A Renata, minha esposa, está lendo um livro chamado 30 lessons for living [30 lições para viver] e outro dia leu um trecho para mim muito interessante. O livro se trata de um psicólogo que entrevistou centenas de pessoas com 75 anos ou mais e abordou temas tipo casamento, dinheiro, filhos, trabalho etc. Realmente, nada melhor que alguém experiente para dizer o que vale a pena nessa vida…. A resposta de uma das perguntas sobre qual conselho elas dariam aos mais jovens foi unanime: usem seu dinheiro para viajar. Eu estou 100% de acordo. Se existe alguma coisa que o esporte pode oferecer é a possibilidade de conhecer o mundo. Desde que comecei a competir com o triathlon viajei para lugares que eu acredito que nunca imaginaria ir de férias caso tivesse um trabalho comum. Mas sinceramente, o mais legal são as pessoas que você conhece; o contato com culturas diferentes, isso não tem preço.
Me lembro em 2011 quando fui para a Austrália fazer um training camp. Passei 3 meses em Noosa, em Brisbane a convite de um amigo, o triatleta suíço Mathias Hecht. Eu dividi muitos treinos com o Mathias em Kona 2010. Ele treinava muito, o dobro que eu, mas tínhamos uma coisa em comum: respeitávamos o nosso ritmo e por isso terminamos passando mais tempo juntos durante os treinos de pedal e corrida. No final da viagem do Havaí, ele encontrou a Renata em uma lanchonete e perguntou se nós não queríamos passar um tempo com ele na Austrália. Ele ia todos os anos e tinha todo esquema montado por lá. Não pensamos duas vezes, em janeiro de 2011 já estávamos lá: dois sul-americanos dividindo a casa com dois suíços.
O primeiro dia que fomos pedalar juntos, eu pensei hoje é meu dia. Meu prato era 55 porque pedalando em Buenos Aires [que é tudo plano] era perfeito e resolvi não trocar antes de provar a primeira pedalada em Noosa. Mas lá é totalmente diferente. É um sobe e desce terrível. Mathias viu meu pratão, mas não me disse nada. Lá fomos pedalar, eu com minha TT, prato 55 e ele com uma bike de estrada. Cara…. quase morri. A verdade é que me levaram para um batismo em Noosa, foi tudo armado para me fazer sobrar, uma brincadeira, lógico, mas que eu não senti a menor graça! Haha… Me levaram para os lugares mais íngrimes de Noosa, fiz tanta, mas tanta força que quebrei meu câmbio. Mas não sobrei. Cheguei em casa em coma e o Mathias só dava risada. Eu tava muito bravo, queria matar ele, xinguei ele de todos os nomes que eu lembrava, em todos os idiomas.

Eu e Mathias antes de uma prova de atletismo, em Noosa
Depois desse treino tiveram outros muito difíceis, mas eu já sabia escolher o que dava ou não pra fazer. Os 3 meses passaram voando e foi uma das experiências mais enriquecedoras para mim como atleta e como ser humano também. O mais legal é que fomos embora de Noosa torcendo muito um pelo outro. Sabíamos exatamente o que cada um tinha passado naqueles 90 dias durante os treinos. Com certeza tem a rivalidade do dia da prova, tudo bem, mas ainda assim, existe um respeito enorme por tudo o que cada um faz.
Esse ano eu venci por 4ª vez o Ironman Brasil e o Mathias, 2 semanas antes, venceu seu primeiro Ironman, no Texas. Lembro que depois da prova, mandei uma mensagem pra ele agradecendo aquele pedal de Noosa…. Foi realmente muito bom saber que tudo que fizemos valeu a pena e que nosso companheirismo dentro e fora dos treinos teve um saldo positivo. A gente cria no esporte laços e valores que são para toda vida. E é isso que devemos guardar.
Bons treinos.
NEVER GIVE UP.
Eddie Sturla
Pro triathlete/ Coach
www.eduardosturla.com
Este texto foi escrito por: EDDIE STURLA