Treinar diariamente para correr não é tarefa fácil. Há quem corra apenas por prazer, sem qualquer preocupação com resultado. Geralmente essas pessoas não têm problemas com os treinos, pois eles são mais diversão do que esforço. Há também aqueles corredores competitivos que, embora não sejam profissionais, têm ambições claras em relação aos seus tempos de prova. Para o primeiro tipo de gente, a corrida é apenas uma atividade prazerosa. Mas para o segundo grupo, correr significa também desgaste e fadiga. É como diz a música do poeta da Tropicália: cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é.
Imagino que os atletas profissionais tenham também que trabalhar o fator psicológico para não quebrar em seus treinos mais difíceis. Uma das estratégias usadas por eles, talvez, seja a de sempre correr em grupos. Já li alguns relatos de atletas africanos que corroboram com essa hipótese. No Quênia, eles nunca treinam sozinhos. Nas provas que acompanho também jamais vi um atleta africano correndo desgarrado, salvo nos momentos finais, quando fazem o sprint final para a chegada. Meus amigos corredores também fazem isso, pelo menos nos treinos estão sempre em grupo.
A maior vantagem de correr em grupo é que os membros estão constantemente incentivando uns aos outros a prosseguir e ou a progredir. Há um desafio implícito no treino, quando um bota o pé na frente os outros são desafiados a persegui-lo e essa dinâmica vai sendo circular, cada um assumindo a função de coelho em momentos diferentes. Outra coisa importante de correr acompanhado é o enfrentamento das correntes contrárias de ar. Nada disso ocorre, porém, quando corremos sozinhos. Nesse caso temos que enfrentar todas as adversidades sem auxílio, o que acaba desmotivando muitos atletas e prejudicando, via de consequência, seus respectivos rendimentos nas provas.
Quando você corre forte, mas não tanto quanto um profissional, acaba tendo dificuldade em encontrar um grupo de ritmo semelhante ao seu. De modo geral, o pace dos atletas fica em torno de 3 minutos por km, ou seja, quem quer competir precisa trabalhar para acompanhar o grupo numa velocidade média de 20 km por hora. Os amadores acostumados a competir correm entre 10 e 12 km por hora. Mas se você tem um ritmo intermediário vai ter dificuldade em treinar em grupo porque não conseguirá acompanhar o pelotão e nem gostará de ficar tão para trás. Eu tenho constatado isso pelas ruas: os grupos correm nesses dois extremos e no intermédio encontro os sub40 numa corrida solitária.
Aristóteles parece ter razão: o homem é um animal político, ou como quer Hannah Arendt: o homem é um animal social. Melhor ainda, como afirma um axioma clássico da teoria política: os homens se agrupam para conseguir aquilo que não poderiam alcançar sozinhos. Sei que essa afirmação é muito antipática, como geralmente são as constatações políticas, desde Maquiavel, mas é o que é.
Este texto foi escrito por: MáRCIO RODRIGO DE ARAúJO SOUZA