Correndo e Apredendo

Redação Webrun | · 20 set, 2013

Pensei em começar minhas postagens aqui com um texto que escrevi há algum tempo. A razão disso é que esse texto marca também minha estreia em provas de fundo. Como todo iniciante, aprendi muito com as experiências que a Meia Maratona do Iguatemi Farol a Farol me proporcionou.

O momento pré-prova foi marcado por desencontro de informações: o regulamento (e todas as mídias utilizadas na divulgação do evento) dizia que a corrida dos 21km teria largada no Farol de Itapuã e chegada no Farol da Barra. Na retirada no kit, certifiquei-me mais uma vez disso, de modo que no domingo às 6h30m estava lá, no Farol de Itapuã… sozinho!

Na praça Vinícius de Moraes, além da estátua do poeta, só eu e os pássaros. Aqui acolá passava alguém, todos perplexos: “cadê, onde será a largada…” Algum tempo depois ficamos sabendo por um taxista que havia uma concentração de gente defronte à igreja de Itapuã, a mais ou menos 1,5km do mencionado farol.

O que fazer? Saímos correndo: um aquecimento com muita tensão e ácido lático nos músculos, que maravilha! Contudo, chegamos a tempo. Largamos às 7h05, das proximidades do cruzamento da av. Otávio Mangabeira com a av. Dorival Caymmi.

Minha estratégia para aquela prova era simples: largar em ritmo moderado, acelerar entre o 2º e o 12ºkm, moderar até o 18º, e depois dá o sangue até cruzar a linha de chegada.
Passei o 2ºkm com 9min, bom! Com 32min de prova eu já havia cruzado o 8ºkm. Passei no tapete dos 10km com 43min. Tudo dentro do planejado, eu estava contente. Inobstante havia um elemento surpresa, um ponto fora da curva.

No kit da prova, dentre outras coisas, havia um sachê de uma pasta “energética” chamada GU. Eu, de fato, já ouvira falar sobre esse tipo de suplemento, embora nunca houvesse visto ou experimentado. Mas como se tratava de uma fonte de energia, usada por muitos corredores, que mal poderia fazer?

Decidi usá-la na metade da corrida. Tive alguma dificuldade para abrir o sachê; rasguei-o nos dentes, ansioso que estava para recarregar as baterias. Dividi o conteúdo em duas doses, embora só tenha conseguido ingeri a primeira. Aquela pasta doce e pegajosa grudou no meu “céu da boca” e tomou conta da minha garganta, asfixiando-me.

Tive grande dificuldade para engolir aquele troço. Melhor seria se não o houvesse feito, porque, ato contínuo, vieram os enjoos, ânsia de vômito mesmo. Um verdadeiro carnaval dentro de mim, ali na orla soteropolitana. Foi horrível. Cheguei ao 12ºkm muito mal, combalido. Parei, tomei água, tentei me recuperar para seguir o percurso.

Quando voltei para a prova trotava sofrida e penosamente. As pernas não respondiam, estavam doloridas, trôpegas. Aos trancos e barrancos fui arrastando-me, tentando não desistir ali.Porém a verdadeira via-crúcis estava por vir, depois do 18ºkm. Senti a primeira contração na panturrilha esquerda em um trecho de subida. A essa altura o sol já incidia nas costas sem clemência, inobstante houvesse vento frontal em abundância. Não tardou para a panturrilha direita reclamar com um puxão descomedido!

As câimbras estavam chegando com força! Tentei administrar a situação, relaxando a musculatura, embora sem grande sucesso. As pernas doíam, os músculos das coxas também já se contraiam violentamente. Eu fazia careta, mas não podia parar, não ali, não depois de ter corrido quase 20 km, superando tantas adversidades.

Algum tempo depois avistei o Farol da Barra, era descer, contornar e pegar a reta final. Uma cadeirante passou por mim e tentou incentivar-me: “vamos meu rei, olhe eu aqui na sua frente, venha, vá!”Ela desceu a ladeira “avionada” e eu fui arrastando-me, pelejando.

Contudo, entrando no corredor de gente, na euforia da chegada, ouvindo o narrador chamar o nome de cada atleta (que era impresso sob o número de peito), eu não senti mais dor, e menos ainda pernas, apenas a alegria incomensurável de cruzar a linha de chegada. Iemanjá deve ter vindo das terras de Aioká para conduzir meu corpo exaurido naqueles metros finais, tal como fez com o marinheiro bonito, na canção de Caymmi.

A avenida lotada, um mar azul de gente no asfalto e outro, imenso, esplêndido, quebrando na barra. Tudo foi recompensado naquele momento. O Farol da Barra, a Baia de Todos os Santos, o sol, o céu azul, uma brisa de maresia, uma medalha por fora e um contentamento indizível por dentro do peito. Foi assim minha primeira meia maratona: intensa, vivida, sentida na pele, no sangue, nos músculos e nos ossos. Valeu, valeu demais!

Este texto foi escrito por: MáRCIO RODRIGO DE ARAúJO SOUZA

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