Vou tentar explicar o que foi Leadvile Marathon, tentar, porque estou tentando entender o que passei e senti, e ainda estou confuso…
Do começo…
Cheguei à cidade de Leadville, a mais alta dos EUA com 3120 metros de altitude, na quinta-feira a menos de 48 horas da prova. Nas primeiras horas não senti diferença com a altitude, apenas a pressão no ouvido normal de viagens com subidas.
Na sexta-feira depois do café da manhã saí para rodar e ambientar. Então comecei a ver o preço que pagaria, depois de 1,5km senti o pulmão doendo e cansado. Fazia uma força grande para respirar e o ar não vinha. Na preocupação agora os 42km do dia seguinte. Completei 5km de rodagem sem suar, mas cansado como se corresse uma meia maratona. De volta ao hotel, banho, entrega de kit e descanso.
Noite mal dormida, não sei se pelo fuso, pela falta de ar ou nervosísmo, acredito que a última opção se torna quase impossível, não era a primeira vez, nem a última. Banho, café da manhã normal como faço em dias de prova, tudo arrumado, equipamento conferido e fui para o local de largada, com tempo para aquecer e alinhar em um bom lugar.
Uma novidade que gostei pelo costume, largada não com buzina e sim com tiro de calibre 12. Para meu espanto a prova larga a um pace de 5`/km em média. Acostumado a largadas fortes de no mínimo 4`/km, estranhei, mas não me aventurei e fui junto com a galera.
Com menos de dois quilômetros de prova meu coração já batia dentro da minha cabeça, não sei como, mas era isso. Com muita força nas primeiras subidas consegui vomitar no oitavo km, daí o inferno se formou. Mas vamos firme…
Chegamos a 3500, depois a 3700 e com 21k de prova chegamos ao topo mais alto da corrida com quase 4030 metros de altitude. Eu já não corria nas subidas desde o primeiro vômito. Comecei a descer para voltar pelo mesmo percurso de prova, ou seja, de agonia.
Depois de poucos metros passo o braço no nariz que não deixou de corizar desde a largada, mas agora estava sangrando, acho que neste momento seria para abalar meu psicológico, mas fiquei foi com raiva de não estar correndo com queria e agora sangrando. Nesta parte a trilha era aberta no meio da neve eterna, e graças a isso me salvei. Pensando rápido enchi a mão de neve e coloquei no nariz, fiz isso umas duas vezes até estancar. Mas vamos firme…
Continuei descendo firme e forçando o que dava no trekking de subida. Quando depois da segunda subida da volta, lá para os 32kms, vomitei novamente. Como lembrava que estava perto de um posto de hidratação e alimentação continuei até poder beber refrigerante. Parado, tomei “GU” e tudo mais que podia descer. Neste momento olhei para o relógio, vi que “faltava menos que faltava”. Um único pensamento no crânio junto com as batidas do coração e os flashes do que já tinha passado, “vou terminar”.
Às vezes trocava as pernas, os elas falseavam, os músculos doídos como nunca pela falta de oxigênio, o estômago esfacelado, a cabeça como uma bateria de escola de samba e eu não parava.
Enfim, a última descida e no relógio quase 39kms. Olhei para meu peito e vi ao lado do símbolo da New Balance, que me levou até lá e agradeço imensamente, a caveira do batalhão e lembrei uma frase falada no meu ouvido nos tempos de curso: “Até certo momento você é humano, depois disso você é bopiano!”
E como comecei, terminei, correndo.
“Nada é impossível para o soldado do BOPE.”

Este texto foi escrito por: RAFAEL SODRé GONçALVES