Forma física difere de condicionamento físico

Redação Webrun | · 24 set, 2013

Outro dia eu estava assistindo a uma partida de voleibol na tevê e ouvi um comentarista esportivo chamando a atenção para o que eu acabei de escrever no título desse “post”. Na hora não entendi muito. Achei que ele estivesse querendo usar um eufemismo para não desagradar uma parcela de telespectadores que não se achava nos padrões físicos vigentes.

Mas essa mensagem nunca saiu da minha cabeça. Ela foi gravada em minha memória dura de forma bastante concisa. Embora eu não seja propriamente um empirista (mas aceito as opiniões contrárias também), ontem me lembrei do David Hume, quer dizer, da sua teoria sobre o conhecimento humano, na qual o escocês afirma que a base fundamental do nosso conhecimento são as nossas experiências.

Mas e daí, perguntar-me-ão as amáveis leitoras e os agradáveis leitores, o que tem a ver os fundos com as calças, como diriam os baianos? Eu já explico.

Minha planilha me dizia ontem que eu deveria fazer 40min de trote. Escolhi minha cavalgadura mais confortável e fui fazer meu treino na Raul Lopes logo bem cedinho. O sol nascia com todo seu resplendor, um grande círculo de fogo tomando conta do horizonte e tingindo de rubro o céu azul da capital do meio norte. O clima era agradável naquele momento, havia uma brisa incomum que arrancava alguma umidade do combalido Poty.

Comecei meu trote alegremente. Nada de esforço, nada de sofrimento, nada de respiração ofegante. Poderia até cantarolar se desejasse, mas segui focado na minha respiração, enchendo e esvaziando os pulmões e sentindo o ar percorrer toda trilha das narinas até os brônquios.

Eis que no meio do caminho havia um gordinho. Ouvi passadas firmes em meus encalços, olhei sobre os ombros. Ele vinha fazendo força com uma frequência de passada muito acelerada. Olhei meu “pace”, naquele momento estava a 5m20. Fui ultrapassado tal qual a tartaruga pela lebre. Na hora reagi instintivamente no sentido de fomentar a competição. Algum preconceito deve ter influenciado esse sentimento também. Talvez ele estivesse fazendo “tiros” e logo arrefeceria, enfim… Decidi acompanhar para vê.

Aumentei a frequência e a amplitude das minhas passadas. Subitamente meu “pace” chegou a 4m10. Mesmo assim eu acompanhava o gordinho à distância, sem lhe oferecer riscos. O tempo foi passando, fizemos a volta próximo à ponte da Universidade e quando nos cruzamos frente a frente ele sorriu descontraidamente. Pensei: esse cara não está fazendo “tiros”.

Retornei disposto a encarrar o desafio. Fui seguindo o gordinho e achando que em breve ele não suportaria mais aquele ritmo. Ledo engano, depois da terceira volta meu “pace” já estava em 3m50 e a distância entre nós dois parecia maior. Nesse momento eu nem recordava mais que estava ali para trotar 40min. Fui arrebatado pelo instituto corredor, corpo suado, respiração forte, pernas se cruzando freneticamente… 

Em dado momento percebi que já havia corrido 42min e nem cheguei perto do gordinho, faltava menos de um km para o final da faixa azul e resolvi usar minhas reservas de energia para finalmente alcança-lo, tudo em vão. O vi ao longe tomando os rumos do setor de esportes da UFPI.

Naquele momento escutei a voz do comentarista esportivo dizendo: “forma física não é sinônimo de condicionamento físico”. O Hume tem razão, em partes: a experiência nos ensina muito.

Este texto foi escrito por: MáRCIO RODRIGO DE ARAúJO SOUZA

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