Cruce de los Andes – Parte I – Pré-prova

Redação Webrun | · 15 fev, 2012

Pessoas, eu vi. Eu vi o vulcão de perto e tirei foto no pico nevado para confirmar. Sim, sim, sim, estou de vuelta do Cruce de Los Andes 2012, sobrevivi a mais esta e tenho vááááárias coisas para compartilhar. Então senta que lá vem a história, em partes para não virar um post-romance-russo-tipo-guerra-e-paz.

Como vocês bem sabem, a prova não começa na largada. Começa muuuuito antes, nos treinos, depois no check list e finalmente na viagem. Este ano, a parte viagem teve um stress master bold plus: a zona de abre-e-fecha aeropuertos por conta das cinzas do vulcão (não o que a gente ia subir, claro). Ou seja, você compra a passagem para San Martin ou Bariloche e um tempo depois recebe um aviso que estes aeroportos estão fechados e não têm previsão de abrir. E que ainda não se sabe como vai ser a realocação dos voos e passagens, se vai manter as datas e horários, como vai fazer com os traslados, como fica o hotel, enfim, tudo fica incerto e confuso.

Aí depois de dezenas de email e telefonemas, milhares de pesquisas via internê onde você vira praticamente um expert nesse tipo de viagem, muito respira-no-saquinho,  as coisas se resolvem. Mesmo a solução sendo você pousar num aeroporto que vai precisar de um traslado suave de 6h ou 7h até San Martin de los Andes, que é onde o Cruce começou este ano.

Como ninguém treinou meses para desistir por causa de um enrolation, surgiram soluções mil: teve gente que alugou carro, teve gente (tipo eu) que achou um busão amigo e gente que foi de traslado caro contratado a parte. Eu particularmente fiquei bem feliz com o busão –desculpa, o OMNIBUS, que tinha 2 andares, opções leito e semi leito, filminho em duas tvs (o luxo) e lanchitos durante o percuro. Ah sim, o filme destaque foi 2 Filhos de Francisco dublado em espanhol, priceless!

Para coroar o perrengue pré-prova, claro que no dia que a gente chegou estava chovendo. Muito. O hotel era tipo a 4 quadras do Terminal Rodoviário (onde cabem uns 4 ônibus mais ou menos), mas a tchuva não deixava levar as malas a pé, obrigando a galera a esperar os 3 taxis disponíveis a ir e voltar até chegar sua vez.

Pessoas persistentes que somos, chuva não é considerada obstáculo para passear, então lá fomos nós conhecer alguns points, já que tinhamos alguns dias de folga. Lago gelado na chuva enregelante foi o só o começo. O passeio campeão foi aquele em que iríamos dar um rolê em outro vulcão, o Lanin. “É super legal”, disseram. Deve ser mesmo, num dia de sol, quando as pessoas sabem o caminho e principalmente quando dá para VER o Lanin. Porque eu não vi, aliás acho que ele não existe. “Olha lá o Lanin”, dizia a Ari apontando para o nada no meio da neblina. Podia estar do lado oposto que eu também não ia acreditar, porque na verdade para qualquer lado que você olhasse tinha uma neblina branca e densa. Tudo mentira esse tal de Lanin.

Já a cidade sede da prova, San Martin de Los Andes, é tipo uma maquete. Pequena, cercada de montanhas lindas, em cada esquina tem loja ou de chocolate, ou de esporte, ou de pesca ou é um restaurante que serve truchas (leia trutchas, ou seja, trutas), javali ou cervo. Como chegamos com antecedência, deu para dar uma aclimatada e descansar da viagem, coisa que eu recomendo MUITO para este tipo de prova: chega antes, que esse stress de chegar na última hora e ter que correr para fazer a inscrição e ver todos os mil detalhes da prova não vale a pena.

Aliás, o kit deste ano estava bacanudo: fleece azul royal que deixou San Martin com cara de Aldeia dos Smurfs, 1ª pele, pratos, caneca, garrafa térmica, buff (aquele paninho de cabeça que tem 1001 utilidades, tipo vira bandana, gorro, protetor de pescoço, lenço legionário e lacinho da Minnie se vc quiser), o abadá da prova (a tal camiseta obrigatória com seu nome e bandeira do seu país que vc vai usar todos os dias), bandeira para pendurar na mochila, foto da dupla no porta retrato e mais umas coisitas de comer e beber. Faltou o chocolate patagônico do outro ano, mas nada é perfeito.

Na 4ªfeira, hora de despachar a mala da prova e começou a gincana: como a largada ia ser do Chile e estávamos na Argentina, a mala ia ter que passar pela aduana para ser levada para o acampamento. Neste caso, a aduana chilena veio até nós, com seu scanner e com as várias informações desencontradas sobre o que podia e não podia levar na tal mala.

“Pode levar enlatados mas não pode levar embutidos”. “pode levar na bagagem de mão mas não pode na mala”. “Pode levar na mala mas não passa na bagagem de mão”. “Queijo não pode”. “Queijo lacrado pode”. “Bananinha e uva passa pode se for lacrada”. “Bananinha e uva passa não pode de jeito nenhum”. E assim foi, você escolhia a informação que mais lhe agradasse e acreditava nela. Eu escolhi uma que ouvi da Déia e que dizia que “teve código de barras pode”. Achei que era simples, soava lógico e tinha um tom oficial.

Mas na prática era tudo meio que uma questão de sorte. Tirando coisas que obviamente nunca pode em aduanas, tipo frutas frescas estilo maçã, banana, pera, ou carnes e comidas a granel, tudo dependia da pessoa que passava sua mala. Teve personas da aduana que mandaram tirar tudo, do atum em lata ao GU em sachê. Teve uns que consideraram que a bananinha era fruta, outros que não porque era industrializado, lacrado (e tinha código de barras, viu como fazia sentido?).

Uns deixaram passar queijo em embalagem lacrada. Uns mandaram tirar até pacote fechado de bisnaguinha. Uma coisa meio Bola 8 Magica, sabe aquela bola para a qual você faz perguntas aleatórias e ela dá respostas idem? Igualzinho. Descobri que sou agraciada pela sorte, porque minha mala passou sem maiores questões –vou até jogar na megasena a partir de agora.

Aí na 4ª de manhã (a partir das 4h da manhã para os que pegaram a senha cedo demais) começou o transfer para o local do acampamento. Era assim: primeiro um ônibus ou van te levava até o Chile. Ali você descia, fazia a aduana com sua mochila de mão e esperava outro ênibus ou van. Daí você chegava num descampado (que seria o local do acampamento do dia 2) e esperava até 3h pela balsa que ia te levar até o acampamento 1.

O bom é que o dia estava LINDO e o balsão foi engraçado. O visual que ia se abrindo era de cair o queixo, até que teve um momento em que fizemos uma curva e apareceu no horizonte uma montanha enooooorme, de pico nevado, tipo láááá longe. Aí alguém disse: “olha lá, é o vulcão que vamos subir amanhã!”. Silêncio súbito na balsa abarrotada de gente. Porque pessoas, o vulcão era ALTO. Parecia meio impossível que no dia seguinte a gente ia estar lá no topo. Deu um frio na barriga geral, mas para disfarçar todo mundo começou a rir e criar piadinhas mil.

No Acampamento dos Smurfs (as barracas eram da mesma cor do fleece azul royal), hora de arrumar suas coisas na barraca, comer, deitar na areia, andar na água, conversar com os amigos e fingir que você não sabia o que te esperava na largada do dia seguinte, a partir das 8h da manhã.

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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