Cruce de los Andes – Dia 3 – Alguém tem uma papete?

Redação Webrun | · 28 fev, 2012

O 3º dia já começou bem: sobrevivemos ao crime da mala, ao frio pós-lago, ao cansaço e a 2 dias anteriores somando 90K. Então se você tinha chegado até ali, já estava no lucro. Como as malas chegaram em algum momento em que eu estava dormindo (ouvi falar 4h ou 5h da matina), quando saí do modo sardinha da barraca, minha querida malinha vermelha a-prova-de-tudo estava lá. Com roupas do meu tamanho, comidinhas para a prova e tenis seco. Felicidade é uma coisa tão simples né?

Pois eu estava lá me trocando para o último dia quando ouço uma voz perguntando: “alguém tem uma papete??” Abri um sorriso gigante ali sozinha. Porque era a voz da Déia, aquela que ia parar e voltar para San Martin por causa das unhas detonadas. “Ela vai”, constatei. Porque se ela estava pedindo uma papete, é porque já não estava mais questionando se ia ou não correr e sim COMO operacionalizar a coisa. Simples assim.

Claro que ninguém tinha uma papete. Ela acabou dando uma geral rápida com o médico ali mesmo no ambulatório –na verdade ela só precisava de uma opinião profissional que garantisse que o dedo NÃO ia cair, porque dor… bom, a dor já virou sua amiga e amiga você não evita, você abraça.

O dia estava lindo, super sol, super céu azul. Nos despedimos pela última vez de nossas malas viajantes, tomamos café e fomos todos alegres e felizes para a largada. Porque dia 3 é sempre uma alegria. Mesmo com todo mundo acabado, milhões de faixas kinesio colorindo joelhos, tornozelos e pernas da galera, é o final –e um final com METADE da distância que já estava virando praxe.

Nesse último dia, inovaram a largada. Primeiro saíram as duplas masculinas, depois mixtas e por último as femininas. Nosso grupo, todo mundo sorridente, destruído e tirando muitas fotitos.

De repente passo pela Cris e sua dupla Rosália. Último dia, que seria o dia da definição – nossa dupla brasileira estava numa disputa acirrada com as argentinas, e o 3º seria o dia-do-vamos-ver. Na hora da preparação da largada feminina, as rivais estavam lá, no gargarejo, se preparando para sair o mais na frente impossível. E cadê Cris? Pois a nossa dupla estava sentadinha na areia lá do outro lado, olhando calmamente a aglomeração no gate. Desconforto das argentinas, que olhavam toda hora para as brasileiras, tipo e aí, vocês não vão vir aqui? E elas lá, na maior tranquilidade.

Deu a largada. As argentinas partiram, sem saber exatamente o que estava acontecendo. E nossa dupla estrategista largou tranquilamente por último, atrás de todos –afinal a estrada seria bem larga, sem problemas para ultrapassagens e o tempo se conta pelo chip né?

O resultado foi uma das coisas que mais gosto em provas –ver o povo que disputa pódio correr (pena que não deu para ver outras duplas amigas voadoras que largaram na minha frente). Porque saindo lá de trás elas foram fritando o chão, passando todas, até que passaram a dupla rival. Como eu queria ter visto a cara delas quando nossas brasileiras passaram por elas vindas láááá de trás. E a Cris, como sempre, sem faltar um incentivo para alunos e amigos no caminho, mesmo naquele momento atleta-disputando-o-1º-lugar. Pessoas, eu não sei se isso é o normal, porque não tenho experiência com outros treinadores. Se não for, deveria. Mas eu me emociono todas as vezes.

Eu, neste dia, estava com MUITA vontade de correr. A perspectiva de correr “só” 21K era o máximo. O dia estava lindo. Então comecei a correr. Fui encontrando pessoas amigas –muitas das quais desconhecidas mas mesmo assim amigas. Quem faz o Cruce junto pode não saber o nome direito, mas já é quase amigo de infância.

Passei muita gente animada, rindo, feliz. Fui passada por outro tanto de gente idem. Vi as Blondies passarem lindas, loiras e irradiando alto astral. Vi a Su feliz, correndo bonito de dar gosto. Vi Betinho e Pedrinho sempre no maior bom humor, com o perrengue que fosse.

Aí vi a Déia & Ari e fui junto com elas. A dupla generosamente se abriu para um trio, com direito a risadas, conversas na fila da aduana (sim tinha que fazer a aduana para voltar a Argentina), comidinhas compartilhadas. Corremos juntas quase que a prova inteira, comigo abrindo uns segundos nas descidas por um motivo muito simples: eu ainda estava aguentando correr soltando na descida. Se doía? Muito. Mas eu conheço meu corpo. E lembra a história de virar amiga da dor? Pois é. Ela deixa de ser um bicho-papão paralisante e vira um desconforto apenas.

Os 21K, apesar das subidas, da dureza das descidas, passaram voando (os 21K, não eu). E tudo o que eu queria era terminar. Aí passou um riozinho na altura do quadril (a última surpresita da prova) e pronto! Acabou! Era até difícil de acreditar. Mas acabou MESMO?? Mas era só ver a Re pulando na margem e gritando parabéns para saber que sim, tinha terminado MESMO. Essa sensação de fim-de-Cruce é O MÁXIMO.

Abracei a dupla que nesse momento era trio e comemoramos as 3, gritando, pulando (tá, essa parte do pulando é mais figurativa), se abraçando, rindo –e, claro, tirando fotos. E esperando outras duplas amigas para recomeçar o processo.

Agora eu preciso desmascarar uma coisa nesse Cruce: o gate fake. Porque era assim: você atravessava o rio e pronto, chegava, uma tchica pegava seu nome e nº, acabou. Aí você ficava na fila, que era de mais ou menos 1h30, para um barquinho te levar para a outra margem. Aí você caminhava tranquilamente até que chegava num descampado e via uma coisa bizarra: o gate de chegada. Porque vamos combinar: você chegou há 1h30 atrás. Já tirou a mochila, esfriou, já conversou, comemorou, sentiu frio, calor, já está sonhando com a banheira do hotel e um jantar maravilhoso.

Aí alguém grita para você correr para passar pela chegada. Oi? Como assim por exemplo? Eu já cheguei faz tempo moço. Então vou ter que melar o esquema e contar que todas aquelas fotos do povo atravessando correndo a chegada final na verdade foi uma coisa meio posada. Porque os fotógrafos esperavam você chegar a uns 15 passos do portão, começar a correr para clicar. Achei estranho e desnecessário. Quero dizer, fazer pose de chegada no gate acho legal! Eu fiz questão de tirar foto também, o registro quase obrigatório da chegada “oficial”. Mas essa corridinha fake 1h30 depois? Fala sério. Por isso nosso trio tirou foto oficial, sorriu e fez pose, mas não fez a corridinha marmelada.

E foi assim que terminou o último dia do Cruce, com dia lindo, corpo cansaaaaaado, dores everywhere, alma leve e cara feliz. E a papete? A papete para mim virou o símbolo desse dia, porque ilustra perfeitamente o espírito da prova: o momento em que você tem uma virada de atitude, você para de se questionar se vai ou não conseguir e começa a pensar em como fazer, porque que você vai, ah, isso vai.

Para fechar o Relato Cruce 2012:

Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂

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