Eu não estive sozinho no Endurance de San Francisco

Redação Webrun | · 12 jan, 2016

A vantagem de chegar em uma prova como  Endurance Challenge onde o nível técnico é muito bom, é que justamente não tinha somente “EU” para tentar vencer a prova.

Na fria e gelada madrugada que fazia no dia da prova, as pernas acordaram com a mesma idéia da cabeça: Vamos fazer valer a pena…

Com largada as 7h da manhã nem mesmo o iluminar do sol foi capaz de quebrar o gelo que os dedos das mãos e dos pés tinham em suas extremidades, confesso que até levei uma regata para correr o mais leve possível, mas ao entregar a mochila no guarda volume a coragem não deixou, pois era um frio de congelar mesmo…

Como na prova não era obrigatório correr com mochila ou cinto de hidratação, não tive esta preocupação e a organização disponibilizou os pontos de controle com um suporte bem completo com nutrição e hidratação a vontade.



Dada a largada, os dedos dos pés ainda estavam duros com o frio, mas nada que pudesse me atrapalhar significativamente, até mesmo porque ao meu lado tinha um corredor sem camiseta, e como não tinha volta, como diz o ditado: “sebo nas canelas”. Podia estar matando, roubando, mas não, aqui estou para passar frio, fome, sede e claro curtir cada metro dessa que posso dizer que era a prova do ano (2015).

Quando se esta dentro de um pelotão e esse pelotão tem os caras que estarão no km 30, no  km40 e no km45 brigando por um lugar ao pódio, vale lembrar que todos brigarão o tempo todo para chegar a este feito, (pódio).

Foi quando, que entre o km 2 e o km 6, tive que me organizar pra isso, para quem quase nunca corre em temperatura baixa, alguns pontos devem ser levados em conta para uma performance final positiva, como: aquecimento durante a prova, ritmo inicial, estabilizar a freqüência cardíaca, lembrar do que realmente tem nas pernas (os treinos), de acordo com o terreno analisar o ritmo da prova, nunca esquecer do que esta programado e do que realmente é possível…

Depois de fazer as contas das batidas do coração, o ritmo das passadas, ter calculado a velocidade que os ventos noroestes faziam na subida da montanha “X” e enfim sentir os dedos dos pés de forma natural, já estava tudo  pronto para transmitir a alegria que as pernas esperaram por todo o ano, fazer valer a pena a energia que todos transmitiram no ano e para aquele momento também.

Geralmente quando isso ocorre eu sinto o que pode estar reservado no final, mas como escrevi, muitos ali tinham a mesma idéia (vencer) e com todos os meus cálculos perdi um pouco o contato com os caras, subindo e descendo na mesma velocidade aos poucos pude ir galgando posições , no km 21 já era o 7  e quilômetros à frente, já me deparei com um grupo de três montanheiros no posto de hidratação, mandei um borá lá e assim formamos um bloco de cinco montanheiros pois encontramos mais um na frente.

Mas uma pergunta que não cessava dentro de mim era: qual será a posição que estou, o bloco passava nos pontos, mas isso não ficava claro para os ouvidos, mas como os quilômetros foram passando e o que eu tinha que fazer era no mínimo sair daquele bloco, passei a liderar o bloco com um ritmo de quem queria buscar alguém que estava na frente, até mesmo porque naquele grupo não estava dois montanheiros que lideram no inicio, ao meu ver eles estavam na frente.

Passando os km e já era o km 40, foi quando percebi que tinha um montanheiro comigo na mesma passada, ele descendo melhor e fazendo muita força para subir. Em um última subida de 5 km até o km 45 resolvi que o que eu queria estava mais a frente e passei a acelerar na subida  quando as pernas na verdade queriam descansar, sim consegui abrir alguns metros do cara que estava comigo, mas foi quando um anjo/amigo no km 42, passou de bike e gritou: ” Virginio, Virginio, Rei da montanha, caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaara vamos lá fera você é o terceiro colocado…

Não sabia se comemorava, gritava, agradecia ou cumprimentava o anjo chamado: Flavio Guércio Fernandes, com palavras de incentivo, com a sua alegria de me ver ali, com a sua energia de falar que eu estava representando muito bem nosso Brasil eu pude reunir as últimas energias que tinha para chegar onde eu tinha que chegar.

Flavio me acompanhou com a sua esposa até o km 45 de onde eu só tinha uma coisa em mente, acelerar, acelerar, acelerar e cruzar a linha de chegada com tudo aquilo que eu passei para estar em condições de estar no pódio. Na chegada lá estava Flavio e sua esposa para me saudar, mesmo tão longe me senti em casa, abraçar Flávio e abraçar pessoas que eu nunca vi na vida mas puderam sentir como eu estava feliz.

Flávio foi um cara que em 2013, estava em São Paulo e gostaria de treinar comigo (ele morava em Brasília), na oportunidade pude levá-lo para treinar na Aldeia da Serra onde treinamos, conversamos e depois nunca mais pude velo, por caminhos que a vida traçou, mas de alguma forma pude me sentir agradecido, mesmo longe me senti próximo dos amigos.

Endurance Challenge San Francisco – Califórnia – EUA

Data: 5 de dezembro de 2015

Modalidade: Corrida em montanhas

Terreno: Estradas, trilhas, escadas e pedras

Clima: Frio de -4

Distância: 50 km

Tempo: 4m12m34s

Altimetria: 1 ate 400 metros

Grau de dificuldade: Moderado

 

GPS:  https://www.strava.com/activities/450091413

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Este texto foi escrito por: JOSé VIRGINIO DE MORAIS

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