Cruce parte III – O Vale da M….

Redação Webrun | · 16 fev, 2010

Dia 2 do Cruce, o grande divisor deáguas da prova. Porque qualquer pessoa que tivesse tido otrabalho de acompanhar online as previsões das estaçoes deesqui mais próximas (fica aqui a dica) sabia que no sábadoia chover. E muito.

Isso ficou claro já na noite de sexta, quando a águacomeçou a castigar as barracas de madrugada. Como a nossa eraalugada, no melhor estilo é-o-que-tem-para-hoje, havia oinquietante risco dela nao aguentar chuva forte. Já havia atéum plano B de para quais barracas a gente ia correr se a danadaalagasse. Que reconfortante, nao? Mas eu dormi tão pesado – apesar doronco estilo Globo da Morte de Certa Pessoa que negou ser autor detão doce melodia depois – que só fui me preocupar com issopela manhã, ou seja, a barraca resistiu firme e forte.

A complicaçao começou com a largada, que ficou sendomuito, mas MUITO mais tarde do que eu pensava: quase 10h. Na boa,quem não é elite e não termina a prova em 3h não deveria terque largar depois das 8h, pq chega muito tarde. E NUNCA conseguepegar o almoço pelo qual pagou, então fica a dica: pessoas não-elite, pensem bem antes de gastar seus dolarzinhos suados reservandoos almoços, porque nós nao vimos nem a cor dessarefeição, poderíamos ter pago só o jantar e tergasto o resto com chocolate e vinho que teria sido muito mais bempago.

Largar na chuva nunca é bom. Largar na chuva, no frio esabendo que ia pegar fila e a pior pirambeira da prova éinfinitamente pior. Mas vambora que faz parte. Já nocomecinho, adivinha? Acertou, fila de novo. Dessa vez pq a trilhaestava um lamão e o povo passava devagar, tateando bastante antes dedecidir onde passar, com medo de escorregar logo no comecinho daprova. Anota aí, mais 50min de piadas e gritaria do nossogrupo, só que debaixo de chuva. Um mimo.

Daí pra frente só foi piorando, como esperado. Mesmofazendo um percurso alternativo – o que foi um ponto positivo nessedia péssimo- porque o principal ia ficar inviável nachuva, foi uma subida só. Nesse dia eu conheci o trekkingpool, aquele bastão moderninho de caminhada. Olha, tenho que confessar:não nos demos muito bem.

No começo, como em todorelaconamento, eram tudo flores. Ele me salvou de morrer afundada nalama movediça das encostas encharcadas, evitou que euescorregasse e basicamente foi essencial para esses trechoslamacentos. Mas aí a lama diminuiu, a subida ficou maisíngreme e nossa relação começou a ficardesgastada. Eu juro que nao consegui me acertar com ele. Porque meujeito de subir ladeira da morte pressupoe uma certa mecanica, com asmaos se movendo no mesmo ritmo que as pernas e ajudando na subida,estilo curvada-para-frente-mao-no-músculo-da-coxa-a-cada-passada,sabe como é? Pois com o danado do trekking pool nao dápara fazer isso, seus braços tem que seguir um ritmo bemdiferente das pernas e nao podem encostar nas pernas. 

Teoricamente eudeveria estar distribuindo meu peso com o 3º apoio e fazendo menosforça para subir, como as pessoas afortunadas que sabiam o usar o bastãoinfernal. Não foi o meu caso, me senti fazendo o dobro da forçaque normalmente faria, me sentia desengonçada, simplesmentenão conseguia subir. Tipo péssimo.

Minha sábia dupla,habilidosa e faceira com seu trekking pool que só, nãoestava acreditando na minha dficuldade. Quero dizer, não que ela duvidasse de mim, é que parecia bizarro demais para ser só um problema de relacionamento com um objeto inanimado. Ela me garante que era algo mais queisso, mas juro, eu não estava me sentindo mal, nem fraca, nem comdor. Eu só não conseguia subir como uma pessoa normal, estavamais para zumbi escalador, sabe aquele andar lento e desengonçadode quem já morreu e esqueceram de avisar? Era eu.

Mas uma hora eu consegui começar a ignorar aqueleequipamento desconcertante e voltar a acelerar. Tá, eubasicamente comecei a parar de usá-lo, até que a lamaacabou ao ponto de eu poder devolve-lo. Um dia quem sabe revemosnosso relacionamento, quando eu superar meu bode e fizer as coisasdireito, ou seja, treinando com ele antes para pegar o jeito comofizeram as pessoas mais espertas.

Enquanto isso, a trilha seguia rumo ao céu. O lugar mais lindo dodia para mim, disparado, foi a Trilha do Abismo, um caminho estreitotão no alto que vc corria acima das nuvens. PÁRA TUDO E IMAGINA: vc correndo e do seu lado direito a encosta da montanha e dolado esquerdo um abismo, com as nuvens paradas ABAIXO de vc.Inesquecível.

As coisas complicaram quando começamos a nos aproximar dofim. A chuva apertou muito e mesmo um bom impermeável uma hora joga atoalha, pq vc já cozinhou por dentro e pq esse entra e sai dosrios gelados + o temporal já conseguiu te encharcar atéa alma. Aí nós fizemos algo que vcs nunca devem fazer:perguntar a alguém da oranizaçao quanto fatava para a chegada.O carra disse com muita convicção: un quilometro e medio.BELEZA! Mamão no açucar, estamos chegando, nem precisa maiscomer. Acreditou? Dançou playboy. Faltavam mais de5K. O que é ridículo no Ibirapuera, mas é uma vida nofinal do pior dia do Cruce.

Teve uma hora que comecei a correr de puro desespero. Tremia tantode frio que achei que ia congelar ali mesmo e um dia, no futurodistante, iam me achar presa dento do bloco de gelo, tipo vejam a antapré-histórica que acreditou na información docabrón.

Aí vc finalmente chega e descobre que algo mais deu errado.Mais da metade das caixas, os banheiros e coisas do camping nãochegaram nem vão chegar. Com a chuva uma ponte quebrou e sóalguns caminhões conseguiram passar. Então, se sua caixa estálá, vc fica ali mesmo, se não, entra num caminhão de campo deconcentração, anda 500m, desce dele e anda mais 5K atéo acampamento 2, passando por um rio geladésimo.

Acharam péssimo ir até o acampamento 2? Isso porquevcs não ficaram no acampamento 1 como eu. Por que esse acampamentoficava num lugar batizado de.. Vale da Merda. Aliás, antes que alguémreclame, este é um blog fino e de família, que não usa de palavras de baixo calão. O termo, nestecaso, é apenas a descrição literal da verdade. Quase um termo técnico. Porque ochão desse acampamento era feito de.. bem, não tem um jeito delicadode dizer, excremento de vaca. Nao estou exagerando, nao dava para vernem um pedacinho de grama molhada ali, era esterco puro. E os lugaresque não estavam assim digamos, decorados, estavam alagados.

Daí vem a pior tarefa da noite: montar a barraca na chuva,no cocô, tremendo de frio, encharcada e a um passo da hipotermia (pelo menosera essa a sensaçao). Nosso amigo francês de alma bondosa que sedispôs a ajudar a montar a barraca deve ter ficado impressionado, nopior sentido possível. Já sentiram o cérebrocongelar? É assim: alguem te fala “pega aquela estaca ali” e seucérebro fala “estaca? o que é uma estaca?” e duranteesse processo vc fica imobilizada, tremendo, com cara de ã, tipo protetor detela com janelas Windows voando. As pessoas falam com vc e na suaexpressão as janelas continuam voando. Aí quando vc consegueprocessar a informação e pega a tal estaca, não conseguecolocá-la onde devia, pq seus dedos estão duros de frio e vctreme tanto que erra o alvo diversas vezes. Uma delícia,especialmente se vc lembrar que vc PAGOU para ter essa experiância.Palmas para vc. Gênio.

Aí vc entra catatônica na barraca, se troca e o cérebrocomeça a descongelar, junto com as roupas quentinhas. Nao ficaótimo, pq afinal nao pára de chover, vc estáliteralmente na merda, seu abadá está encharcado, assimcomo a mochila, impermeável, luvas e manguito. E vc vai terque usá-los no dia seguinte. Oba!

Somando isso ao fato de que no Campo de Refugiados 1 (o nosso) não tevebanheiro, a comida chegou as 20h, tudo na barraca estava úmidoe nao tinha ninguém da organizaçao p/ vc se informar, nao foiassim um final de dia gostoso. E consta que o povo do Refugiados2 foi quem se rebelou, dizem que houve gritaria, palavras de baixocalão, pitís e muitas muitas desistências, já que aorganizaçao estava toda lá. E olha que no camping delestinha até banheiro, alem do chão ser de grama com apenaseventuais presentinhos das vacas aqui e ali. Tem gente que era felize não sabia.

Eu entendo o povo que desistiu. Dava vontade mesmo. Quem tinha idono clima um-passeio-mais-longo-entre-lindas-paisagens viu a casacair. Mas por outro lado, na montanha CHOVE, gente. Pontes caem. Oque pegou foi a falta de informação nos campings e um preparomehorzinho para a chuva, já que sabendo que ia cair o mundopodiam ter pensado pelo menos numas loninhas de cobertura e numalogística de largada melhor.

Mas afinal, depois de dormir no Vale da M**** vc acha que a genteia desistir? ÓBVIO QUE NÃO, NÉ? Porque a lógicadiz que piorar não podia, entao o dia 3 só podia ser ótimo.E foi!

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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