A romaria – Volta dos Romeiros 2013

Redação Webrun | · 16 abr, 2013

Pessoas, nada como uma prova de montanha para dar uma chacoalhada geral no esqueleto. E eu escolhi chacoalhar (o que, considerando a quantidade de pedras foi bem literal) em Pirapora do Bom Jesus, na Volta dos Romeiros 2013, a 1ª prova de montanha do ano do Ecomotion.

Quem pedala já deve conhecer a estrada dos romeiros. Quem é adepto de romarias (tem romeiros entre os leitores do blog?) também perigas conhecer este simpático lugarejo conhecido como foco de romarias graças a uma imagem do Bom Jesus de madeira encontrada numa corredeira –e que acabou virando santo padroeiro da cidade cujo nome original, Pira-pora significa pulo do peixe. Muito adequada a parte do pulo, aliás. Vocês vão ver que este histórico religioso tem a ver com a prova, só ter um pouquito mais de paciência que eu já conto.

Essa provinha tem tudo para entrar forever para meu calendário: é do lado de São Paulo, ou seja, exige logística zero. Só acordar e ir, não precisa ver hospedagem, viagem e todo aquele monte de detalhes. A distância é tipo ÓTEMA, 21k. Mas tem 10K tbm para quem quer correr menos ou, ao contrário, correr mais rápido. E tem VISUAL, além de montanha, piramba, água e a inevitável lama.

Eu tenho que confessar que eu não treinei tanto assim para essa prova. Por váááários motivos não consegui fazer as dobradinhas de longões (6ªf + sábado), mas fiz vários treinos pirambentos e, como diz a Cris, treino perdido não existe, existe treino feito. Mas ia TANTA gente amiga que não dava para cogitar não ir.

E assim, sabadão de manhã, éramos 3 amigas num carro, devidamente paramentadas de meião, tênis de trilha, manguitos (os salvadores), viseiras, mochilas e muita revolta com o tempo. Porque não estava garoando, estava CHOVENDO. Tipo forte. Tipo chovendo desde a 6ªf final da tarde, sem intervalos comerciais.

Essa prova era especial para cada uma por um motivo. Para uma, amiga querida das antigas com muita história divertida de corrida para compartilhar, estava voltando a correr uma prova de montanha pela 1ª vez depois de muuuuito tempo. A outra, nova amiga querida, faria sua estréia nas pirambas. E eu, Corredora Zen, esperava um lindo dia outonal para, digamos assim, dar início aos trabalhos de 2013. Nenhuma dessas singelas histórias combinava com largar na chuva.

Porque chover DURANTE uma prova, super OK. Mas LARGAR na chuva, ninguém merece. Portanto, durante o caminho todo, fomos esperando a chuva diminuir. Nada. Ao mesmo tempo, desistir não era uma opção. A gente sempre fala que QUASE desistiu de ir, mas a verdade é que a gente nunca desiste. E quando chegamos em Pirapora, descobrimos um monte de almas gêmeas reclamando da chuva mas todas lá, de mochilinha de hidratação e caramanholas, tênis chuteira com super grip colorindo a cidade e prontas pra largar.

Já os piraporenses estavam incoformados. Simpáticos e solícitos com os visitantes alienígenas, onde homens usavam shorts e calças de lycra, mulheres meiões estilo jogador de futebol e nenhum deles parecia notar que estava chovendo, tentavam ajudar de alguma forma.

“Olha, subir o morro nessa chuva acho que não vai dar não. Mas porque vocês não correm aqui mesmo em volta da igreja??”, sugeriu para o Antônio a super bem intencionada moça da lanchonete. Detalhe: a volta ao redor da igreja devia ter uns 300m, se tanto. Várias pessoas de chapelão faroeste, espremidas embaixo dos toldos das lojas e bares, espiavam o povo que não só ia correr de livre e espontânea vontade no barro como tinha PAGO para fazer isso. Estava claramente dando um nó na cabeça dos empreendedores locais.

Enquanto isso, rolava um inconveniente estourar de rojões do lado da largada. Mas eu, como quase toda pessoa que tem bichos em casa, não gosto de fogos nem explosões. Quando soltaram durante a largada, ficou bem legal, entrou no clima. Na chegada, eu nem ia notar. Mas antes, foi totalmente desnecessário, ficava todo mundo pulando a cada exlosão, aquele cheiro de queimado e várias pessoas do meu lado tramando em como tirar os fósforos da mão do moço explodidor.

Mas aí finalmente estava na hora de juntar aquele bolo no pórtico de largada. Aquela coisa, adrenalina bombando, todo mundo rindo, pulando, se esticando, preparando cronômetros e GPSs. De repente, o prefeito pega o microfone. Bacana, parecia animado em sediar o evento, deu boas vindas, agradeceu, desejou boa sorte, super simpático. E passou o microfone para o padre.

Se o prefeito estava animado, o padre estava empolgadíssimo. Falou, leu terchos bíblicos e o povo ali, na posição de largada. Foi a primeira largada abençoada da qual eu já participei –e não, não estou tirando sarro
nem minimizando a fé da pessoa, o padre fez os corredores se darem as mãos, rezou o pai nosso e abençoou a galera. Procurem nas fotos da prova que vocês vão ver do que estou falando. No mínimo, algo inusitado no circuito de provas de montanha.

Seja como for, deu certo, porque parou de chover. E ali fomos nós, rumo as pirambas. Demorou quase 40min para chover de novo, ou seja, povo que voou baixo nos 10K quase que não se molhou. Nós dos 21K não teve jeito, apesar não ter voltado a chover forte em nenhum momento, só umas chuvinhas finas de vez em quando (valeu S. Pedro).

Para quem correu 21K, o maior desafio era o mega morro entre o KM 7 e o KM 11, que não decepcionou. O visual durante a subida e lá na crista montanhosa era realmente lindo. De um lado, a cidadezinha que parecia maquete. Do outro, a água da barragem, com direito a aqueles trechos que eu mais adoro, quando você corre no ponto mais alto, com abismos de cada um dos lados (eu sei, tem gosto pra tudo; mas o espaço para você correr é largo, não tem risco de pisar errado e cair).

A descida foi a mais técnica para mim, muita pedra solta e bem íngreme. Mas eu amo uma descida, então sempre vou ladeira abaixo feliz da vida. O que mais gostei foi que dá para correr bem nessa prova, ao contrário das que são muito técnicas (ao menos para minhas discretas habilidades) e eu levo mais tempo fazendo as partes técnicas do que efetivamente correndo. Nessa de Romeiros não, dá para socar o chuteirinha (apelido
carinhoso do meu Salomon Speed Cross) em vários trechos e tentar compensar a demora na subida.

Como toda prova, essa também teve seus personagens. Até os 8K o destaque foi o apoio canino: um cãozinho malhado acompanhou os corredores o tempo todo, indo e voltando correndo a milhão piramba acima e abaixo como se não fosse nada (tração nas 4 é isso).

Tinha também o Moço da Papete. Lembrei da Déia, óbvio. A pessoa que queria correr o último dia do Cruce de papete porque a unha do dedo estava podre. Pois Déia, fez bem de correr de tênis mesmo, porque a papete não parecia estar ajudando o moço no lamaçal morro acima. No começo eu achei que até que podia ser uma boa idéia, uma coisa assim meio tarahumara, ainda mais se ele está acostumado podia ser uma arma secreta. E nos 50K da NorthFace tinha gente correndo forte de Five Fingers, então não era tão estranho. Mas a sola que parecia ser daquelas tradicionais de couro não me pareceu das mais eficientes na lama –talvez tenha alguma vantagem nas pedras, mas duvido um pouco. O que eu sei, é que eu passei o Moço da Papete lá pelo KM 7,5 e nunca mais o vi.

Tinha também a Pessoa que Gritava. Acho que era mulher mas não posso jurar, porque não consegui ver quem era, estava atrás de mim. Mas ô ser que gostava de gritar! Se tivesse usado esse fôlego todo para correr, tinha me passado CERTEZA.

Teve o Moço que Não Gosta de Ser Ultrapassado por Mulheres. Sabe aquele que está mais devagar que você mas tenta te bloquear de todas as formas e bufa enraivecido quando você passa? Bufada essa que não acontece quando um homem o passa. Só pela falta de autoconfiança e espírito esportivo foi passado por duas simultaneamente e no meio da lama, tipo karma instantâneo, né Lígia?

No geral tenho que super elogiar 2 coisas: a sinalização e o apoio. Você realmente teria que se esforçar para se perder nessa prova, as fitas estavam bem colocadas e fáceis de ver, até no meio do mato com chuva. E o povo dos PCs com água e que encontramos era muito simpático e sorridente, sempre perguntando se o povo estava OK e se a prova estava OK e mandando força pra continuar. Isso faz uma diferença principalmente no astral da prova em geral. Já corri provas com staff de saco cheio, cara fechada, má vontade, principalmente quando chove. Dá uma azedada, porque você está ali, cheio de endorfinas felizes, pulmão e coração aberto, fazendo força pra dedéu. Nessas horas, um sorriso, um grito de vai com tuuuudo, fazem um bem danado!

Lá pelo KM 18, vejo uma figura correndo tranquilamente – figura amiga. Acelerei e consegui chegar junto feliz e sorridente. Sabe aquele momento desagradável em que você achou que estava correndo sozinho num ritmo bom e chega aquela mala que vai fazer você acelerar? Pois eu fui a mala. Sem alça mas de manguito. Como bons amigos de corrida, sem precisar sequer comentar o assunto, fomos acelerando. Você não fala nada mas não quer ficar pra trás de jeito nenhum, sabe como é? Resultado: demos um tiro de 3K até a chegada, com ele chegando 1 segundo (isso mesmo, 1 segundo) a frente. Tem volta, viu Aloysio? Mas adorei essa pimentinha final na prova, muuuuito melhor terminar no gás total, ao lado de amigos e ir comemorar com o povo, claro que comentando cada detalhe da prova.

Balanço final: Corredora Zen feliz mesmo pensando que poderia ter corrido 2 segundos a mais, amiga das antigas voltando as trilhas arrasando no podium e amiga das novas enlameada, acabada mas mega feliz. Aliás, amigos espalhados pelos pódios: parabéns Cris, Cilene, Bia, Rafa e Vivi!

E está oficialmente aberta minha temporada de montanha.

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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