
Lance Armstrong escondeu o doping durante anos (foto: Divulgação Le Tour)
Passado alguns meses da explosão mundial do caso Lance Armstrong, ciclista multicampeão que foi delatado pelos ex-colegas de equipe e que, após negar por muitos anos, assumiu publicamente ter participado do que foi chamado pelo controle antidopagem de O mais sofisticado programa de doping da história. O fato ainda de ele afirmar que nunca foi pego nos muitos testes que realizou por não haver na época exames fora de competição ainda soa pesado.
O exame fora de competição é o antidoping que não é realizado no dia ou na véspera de prova, quando os atletas mais bem amparados pelo negro mercado do doping já estão limpos ou camuflados para determinadas substâncias proibidas. É o exame realizado de surpresa, pegando o atleta inteligentemente em alguma fase de treinamento estratégica, no próprio local de treinamento ou até mesmo em sua casa.
Muitos atletas que utilizam o recurso do doping quando sabem que haverá controle em determinada prova, não participam, não terminam, não terminam entre os primeiros propositalmente, suspendem o uso dentro de algum prazo ou se utilizam de substâncias que mascaram a droga da qual são usuários.
Este ano, a Agência Mundial Antidoping resolveu finalmente realizar exames fora de competição em um famoso centro de treinamento no Quênia e conseguiu pegar atletas de expressão, dentre eles o queniano Wilson Erupe Loyanae, Campeão da Meia Maratona Internacional do Rio de Janeiro em 2012, que ostenta como melhor tempo pessoal na maratona, 2h05min37. A substância detectada no exame de Loyanae foi a EPO (Eritropoetina), que, infelizmente, só pode ser detectada pelos sistemas mais modernos de controle no prazo de 72 horas após ter sido ministrada. O que significa que se o atleta utilizar a droga na segunda ou terça-feira, não será pego se o exame for realizado na competição do domingo!
Um estudo apresentado na reunião anual do American College of Sports Medicine, comprovou melhora de 5% nos tempos de testes de 3.000 metros de corredores quenianos que utilizaram EPO, droga considerada a mais eficaz para corredores de longa distância, que aumenta o número de hemoglobínas e hematócitros, melhorando assim a capacidade de transporte de oxigênio do sangue.
Neste estudo, vinte corredores quenianos com base em Eldoret, Quênia (local com elevação entre 2.100 e 2.700 metros da altitude) e 19 corredores com base no nível do mar, na Escócia, tomaram EPO a cada dois dias, durante quatro semanas e obtiveram melhora semelhante.
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| Paula Radcliffe é uma das principais atletas que lutam contra o doping. Foto: Divulgação Maratona de Londres/ Michael Steel |
Algo muito curioso é que, mesmo quatro semanas após pararem de ministrar a droga, ambos os grupos ainda correram em média 3% mais rápidos do que antes de utilizarem EPO. O que comprova a necessidade de se realizar exames fora de competição, pois o individuo que se dopa com esta substância, pode suspender a utilização próxima a uma grande prova para não ser pego, mas mesmo assim continuar desfrutando dos benefícios de tê-la utilizado. Alguns atletas, inclusive, se utilizam do fato de já terem sido submetidos a exames e saem atirando por aí, dizendo que o resultado foi negativo, como costumava fazer Armstrong com muito cinismo.
Infelizmente, onde há fama e prêmios envolvidos, sempre haverá pessoas de má fé e métodos cada vez mais avançados para burlar a lei. É a velha teoria de que o doping está sempre um passo bem a frente do controle antidoping. Desta forma, se faz cada vez mais necessária a realização de testes fora de competição, pois a cada dia o controle somente no dia ou na véspera tornar-se não tão eficaz, e os atletas limpos, verdadeiros heróis, que ralam muito nos treinos e competições são prejudicados e injustiçados.
Este texto foi escrito por: Nelson Evêncio
