Cruce de los Andes – Dia 2 – O crime da mala

Redação Webrun | · 22 fev, 2012

Dia 2 do Cruce, já aprendi, é o dia-do-vamos-ver. Porque é o dia em que os imprevistos e apuros acontecem. No Cruce 2010 foi o Dia do Vale da M….. No Cruce 2012, foi o Dia do Crime da Mala.

Mas estou me adiantando. Primeiro tem que voltar ao final do Dia 1, pós-vulcão. Depois da nieve fofa, do cascalho rolante, da subida sem fim, da descida super íngreme e da ponte que não chegava, o mistério era saber como é que a gente ia enfrentar o 2º dia, chamado de “más duro” no site da organização. Más duro que o vulcão? Help.

Para aumentar o clima de suspense, durante a noite choveu. Bastante. Eu tive visões do famigerado dia da chuva do Cruce 2010, com rios subindo, pontes caindo e acampamentos em lugares pavimentados de cocô de vaca. Mas foi só um flashback do terror, porque no amanhecer o dia estava RADIANTE. Apesar da chuva e da barraca smurf ficando com as paredes molhadas (não de chuva e mesmo esticando a 2ª camada ao máximo), dormi incrivelmente bem. Ah, colchãozinho inflável, você é um trambolho mas eu te amo mesmo assim.

Por conta da tchuva, a largada foi adiada para tipo 9h30. Ou seja, deu tempo de acordar, se alongar, arrumar a mala e empilhá-la na praia, tomar café e se preparar para andar os mesmos 2K da largada, porque o início do percurso ia ser o mesmo do Dia 1 no comecinho, só que obviamente logo mais ia para o outro lado, tipo fugindo do vulcão.

A expectativa de correr depois dos 43K do dia anterior é de que seja algo bem sofrido, afinal o corpo todo te lembra do Dia 1. Mas aí você larga e algo acontece. Deve ter uma explicação lógica e científica para isso, mas pode chamar de mágica que dá na mesma. O fato é que de repente tudo se encaixa. Claro que subir e fazer força continua sendo duro, claro que os músculos, tendões e ligamentos ainda lembram do esforço do dia anterior. Mas nada disso parece importar ou fazer muita diferença.

É como se o corpo falasse “ok, entendi, você sua maluca vai querer correr + de 40K todos os dias agora né? então tá, vamos com tudo”. E o corpo simplesmente SE ADAPTA. Com “se adapta” não quero dizer que você vai se arrastando, sobrevivendo. Significa que o cansaço vai diminuindo, você vai se aquecendo, vai engrenando e CRESCENDO na prova, algo que parecia impossível até então.

É por isso que você não deve entrar em pânico quando estiver treinando para uma prova dessas e quebrar no 1º treino de piramba forte. Quando se sentir acabado e quebrado depois de fazer um treino de 3h e pensar “se estou assim depois de só 3h no 1º dia, como vai ser no Cruce?”. DELETA ESSE PENSAMENTO. NA HORA! Porque a verdade, como a Cris sempre repete, é que essa conta não fecha. Vamos lembrar aquele mantra novamente: treino é treino, prova é prova. Você pode morrer no treino, achar que não aguenta dar nem mais um passo –mas num Cruce é diferente. Acredite. Você não consegue simular o que acontece num Cruce num treino.

Porque não é só físico. Na verdade, essa parte é bem pouco física. O físico, se você seguiu sua planilha e fez todos os treinos direitinho, está garantido. Mesmo que os treinos tenham sido duros e você tenha dúvidas. Mas essa força que surge numa prova dessas vem de algum outro lugar. Se a cabeça está boa, se você não entrou em pânico ou começou a ter pensamentos circulares sobre desistir, o corpo aguenta.

E olha que o Dia 2 teve subida. Segundo ouvimos, teria uns 15K ou 20K de subida, mais uns 15K de descida. Então o foco era tentar subir o mais rápido possível na expectativa de chegar logo no topo da montanha e começar a descer.

Neste dia, minha prova solo não foi tão solo assim: o Aloysio, da querida-dupla-amiga Lu + Aloysio foi companheirão de quase 100% do percurso. Porque o casal tinha se deparado com uma questão peculiar: depois do vulcão, um sentia dor se andasse e o outro sentia dor se corresse. E agora Batman? Sensatos que só, decidiram que só neste dia um correria, o outro andaria e se encontrariam no final –vamos deixar claro que não por uma questão de classificação, que eles não estavam nem aí com isso, mas para garantir um sofrimento menor aos dois.

A companhia foi ótima, uma conversinha nas horas mais terríveis da subida ajuda muito, pelo menos a mim. E a subida continuava, estradinha no meio do verde, árvores de tronco esbranquiçado nas margens, mar de montanhas no horizonte. E o topo que não chegava? Cada hora a gente pensava: é ali! Mas nada, tome mais uma curva e uma subida.

Até que finalmente chegou, segundo as pessoas com GPS, no KM 30. UAU! Já km30?? A animação foi geral, afinal se o percurso tinha 40K agora era só descer correndo até a chegada, sensacional! Essa idéia foi como uma injeção de adrenalina na galera. Com sorriso nos lábios, falamos “e aí, vamos acelerar??”.

A partir daí foi uma endorfinada só, despencando montanha abaixo. Aloysio estava impossível, protagonizando ultrapassagens perigosas em alta velocidade. Eu me diverti MUITO. Me senti criança, sabe quando o legal é você ir MUITO RÁPIDO (mesmo que a velocidade real não seja tanta assim mas a sensação sim)?

Mas aí eu ia olhando no reloginho e contando, 3K, 4K, 5K, 8K, 10K –agora tá acabando né? Sprint final, certo? Só que eu corria e os quilômetros continuavam: 11K e descendo, 12K!! E de repente parou de descer. Eu olhando ansiosa, cadê o gate de chegada?? E aí de repente vejo umas pedras. Costão cercado de água. Einh?

Essa era a surpresita que a organização guardou para o 2º dia. Senão ia ficar muito fácil né? No final o percurso somou 47K. E 2K finais de pedras e água para atravessar. Daquele tipo que você tem que ir se segurando (e não daquele que você simplesmente anda ou corre por cima). Ali eu tive um momento-pastelão, escorreguei e caí na água. Até aí beleza, rasinho, o problema é o detalhe: com a máquina fotográfica fora da proteção. Não, não era a prova d´água. Sim, devia estar na proteção. Por que não estava? Sei lá, eu estava lesada, achando que já tinha acabado e deixei a máquina a mão. Disponível para um breve mergulho, sabe assim? Por isso, a quantidade de fotos desse dia ficou, digamos assim, limitada. Assim como as do dia seguinte. Ah, e a máquina voltou a vida (em São Paulo, claro).

Mas voltando, essa travessia demorou PARA SEMPRE. Olha, eu sou bem ruim de andar em pedras, não tenho essa experiência, sou lenta, mas o povo na minha frente ganhou o Oscar da Lerdeza. Deu até um nervoso. Era meio passo, parada, pausa para gritar ou xingar hijo de puuuuuuuu……., parar, receber incentivo de outros tchicos, mais um passo… Gente, eu sou uma pessoa calma. Zen. Mas ali estava demais. E se uns poucos seres não passavam, ninguém passava. Porque a água estava subindo –aliás, pessoas inteligentes leitoras deste blog, como um lago pode ter marés (ou o equivalente de)? Porque o nível de água estava claramente subindo, tanto que as pessoas que chegaram umas horas depois não puderam passar porque estava acima do peito.

Foi desesperador, porque dava para ver a chegada ali do lado mas não chegava. E o sol indo embora. E você ali, preso na câmera lenta. O resultado foi que cruzei a linha de chegada com FRIO. Frio daqueles de congelar pensamento, porque o sol já tinha saído do acampamento e todas as roupas estavam encharcadas e geladas no corpo.

Poxa, para de reclamar e troca de roupa então né? –vocês devem estar dizendo. Pois é. Só que tinha um probleminha. A mala não tinha chegado. Oi? Como assim por exemplo? É, quase nenhuma mala tinha chegado ao acampamento 2. O Crime da Mala. Porque a balsa, aquele balsão imenso que nos trouxe até lá, teve um problema. Pelo que entendi começou a vazar combustível. Resumindo, estava fora de combate. Então sei lá, só umas 20 das 1.500 malas tinham chegado. E a quantidade de pessoas molhadas batendo dentes aumentava.

Aliás, se engana quem achou (como ouvi gente falando na raiva do momento) que só elite tinha as malas na mão. Assim que eu cheguei vi a Cris, que vamos combinar está nesse grupo (até porque ganhou este Cruce) e tinha chegado HORAS antes de mim e nadado nesse trecho das pedras, de shorts molhado, só de meia e com cada pé dentro de um pacote de bolacha para esquentar um pouco. Pena que minha máquina estava fora de combate, porque teria dado uma foto ÓTEMA.

Aí começou o que sempre acontece nessas horas. Indignação, ultraje, inconformismo, ódio no coração. Mas a organização não tinha um plano B? Bom, tinha. O plano B era ir trazendo as malas de carro, camionete, que foi o que eles fizeram. O problema é que cada leva demorava horas e chegavam tipo 30 malas por vez, que era o que cabia em cada veículo.

No acampamento, já estava rolando um motim. A enfermaria estava enchendo de gente com hipotermia ou quase. Para uma parte do povo, nem a barraca tinha chegado. A organização se pronunciou –e aí, mesmo que o plano B deveria ter sido melhor, tenho que dizer que foi corajoso botar a cara para bater no meio do povo irritadíssimo–e disse que as malas continuariam chegando, e que este processo terminaria por volta das 4h ou 5h da manhã e que eles levariam as pessoas que assim o quisessem de volta para San Martin logo mais.

Este foi um momento crítico. Porque aí, depende muito de como você encara a prova. Se encarar como sou-cliente-paguei-se-vira-nao-vou-esperar-mala-nenhuma, a probabilidade de voltar para San Martin é grande. Se você estiver na enfermaria, também é o caso de pensar e analisar seriamente se você está OK para continuar a prova. Para quem chegou mais tarde –e não pegou o trecho das pedras porque a partir de algum momento a organização cortou essa parte– era uma questão de pesar a exaustão, frio, o saco cheio de esperar o transporte no escuro por horas.

Eu pessoalmente já incorporei que provas como o Cruce tem perrengues fora do percurso da prova. Sempre. Umas 1.500 pessoas na montanha, a probabilidade de rolarem coisas assim, ou como a queda da ponte por causa da chuva em 2010, é grande. Eu acho que o acampamento faz parte do se por a prova. A organização erra? Sempre erra em algo. Sempre dava para ter feito melhor, planejado diferente. Tem que reclamar? Tem! Mas vale desistir por causa desses perrengues? Eu acho que não.

Porque o frio passa. A raiva passa. A fome passa. O cansaço passa. Desistir não. A não ser que você esteja tomando uma decisão CONSCIENTE, o que significa que você pode lamentar e ficar triste depois, mas não vai se arrepender.

Foi por ter essa sabedoria em nosso grupo que vivemos uma cena curiosa. A Déia, cujo maior temor era o joelho não segurar a onda, estava com algo muito mais urgente para se preocupar: a unha. Porque ela conseguiu detonar as 2 unhas dos 2 pés –você acha que ela fez força no Dia 1? E não era só uma questão de dor, as unhas estavam bem bonitas, naquele tom roxo-esvereado-o-dedo-vai-cair, meio soltas, lindas mesmo. Como ela estava tendo dificuldades em sequer PISAR no chão, tinha decidido que para ela tinha dado, ela ia voltar para San Martin e PRONTO. Aí ela falava isso para Cris e Ari, repetia e elas simplesmente ignoravam. “Tá, vamos dormir e amanhã você vê”, foi a única coisa que a dupla Ari concedeu de atenção ao dedo. Como ninguém parecia dar bola para a possível desistência e queda do dedo, a Déia resolveu fazer uma enquete sobre o real estado do machucado. Então pelas próximas horas, todo mundou ouviu a seguinte pergunta: “Olha meu dedo?” seguido de “E aí, você acha que dá???”. Como ninguém respondeu diretamente e a maioria desviou o olhar daquela beleza, não teve outro jeito: ela teve que ir dormir.

Porque teve um outro lado nesse caso Crime da Mala Que Não chegou: a união das pessoas. Sério, a gente lê textos sobre solidariedade, companheirismo, compaixão, ajuda ao próximo –mas ver tudo isso acontecendo do seu lado é emocionante e muito legal, sem pieguismo algum.

Porque as poucas pessoas que eram do time dos com-mala, sequer pararam para pensar. Paulinho em poucos minutos já basicamente não tinha mais mala, porque tinha emprestado tudo o que tinha para a galera: meias, calças, camiseta, o que tivesse. Teve a dupla Bob-pai & Bob-filho, ou Los Consiglios, que mesmo batendo dentes de frio, assim que chegou sua mala, já foram entregando tudo para os molhados. Vivis ainda tinha ânimo de perguntar para as pessoas como era a mala de cada um e procurar para os amigos. É claro que você tinha que fazer a sua parte, ou seja, sair andando pelo acampamento amigo avisando que era sem-mala e se alguém tinha algo para emprestar.

No final das contas eu fiquei com calça 1ª pele da Cris (que ela nem coneguiu estrear, tirou da caixa e me deu sem pestanejar), calça impermeável dos Consiglios (que devem ter mais ou menos 1,90m de altura contra meus 1,60m), meia e tênis da Su, fleece da Marri e impermeável meu mesmo, que milagrosamente não tinha molhado no topo da mochila.

Como sem-mala significava sem saco de dormir, ainda tinha a questão do pernoite. A solução veio sem pensar duas vezes da Vivi, Cris, Déia, Ari e cia: vamos colocar os sem-mala nas barracas dos com-mala. Foi assim que eu descobri como as sardinhas em lata se sentem. Aliás, eu a dupla-amiga que me acolheu igual coração de mãe, Ari & Déia. Porque elas abriram mão de uma noite mais confortável para brincar de enlatado comigo, cedendo ainda um pedaço de cada saco de dormir para eu me cobrir (claro que todas estávamos lesadas e esquecemos da existência do bivac de emergência).

Como estávamos deitadas duas para um lado e eu no meio para outro, se mexer era impossível –além do medo de acertar no tal dedo ultra-sensível, do lado da minha cabeça, e a pessoa gritar de dor ou me chutar. O problema é que, mesmo coberto, meu pé continuava bloco de gelo. Simplesmente não esquentava, acho que por conta do friodo lago. Mas eu não ia acordar as meninas para reclamar né? Só que a Ari sacou e perguntou se estava tudo bem. Ótimo, eu disse, só pé congelado. E aí ela fez uma coisa simples e mágica: botou a mão no meu pé. Gente, aquela mão quentinha fez o que os casacos ultratecnológicos não foram capazes de fazer: fez tudo ficar bem, meu pé esquentar e ainda passar uma energia amiga que me fez sentir em casa e dormir.

Dormimos super bem? Não né. Mas conseguimos rir da situação. Ficamos todos mais amigos. Superamos juntos mais um perrengue e somamos mais histórias para contar. E o mais importante: acordamos prontos para o 3º e último dia.

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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