Este post é especial para a Silvia, querida e paciente leitora que tem um problema chiquérrimo: vai viajar para o velho continente e quer se equipar para correr o Cruce de los Andes, corrida de montanha do meu coração. Para quem não sabe, o Cruce é uma prova cascuda e linda de montanha que dura 3 dias e tem como premissa (e como o nome diz) atravessar os Andes. Cada ano tem um percurso diferente (não repete nunquinha) e sempre ou da Argentina para o Chile ou vice versa.
Eu já fiz 2 Cruces (e compartilhei ambos aqui no blog) e, se a Megasena fosse justa e viesse logo para mim, faria todo ano fácil. Como esta prova inclui não só correr pela montanha mas também 2 noites na barraca, outfits de corrida, acessórios e mimos mil são bem vindos.
Quero dizer, dá para você fazer a prova da forma mais espartana possível, levando apenas 1 par de tênis, um saco de dormir xexelento, 3 mudas de roupas (ou 2 se você for meio porcones), roupa de acampamento e os itens obrigatórios da prova (mochila de hidratação, kit primeiros socorros etc etc). Mas para que sofrer (além do inevitável), não é pessoas?
Porque se tem algo que eu aprendi no Cruce é que tem pequenos confortos que fazem a maior diferença em como você vai passar os 3 dias. E se você vai viajar para fora de fronteiras tupiniquins, aproveitem leitores queridos –garanto que mesmo com o dólar indo para Saturno de tão alto ainda sai mais barato do que se equipar por aqui, com raras e honrosas exceções, como é o caso de algumas roupas. O melhor, para este tema, é ir para a terra do Tio Sam (em termos de preços), mas Europa também pode ter boas ofertas –mas fique de calculadora em punho para ter certeza de que vale a pena de ganso europeu que você está pagando.
Algumas sugestões do que comprar lá e aqui, lembrando que infelizmente não sou uma blogueira glamour que recebe as últimas novidades para testar, ou seja, dá uma checada melhor por lá quais os últimos modelos do equipamento sugerido pela minha singela pessoa:
EUA e Europa
- Trekking poles (os bastões para caminhada) – recomendo MUITO os bastões dobráveis, porque pessoalmente acho UM PORRE carregar aqueles benditos bastonetes balançando e se batendo nas suas costas. Os dobráveis ficam em um comprimento super OK para prender –a desvantagem é que tendem a não permitir ajustes de altura, ou seja, escolha um que seja exatamente do tamanho ideal para você (tem vários tamanhos). Minha marca recomendada é Black Diamond, mas não se apegue a isso –só cuidado com versões muito genéricas que podem ser frágeis demais e entortar quando você joga o peso neles ou ter cordinhas que se rompem. O tamanho correto é aquele que você segura fazendo um ângulo de 90 graus com seu cotovelo.
- Saco de dormir – aqui você tem que procurar 2 coisas essenciais pensando em Cruce: que seja o mais compacto possível quando dobrado (leia-se menor, para caber na sua mala ou caixa) e que seja -10°C. Você nunca sabe quanto frio vai fazer de madruga na montanha, então nada de economizar neste item, uma noite bem dormida é tudo nessa vida, especialmente numa prova.
- Anorak (jaqueta impermeável) – em terras brazucas temos, mas costuma ser caro para dedéu. O que importa aqui é o seguinte: que seja realmente impermeável (tem algumas que se dizem impermeáveis mas nas descrições técnicas você descobre que segura no máximo uma garoa), que tenha costuras seladas, que seja respirável e tenha possibilidades de abertura para entrar um ar, normalmente nas laterais (para você não assar feito batata dentro dela), que tenha um gorro ajustável, daqueles que fica só o rosto de fora e que fique bem pequeno dobrado, para caber na sua mochila pequena de hidratação. Algumas marcas legais são The North Face e Marmot.
- Corta vento – eu vou admitir, já duvidei da utilidade desta peça. Sempre me pareceu que se está frio o manguito segura e se chover tem o anorak. Até o dia em que eu peguei vento na montanha, aí entendi pra que serve este negócio. Então acreditem em mim, não é perda de dinheiro. Escolha de uma marca que tenha tradição de montanha (tem muitos que se dizem corta ventos mas na verdade são para uma brisa para um treino no asfalto) e certifique-se de que fica realmente pequeno quando dobrado.
- Tênis de trilha – no Brasil tem mas custa algo como 3X mais. Eu sou absolutamente viciada no Speed Cross da Salomon (meu querido chuteirinha), mas tenho ficado bem afins de experimentar o Single Track da North Face. Mas essa tem que ir na loja e provar, tem que ficar tipo ÓTEMO já de cara no seu pé, sem essa de “depois amacia”. Ou fica delícia de cara ou não leve. Ah, lembre-se que em 3 dias de prova seu pé incha, nada de comprar numeração certinha. Minha recomendação é que, se for fazer o cruce, leve 2 pares (diferentes por favor, nada de levar 2 tênis do mesmo modelo, deixa seu pé descansar da forma do tênis). Ah sim, fuja do tênis impermeável, ele é excelente para neve, mas cozinha seu pé em qualquer outro tipo de clima.
- Saco Bivac descartável – este é específico para o Cruce, já que Bivac faz parte da lista obrigatória. Ah sim, você não deveria saber o que é, não se acanhe –bivac é um é um misto de saco-cama-tenda-roots. Na prática é um saco que, em caso de emergência no meio da prova, tipo machuquei o pé e tenho que esperar resgate na neve, você entra dentro dele e fica quentinho (ou pelo menos não morre de frio). Não é confortável mas pode salvar sua vida. O ponto é que os bivacs normais são GRANDEs –se você pensar em levar na mochila minúscula. O descartável é mínimo e resolve seu problema da prova.
- Mochila de hidratação –essas tem boas opções no Brasil, mas normalmente o preço acaba sendo melhor fora. Essencial ser pequena mas ter espaço para você espremer um anorak, um fleece e os obrigatórios da prova, precisa assentar perfeitamente no seu corpo, ter bolsos, barrigueira e não machucar seus ombros. A minha tem 1,5l de água + um espaço de uns 6l.
- Mimos de acampamento – aqui nada é obrigatório mas pode tornar seu Cruce muito mais confortável. Pense em iluminação portátil para interior da barraca (mas tem que ser MINI), colchão inflável, travesseiro super compacto, comidinhas que você ama e não precisam de refrigeração, protetor solar micro para levar na mochila, curativos anti-bolhas e outras maravilhas modernas.

No Brasil tem (mas vai que):
- Calças, bermudas e shorts com bolso – pensou em Cruce pensa em tecido que seca rápido e pensa em BOLSOS. Porque na prova, bolso é sempre um amigo –vai uma comida, uma luva, um gel, tudo para você não precisar mexer na mochila. Eu gosto muito dos bolsos e modelagem da Kailash, vão comigo para qualquer prova de montanha até que se autodestruam ou uma pessoa sem noção decida que precisa passar, claro, e deixe aquela marca bonita de ferro de passar semi queimado.
- Manguito – meu equipamento revelação predileto, não vou pra montanha sem ele. Tá frio, você sobe, esquentou você deixa enrolado no punho ou tira e coloca no bolso ou mochila. No Brasil adoro as estampas da Lauf. Em inglês é arm warmer e se for comprar na gringa favor escolher modelo estiloso!
- Roupas para o acampamento – isso você acha com tranquilidade por aqui e mais ainda por lá. Pense em calças quentes e confortáveis (BEM confortáveis), vale levar uma de fleece e uma impermeável caso chova. Pense em sapatos muito muito muito confortáveis para seus pezinhos detonados, fleeces mais grossos que você não vai levar na mochila, gorros, luvas e 1ª pele. Pense em toalha que seca rápido, meia grossa fofa, gorro legal, biquini caso faça sol e você entre no lago. Procure nas lojas especializadas em montanha, camping e esportes.
Na verdade você obviamente pode se equipar 100% no Brasil. Atualmente, o ponto nem é qualidade, que tem marcas boas e tem as gringas que são vendidas aqui e tem a internê que salva. O problema é muito mais de preço –muitos dos equipamentos de qualidade são quase proibitivos aqui financeiramente falando, e tem coisas que não dá para pegar algo, digamos assim, genérico. Na montanha, ter impermeável vagabundo, saco de dormir meia boca, calça que cai, tênis duro e mochila que raspa acaba com sua prova. MESMO.
Alguém tem mais dicas pra Silvia? Posta aqui nos comentários!
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂