Pessoas, definitivamente ficar um tempo em um pais totalmente diferente do seu faz voce olhar tudo de forma diferente. Nao muda obrigatoriamente sua forma de pensar, mas com certeza amplia sua perspectiva. Como vcs sabem, estou na India, com internet a lenha e teclado sem acento ou cedilha, ja’ me preparando para a volta, depois de uma imersao sensacional em cores, sabores, conhecimentos e muito treino.
Alias, muito se engana quem acha que todo indiano e’ phd em yoga. A maioria nao pratica, apesar de existirem coisas como torneios de yoga –execrados por professores por desvirtuar a pratica que perde o sentido ao se tornar competitiva, mas populares entre a ala indiana mais jovem. O povo aqui gosta mesmo e’ de.. cricket. Como atesta o canal que passa 24h do esporte. Tirando isso, nao existe uma grande cultura esportiva, o foco mais forte e’ espiritual. Tem pelo menos 2 canais de TV, que eu apelidei de Guru Channel, que passam diversos gurus em cenarios de gosto extremamente duvidoso, falando, demonstrando tecnicas respiratorias ou entoando mantras para montagens de multidoes, a qualquer hora do dia ou da noite.
Mas notei uma coisa interessante. Percebam que isso nao significa boa –fica a dica para quando alguem te disser que a sua festa foi “interessante”. O fato curioso foi que uma parcela significativa do povo do yoga nao tem, digamos assim, um grande apreco por esportes. Isso foi minha forma de moca fina de familia de dizer que muitos (atencao, muitos mas nao TODOS) praticantes tem um desprezo aberto por qualquer forma de atividade fisica nao yogica. Sob o risco de tomar uma serie de pedradas, digo que isso muito me espanta. E me enche os pacovas tbm. Eu entendo que ao praticar yoga “nao precisa” praticar mais nada. Mas quem disse que eu corro porque preciso? Corro porque quero. Porque me faz feliz. O outro lado parece melhor, mas ate’ a pag 3, porque vejo os praticantes de esportes acharem o oposto, ou seja, que yoga e’ muito legal. Ah sim, mas desde que nao se dedique demais, porque senao vira muito zen e fica alongado demais e competitivo de menos.
Eu, que assino como Corredora Zen, fico no melhor ou no melhor dos mundos –dependendo de como vc encara as coisas. Na corrida, eu sou a pessoa yoga, portanto zen. No yoga, eu sou a pessoa corrida, portanto corredora. Se eu nao avanco num asana (postura) e’ por causa da corrida. Se eu nao corro mais rapido, e’ por causa de muito yoga. Queria deixar registrado aqui, que isso e’ MUITO CHATO. Tao chato quanto ciclista reclamando de corredor e vice versa, maratonista olhando com leve ar de superioridade para corredor de curta distancia, fas de um esporte desprezando outros. Preconceito e’ uma pa’ de cal em uma serie de coisas bacanas: investimento, descoberta de novos talentos, inovacao e conquistas. E olha que de preconceito estou por aqui (imagina eu colocando a mao na altura da testa). Estou num lugar onde homem e mulher de mao dada nao bom, mas homem com homem e mulher com mulher e’ um bonito gesto de amizade inocente.
Mudando um pouco o disco, uma coisa divertida foi que eu peguei o final das Olimpiadas aqui. A India saiu se nao me engano com 6 medalhas olimpicas, resultado bastante festejado no pais. Durante as transmissoes, o comercial de tv que mais passava era um que mostrava indianos de varios credos e estilos torcendo pelos atletas. Passava tanto mas TANTO que no final eu ja’ estava cantando a musiquinha junto. Vou ate’ postar aqui para vcs verem.
A propaganda em si nao tem nada demais, no Brasil tivemos varios nesse estilo povo-unido-torcendo-vai-brasil. Mas vi uma diferenca grande na forma de receber os atletas na volta. Aqui os medalhistas foram chamados de Herois Olimpicos, deram zilhares de entrevistas e ganharam presentes e premiacoes –algumas meio duvidosas como os mega anunciados 20 acres de terra, sem mencionar aonde seria o latifundio, ou seja, boa possibilidade de ser uma roubada master. Sim, os atletas que nao ganharam nada nao foram tao ovacionados nem ganharam premios, mas foram parabenizados e, principalmente, nao foram detonados como em terras tupiniquins.
E olha que a India tambem nao tem uma tradicao de investir no esporte, o atleta tbm nao tem suporte, patrocinio, treinamento de primeira. Mas toda pequena ou grande vitoria e’ muito comemorada. O que me faz pensar em expectativas. Porque, na verdade, tudo e’ uma questao de expectativas. E, como qualquer empreendedor aprende logo de cara, saber gerencia-las e’um dos pontos cruciais do sucesso. E isso vale tanto para patrocinadores quanto para os atletas e o publico. Sim, porque o publico e’ como qualquer cliente de qualquer negocio: vc tem que, de alguma forma simpatica, direcionar suas expectativas. Nao dar bola nenhuma pro esporte x e depois esperar que saiam medalhistas olimpicos da cartola do magico, e’ decepcao na certa.
Nao investir no esporte y, nao ter programas solidos de treinamento, nao buscar novos talentos e de repente querer uma receita de bolo que transforme gente promissora em ultra campeoes em poucos anos, outro desapontamento certeiro. Ser atleta, fazer jornada dupla, pagar viagem do proprio bolso, ter ZERO preparo psicologico para encarar uma Olimpiada, ver que o publico nao esta nem ai’ e esperar reconhecimento pelo esforco quando a medalha nao vem, tambem nao e’ realista. Pode nao estar certo, ser um absurdo, mas nao e’ realista. As 3 pontas da equacao comecarem a ajustar e sincronizar suas expectativas seria um bom comeco, que talvez ate’ permitisse uma mudanca real. Ou nao.
A cada prova que corremos, tem que gerenciar expectativas. As nossas e as das outras pessoas. Se vc sempre pega podio, fica aquela pressao para continuar pegando para sempre. Se vc se machucou na ultima, tem aquela pressao de familia e/ou amigos para se poupar ou evitar essa.
Isso fora as nossas expectativas pessoais, essas que a gente nao divide com ninguem mas que muitas vezes nao nos deixam dormir em vespera de prova. Vou terminar em x tempo. Nao vou parar. Nao vou andar. Vou ganhar essa prova. Nao vou decepcionar minha equipe/dupla. Vou correr mais que fulaninho. Ter metas e’ essencial no esporte. Sempre acreditar, ACREDITAR MESMO, e’ imprescindivel, mesmo que as chances sejam parcas. Mas saber que pode dar certo ou errado faz parte, deve fazer parte das suas expectativas. O que nao pode e’ delirar, nao e’ pessoas? Alias, sobre o tema delirio, me lembrei da Sao Silvestre –que vou discutir com vcs e o amigo leitor Samuel num post posterior.
Agora da’ licenca que eu tenho algumas tarefas diferentes para cumprir: acordar de madruga para o treino das 4h30 da matina de domingo, aprender a fazer uma comidinha que vai ser e-xe-len-te para os pos treinos longoes (aguardem o roti +chutney que vc faz em 15 min sem precisar cozinhar), me acostumar com o trafego no sentido “errado” e me divertir com as vacas invadindo jardins, estacionamentos e garagens de predios ou roubando o saquinho de lixo pendurado no portao.
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂