mas eu também não treinei direito”.

Não precisa fazer uma mea culpa em público e se açoitar na praça do porquinho no parque do Ibirapuera (se você for de Sampa). Mas precisa admitir para você mesmo. E aí cuidar da lesão, respirar fundo, continuar a correr, escolher uma nova prova que esteja de acordo com a sua base de corrida, dessa vez treinar direito e ser feliz (ou não, é sempre um direito seu continuar infeliz).

Minha nem tão humilde sugestão é a seguinte: se não deu para treinar direito (e as vezes não dá mesmo por zilhões de motivos alheios a você), repense 10 vezes se vale a pena fazer a prova. Quem tem bastante base, também costuma ter experiência para saber se dá ou não. Se você não SABE e está CHUTANDO que dá é porque tem boas chances de não dar. Seja maior do que o sentimento de apego a esta prova, arrume outra um pouco mais pra frente do calendário e vai com tudo –saber lidar com imprevistos também faz parte da corrida.

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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