Fala Galera,
Este domingo, 27/05, terminei minha primeira prova na distância Ironmnan (3,8km / 180km / 42,2km) em Florianópolis-SC. Depois de 6 meses de um árduo treinamento, alcancei o objetivo que me propus há quase um ano: Passar para a distância Ironman fazendo uma prova em alto nível.
Resolvi escrever apenas hoje porque esta última semana foi muito intensa pra mim. Desde os dias anteriores (e solitários) no meu quarto de hotel, estava bem concentrado. Meu principal pensamento era o de não acelerar o ritmo acima do esperado e correr o risco de “quebrar” em minha primeira prova. Ao contrário da maioria dos guerreiros que vão fazer a prova para ser um Ironman, no profissional também disputamos posições, dinheiro e holofote. Queria ficar bem colocado na água para sair junto dos favoritos, mas ao mesmo tempo não fiz um treino para sair forte no pedal e acompanhar o primeiro grupo. Eu sabia que este movimento inicial era a chave da prova. E isso me deixou numa pilha muito grande.
Dia 27/05. 7:00 hs. Começou o desafio! A natação achei muito tranquila, fui conservador até em excesso. Fiquei no grupo que estavam Galindez e Furtado, um pouco a frente do Ezequiel Morales e Sturla. Quando saimos da água, fui para a transição certo de que ali estava a chave para prova. Porém, me atrapalhei um pouco com a sacola na transição e perdi um pouco de contato com o grupo. Junte-se ao fato que eu sai de forma progressiva no pedal, o grupo se evaporou. Tive que ter muita paciência nessa hora. A sensação de esforço era baixa e eu sabia que podia mais. Mas preferi ser bem conservador (de novo!). Na minha cabeça só vinha que tinha 42km para correr (e eu nunca havia feito uma maratona na vida).
O pedal foi mais tranquilo do que eu esperava. Fiquei num bom grupo de ciclistas fortes, e a partir do km 140 já percebi que alguns atletas da frente começavam a sentir o calor. Até esse momento, a prova estava sob controle. Sinceramente, não gostei muito de meu pedal, mas era o que consegui fazer para não sentir um cansaço excessivo para correr.
Foi a partir da maratona que tudo mudou. Aí eu senti que a prova havia começado para todos. Saí bem para correr e fiquei feliz ao ver minha esposa e minha filha na primeira curva. Me deu uma força absurda ver a carinha dela me reconhecendo no percurso. A partir daí eu sabia que, não importa o que acontecesse, eu ia terminar forte a prova. Nem que fosse no limite do cansaço. Fiz uma estratégia de correr 5km a 4:20/km e 1km a 4:40/km (numa conversa com o Dr. Reinaldo Bassit – Tubarão, para acertar a recuperação da nutrição). Seriam 7 vezes isto para terminar o Ironman. Fui passando bastante gente e me sentindo bem. Tomei muito cuidado (novamente!) pelo respeito que tinha a partir de 28-30km. Nunca havia corrido mais do que isso e sabia que podia ser um ponto de desequilíbrio em minha prova. Passei os 21km muito bem, para faixa de 1:30hs. E tudo se desenrolou bem até o 28km… E o que pegou foi um fator que nunca esperei. A parte muscular aguentava, mas as bolhas começaram a incomodar e ficar em carne-viva. Aí começou o Ironman. Corri 12km com dores em tudo, afinal, não conseguia mais ter a mesma dinâmica de corrida e a cada passada era uma dor insuportável, como uma agulha espetando as solas dos pés…. O que achei impressionante foi a ferramenta que meu cérebro usou: foi a primeira vez na vida que senti que corpo e alma não estavam mais juntos. Eu literalmente estava fora do ar. Não ouvia mais nada, não pensava mais nada. O km caiu para 4:35-4:47/km.
Só pensava nelas: Claudia e Luiza…Claudia e Luiza…Claudia e Luiza… Independente de posições e premiações, só nós sabemos o quanto é difícil conciliar a vida de atleta profissional, trabalho e de pai/mãe “frescos”. Lembrei da cara de preocupação da Claudinha quanto anunciei que iria para o Ironman. Ela me pediu mais um ano, para as coisas estabilizarem. Minha resposta foi: “Amor, essa é a hora”. Chorei diversas vezes de passar tempo longe da minha pequena. Ser um atleta profissional não é apenas uma escolha (fazer ou não um Ironman…). É uma missão. Você cumpre e atropela tudo. Ela fez toda a história no triathlon comigo. Ela (e agora a Luiza) são o meu time. Se eu parasse, meu time ia perder. E meu time se sacrificou muito nestes últimos meses. Era a hora de eu me sacrificar por elas. Foi só nisso que pensei.
Lembro pouco do km final. Lembro de falar com Deus. Falei com meu pai e agradeci. Lembro (de forma bem vasta) que disse algo como: “Pai, seu coração te levou daqui. Hoje meu coração vai me levar até o final.”
Passei pela Claudia e só tive força para falar: “Amor… acabando”
Cheguei ao funil final, olhei para o Céu. Lembro do céu bem azul. 14º lugar… E agradeci. Ao amor da Claudia, ao olhar da Luiza e aos ensinamentos dos meus pais de nunca (NUNCA MESMO) se entregar.
Clau: você é tudo na minha vida. Desculpa pela minha ausência, minha distância. Você é sempre um exemplo para mim. Levo muita coisa sua para dentro das minhas provas. Você fala que não gosta de competir, mas grande parte do que uso nas competições vêem das nossas conversas.
Luiza (Pepê): Você ainda é muito pequenininha pra entender o que o papai faz. Daqui a alguns anos quero que você leia isso e saiba o quanto você é importante e como seu sorriso inocente me dá mais forças pra lutar. Não estaria completo se você não estivesse aqui hoje, fazendo as coisas dificeis serem mais leves com seu sorriso “banguelinha”. O Ironman ficava menos difícil quando eu pensava que você estava lá.
Pai: Aonde quer que você esteja, obrigado por me dar minha primeira bicicleta de triathlon. Eu sei como foi difícil você pagar ela e todos os custos da modalidade até eu ter condições de caminhar sozinho. Nunca tive tempo de te agradecer. E nos ultimos anos te via pouco porque sempre estive treinando por um objetivo. Seu exemplo de luta, dignidade e positividade me formaram como ser humano, pai e atleta. Sua falta foi minha força nos treinos.
Aqua Sphere, FME/TRIAL Balneário Camboriú, Total Nutrition, BR Esportes, Ceepo, Skarp/Sta Constancia, Hebraica, Força Dinâmica, Studio Velotech, All Distances e Breakaway Training: Muito obrigado (de coração e não de forma comercial) aos que acreditam no meu sonho.
Meu sonho? Espero realizá-lo a partir de 2013…
Grande abs e obrigado a todos que torceram!
Guto Antunes
Swim: 49:53 Bike: 4:54:46 Run: 3:10:55 Overall: 9:02:59 (14th place)
Este texto foi escrito por: GUTO ANTUNES




