Quem tem lesão põe o dedo aqui! – parte I

Redação Webrun | · 10 maio, 2012

Não, eu não estou lesionada. Dei uma BREVE (juro que breve, viu Samuel-amigo-da-amiga-Adriana) sumida porque estou num momento de mudanças –para melhor, CLARO, na verdade para mais perto de vocês, da corrida, do yoga e da alimentação. Mas esse momento changes implicou em eu ficar meio computerless por um tempo, anotando pensamentos para o blog em arcaicos caderninhos de (susto) papel. Então vamos a um tema sempre presente: se você for num treino de corrida aleatório, digamos no Ibirapuera e gritar, igual naquela brincadeira de quando eu era criança (no original era “quem quer brincar de …. põe o dedo aqui”) só que mudando para “quem tem alguma lesão põe o dedo aqui”, não vai ter espaço para tanto dedo. Não bom, certo?

O porque disso não é tão simples quanto muitos artigos a respeito parecem acreditar. Mas um dos top 3 motivos é o fator Entusiasmo Excessivo, que é aquele que a pessoa que começa a correr tem. Começa, acha legal, os tempos vão melhorando, o ponteiro da balança dá uma queda, as distâncias vão ficando mais fáceis e pronto, você sente que, como naquele livro, nasceu para correr e não há distância que você não consiga cobrir com um pouco de treino. O que, em parte, é verdade –eu acredito piamente que nascemos para correr e que com treino adequado a gente realmente consegue fazer qualquer prova. MAS, todavia, contudo, entretanto, não dá para subestimar um negócio chamado base.

Base significa basicamente quilômetros acumulados. Experiência. Ter passado por vários tipos de treinos, ter treinado em vários tipos de terrenos, ter enfrentados vários perrengues em provas. Ter colocado o corpo a prova e aprendido como cada um de nós funciona frente a coisas como meses de treino intenso, períodos de descanso, foco em velocidade, foco em endurance, provas em trilhas e montanhas, provas com várias modalidades etc. E construir essa base, óbvio, exige tempo.

O que acontece é que não é muita gente que tem paciência de dar este tempo. E cansaço é um bicho ardiloso e cumulativo. Você aguenta fazer uma maratona e fica ÓTEMO depois. Na sequencia faz uma meia, descansa 2 semanas e já começa a treinar para uma ultra. Faz, sobrevive e tem certeza de que tá pronto para qualquer coisa.

E é aí que aparece a diferença entre quem tem base e quem não tem. Quem tem uma base sólida, que vem de anos e anos, provavelmente está mesmo pronto para a próxima. Já sabe o quanto tem que descansar, quanto tempo antes precisa começar a treinar, como se recuperar e se realmente está OK. Quando se forma uma base boa, o corpo ASSIMILA os treinos. Ou seja, você morre mas ressuscita rápido e não fica com sequelas pos mortem.

Quem não tem base ainda, normalmente é pego de surpresa por uma lesão. Tudo ia muito bem, os tempos de prova ótimos, a corrida rendendo, a pessoa entusiasmada estilo cheerleader da corrida, o volume aumentando sem dor aparente e de repente… tchã! aquele momento windows, com o barulhinho que faz quando ferrou tudo e você perdeu todo seu trabalho. Lesão!

E nunca essa lesão vem durante uma prova. Normalmente vem 1 ou 2 meses depois (ou mais) e de formas bizarras ou levemente ridículas. Você pisa errado no degrau da banca de jornal. Tropeça andando com o cachorro no parque. Acorda num domingo sem treino e o quadril dói. Tira férias e de repente, nas Bahamas, não consegue por o pé no chão.

Parece azar. Mas não é. Claro que acidentes acontecem e nem sempre tem uma explicação ligada a seus treinos. Emalguns casos a pessoa foi amaldiçoada pelos deuses mesmo. Mas na maior parte das vezes, é o tal cansaço acumulado. Tipo, você talvez não tropeçasse se não estivesse andando mais arrastado e mais pesado devido ao cansaço. Você talvez tropicasse no degrau do mesmo jeito, mas se o corpo não estivesse com exaustão acumulada seria uma dorzinha de torção leve no pé ao invés de uma fratura. Porque a verdade é que um corpo que está cansado é um corpo com reflexos piores, mais distraído, com ossos, ligamentos e tendões mais frágeis do que normalmente seriam.

Então, se você não sente dor alguma mas repentinamente começou a tropeçar muito, anda caindo no parque em trotinhos bestas, as coisas estão escorregando magicamente das suas mãos, a preguiça de treinar tem batido mais forte do que nunca, pára para pensar. Porque não é uma maré de azar e você não precisa se benzer –precisa é descansar. Quero dizer, pode se benzer também se quiser né? Mas o que vai realmente te ajudar é diminuir um pouco o pace.

Não precisa parar. Aliás, não é para parar, não acredito em parar (mas isso é tema para outro post). Mas pense em aumentar o tempo entre uma prova e outra, em treinar outras coisas também para mudar um pouco a musculatura mais exigida, em descansar DE VERDADE no seu dia off. Continue a ir aos treinos normalmente mas volte seu foco mais para a bike, o yoga, a piscina. Certeza que vai te deixar melhor para a corrida e talvez ajude a prevenir uma lesão que estava se formando silenciosa –nem toda lesão vem com milhões de avisos óbvios antes. Ou melhor, os avisos sempre existem, mas podem ser desse jeito aí –mascarados de uma preguiça que não é bem preguiça, de um estado meio aéreo, mundo da lua, de esquecimentos com coisas triviais que se acumulam e que você antes não tinha, de fomes ou faltas de fomes estranhas e novas.

Que o corpo fala é um clichê antigo, meu ponto é: ouça ANTES de ele ter que chegar a uma lesão para você entender. 

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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