Oi? Que título é esse, você deve estar se perguntando. Que diabos são tipos ayurvédicos? Bom, acontece que a medicina ayurveda, ou melhor, uma de suas especialidades –a nutrição ayurveda– é a minha área e esses dias fiquei me divertindo ao observar como dá perfeitamente para classificar os corredores de acordo com os 3 tipos ayurvédicos.
Esses 3 tipos, que são chamados de doshas, são a base do Ayurveda. Funciona mais ou menos assim: você descobre qual a sua constituição, ou seja, qual a proporção dos 3 doshas que você tem e todo tratamento, medicamento e alimentação serão de acordo com o seu tipo –ou seja, os mesmos sintomas podem ganhar tratamentos diferentes.
O nome desses 3 doshas é divertido: Vata, Pitta e Kapha (com todas as piadinhas que o Kapha, que lê-se cafa, traz a tona). Todos temos os 3, mas alguns tem 1 deles dominante, outros 2 e outros tem os 3 quase que na mesma proporção. Não tem melhor nem pior, mas as características de cada tipo são fáceis de identificar, especialmente na corrida.
Corredores Vata
Eles são rápidos, tendendo para o magro e são capazes de uma pisada leve e silenciosa que até te assusta quando chegam em você nos tiros. Representados pelo elemento ar, os Vatas são, digamos assim, aéreos. Sabe o corredor que chega na prova, descobre que esqueceu o nº de peito e o gel, quase não chega a tempo para a largada e faz 3km a mais porque se perdeu na trilha? É o Vata, certeza.
Eles começam a correr porque parece divertido. Ou alguém disse que faz bem. Depois decidem virar maratonistas. No meio caminho cogitam corrida de aventura ou triathlon. Aí cansam de tudo e passam um tempo só pedalando. Mas aí dá saudades da corrida e voltam. Mas tem que encaixar a aula de pilates e desenho, se bem que disseram que tem um lugar ÓTEMO que ensina a tocar atabaque. Ou seja, Vatas mudam de idéia. Fácil.
Esquecem de se inscrever nas provas, de comer, de fazer o exame obrigatório para uma competição e nem se abalam. Porque enquanto os pés correm, a mente deles está ocupadíssima com mil idéias criativas e inspiradas. Eles conversam com todo mundo e nunca lembram o nome de ninguém. Mas conseguem fazer isso com uma sinceridade e leveza que ninguém se ofende.
O único problema é que esse tipo de corredor costuma ter problemas com provas longas, pois endurance não é o seu forte. Se dão melhor em provas mais curtas, onde podem voar baixo –desde que não exija meeeeses de treinos ou longões sem fim. São os que mais precisam de fortalecimento muscular, pois têm uma tendência chata a se machucar –especialmente nos ossos, são os reis das fraturas por stress e lesões crônicas em geral.
Sabe aquela pessoa que numa prova tomou gel e disse que se dá super bem com isso e na próxima disse que dá azia e é horrível? Corredor Vata. Até seu estômago é inconstante: um dia uma comida faz bem e no outro dia a mesma coisa cai mal.
Dica final: se marcar um treino matutino com uma pessoa Vata, sempre mande mensagem antes de sair para ter certeza que ela vai mesmo, não esqueceu do combinado e sabe onde é o ponto de encontro. Se ela for, diversão garantida!
Corredores Pitta
Minha constatação em consultório: 90% dos corredores tem o dosha Pitta como pelo menos um dos dominantes. Representado pelo elemento fogo, o corredor Pitta tem uma veia competitiva que é mais forte do que ele. Pode estar em treino regenerativo, se recuperando de uma lesão, mas não admite que o colega passe trotando por ele mesmo que seja aquecimento. Respira fundo e começa a dar aquela aceleradinha, sabe assim, só para não ficar pra trás? O gosto pela competição pode ser tão grande, que até na hora de descansar o Pitta compete –ele vai se certificar de que relaxou MAIS do que você.
Sabe aquela corredora que, quando o grupo se depara com aquele lamaçal no meio de treino e fica todo mundo olhando com cara de dúvida, toma a dianteira e mete o pé na lama? Pitta. A pessoa que no Cruce, depois de ter organizado a própria barraca, está ajudando os amigos com a deles, brigando com alguém da organização porque faltou alguma coisa, dando dicas para um novato preocupado enquanto faz um lanchinho, pode apostar que é um Pitta.
O ser que, naquelas provas em locais ermos (desculpa, pitorescos), come aquele salgadinho de cara duvidosa com refrigerante genérico quente e arremata com um sorvete caseiro esquisito e NUNCA PASSA MAL enquanto o resto faz pit stop no banheiro é Pitta.
A pessoa que quando começa a entrar água no barco organiza o povo e passa a mandar em todo mundo? Pitta. Amigo do peito que te acompanha naquele treino casca grossa mesmo sem fazer a prova? Provavelmente Pitta. Quando se lesiona sempre é alguma coisa que inflama. É aquele povo animado, ativo, competitivo no último, pavio curto, generoso, excelente para explicar, organizar, ensinar e correr forte.
Só não deixe o Pitta sem comer que ele fica num mau humor dos infernos –na dúvida, leva um lanchinho extra pro treino longo e divida com seu amigo Pitta, você não vai se arrepender.

Corredores Kapha
Eles são fortes, sólidos, calmos, confiáveis e beeeem raramente se machucam. O difícil é eles vencerem a preguiça de ir treinar. Aquela pessoa que acorda, tá frio, fica pensando se vale a pena ir, e se chover? Demora tanto a decidir que perde o treino, o relógio decide por ela. Depois sente culpa, mas já foi, perdeu playboy. Kaphas são a mistura dos elementos terra + água, ou seja, são seres pés no chão.
Você nunca vai ver um Kapha na linha de chegada pulando, berrando, gritando ou comemorando efusivamente. Ele pode até chorar de emoção, mas você provavelmente não vai notar, porque ele é discreto no último.
Agora, quando um Kapha vence a inércia e começa a treinar… sai da frente. Porque ele não para NUNCA. E aguenta uma quantidade impressionante de treino duro. Aliás, endurance é seu nome do meio –o corredor Kapha fica perfeitamente a vontade numa ultramaratona. Ele pode não ser o mais rápido da prova, mas com certeza termina, nem que esteja nevando ou fritando ovo no chão de calor. Desistir ou parar no meio não existe na mente dos corredores Kapha –eles só saem no meio de uma prova de maca, isto é, carregados.
Se você vai fazer uma prova longa ou uma ultra, certifique-se de ter um amigo Kapha por perto. Eles têm a melhor cabeça para lidar com as adversidades, não piram quando a mala não chega no Cruce, não se desesperam quando veem uma montanha íngreme no KM 38 de uma maratona, não arrumam encrenca com a organização no meio da corrida porque a marcação está mal colocada, não esquecem nenhum item da mochila e, se você se machucar, ainda são capazes de literalmente te carregar até a chegada.
Só não peça para um Kapha tomar decisões rápidas. Ao se perder na trilha não grite para o corredor Kapha “e agora? direita ou esquerda? RÁPIDO!”, pois vai perder seu tempo. Ele precisa ponderar os prós e contras de cada opção, analisar, consultar bússola, altimetria da prova, fazer um gráfico, uma planilha excel comparativa e só aí estará mais ou menos pronto a te dar um parecer.
Nas raras vezes que se machucam, os Kaphas sempre têm lesões que incham. Também são os que mais se beneficiam dos meiões e roupas de compressão, pois tendem a reter líquidos e terminar provas de montanha com pernas e mãos inchadas. Não que eles se desesperem com isso – um Kapha está sempre prevenido e já levou meia de compressão para o pós prova, já tomou banho, bebeu água, isotônico, comeu e está se alongando enquanto você está passando frio com a roupa de prova enlameada jogando conversa fora com a galera.
E aí, algum dos perfis parece alguém que você conhece? 🙂
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂