Prova de grande porte tem muito mais obstáculos do que simplesmente o percurso. O primeiro deles foi um imprevisto realmente imprevisível: minha querida dupla, Ceci, teve que parar. Calma pessoas, ela está ÓTEMA, tá TUDO BEM, mas a coisa responsável a fazer naquele momento era essa. E ela fez, o que, acreditem, não foi fácil. Porque nós éramos dupla no Cruce 2010, ou seja, pessoas que não desistem nem com temporais e acampamentos no Vale da M…. Imagina que a pessoa treinou por meses, comprou isso e aquilo para a prova, arrumou malas, fez exames, escolheu hotéis, planejou comidinhas e até já sabia qual a foto que queria tirar no vulcão. Dizer não para isso não é fácil.
A sensação de deixar a sua dupla na mão, mesmo que não intencionalmente, é dureza –eu sei, porque eu estive no lugar dela ano passado, quando não pude ir e deixei a minha então dupla na mão. Mas dupla é dupla, mesmo quando uma das partes fica impossibilitada. E que mesmo não podendo seguir a prova ficou mandando recomendações, bilhetinhos fofos, querendo saber todos os detalhes, fotos e torcendo muito a cada atualização do site. No fundo, ela estava ali do lado, só não dava para ver.
Na véspera, o acampamento estava acesasso, todo mundo ligado no 220 na expectativa do Dia 1. Esse ano a noite de sono no acampamento teve um improve considerável com um item baratex: o colchão inflável. Não era obrigatório, mas era “fortemente sugerido” pela organização. Como eles que montavam e desmontavam as barracas esse ano, um mimo inimaginável, deixaram subentendido que montariam sem super se preocupar em aplainar a superfície do solo. Vulgo leve seu colchão inflável ou corra o risco de descansar em cima de uma raiz ou várias pedrinhas. Por menos de R$30 foi uma aquisição da qual não me arrependi, mesmo sendo um trambolho que ocupava um lugar excessivo na mala. Ah sim, se for levar o seu no próximo Cruce, não esqueça de combinar com os amigos quem vai levar a bomba para encher os danados!
Como o nosso grupo era bem grande (devia ter umas 30 ou 40 pessoas), tinha pelo menos umas 5 bombas –que são mais um trambolho absolutamente desconfortável de fazer caber na mala. Mas precisa né? Então tira no jóquei-pô quem vai levar o negócio. Aliás, essa mala merce um comentário a parte.
Com essa história de aduana pra cá e para lá, esse ano não teve os famosos conteiners, era cada um com sua malitcha. Ou seja, você precisava de uma mala que fosse de preferência impermeável (afinal ela ia rolar de um caminhão para outro, ser arremessada junto com outras 1.500 malas, ficar no sereno e talvez tomar chuva) e que você mesmo conseguisse carregar. Além disso devia caber na mala:
- suas roupas de acampamento, que se você for sábio vão incluir calça de fleece, impermeável fofinho, croc ou similar e afins
- suas roupas de prova (incluindo 2 pares de tênis)
- as comidas e suplementos para durante e pós prova (gel, R4, damascos, sandubinhas, castanhas e tudo o mais que não ficou retido na aduana)
- o saco de dormir (de preferência -10° C e beeeeem pequeno)
- o colchão inflável (+ a bomba se vc perdeu no palitinho)
- seus objetos de higiene pessoal (do babywhipes e protetor solar ao hipoglós)
- toalha
- sacos de lixo (não pergunta pra quê, simplesmente leve, é tipo o buff, tem 1001 utilidades)
- o que mais você costuma levar nessas provas
Você fica expert em arrumar malas! Posso até fazer disso uma profissão, se algum de vocês quiser me contratar. Porque nesse Cruce deu para aprender muito –quem viu a barraca e a mochila eficiente menos-é-mais da Cris sabe do que estou falando, a casinha smurf dela tinha até tapetinho (feito de sacos) na entrada, só faltava o vasinho de flores na janela, um luxo só.
O importante é que tudo isso esteja organizado de forma que você consiga pegar suas roupas de cada dia da prova rapidamente e preparar a mochila da corrida sem traumas. Sem esquecer que na mochila também tem um monte de itens obrigatórios tipo kit de primeiros socorros, bivac, cobertor de emergencia, lanterna etc.
Só aí você pode largar em paz. E lá fomos nós, andando ansiosos por cerca de 2K até chegar na largada oficial. De repente FOI. Começou o Cruce!! Começou na subida, lógico. Morro acima e subindo. Hora de se desligar de qualquer outra coisa que não o momento. Só existe você, o visual, as passadas, as pessoas ao seu redor focadas na mesma coisa, só existe o Cruce. E uma meta, que vai crescendo no seu horizonte: El Mocho, o vulcão.
Nessa longa subida rumo aos 2.260m de altitude do volcán, aconteceu um milagre: eu aprendi a usar o trekking pole (ou bastão de caminhada). Quem lembra dos relatos do Cruce anterior, sabe que eu tinha me dado MUITO mal com este apetrecho tão moderno. Que ele tinha me atrapalhado, irritado e que eu simplesmente não sabia usar. Não sabia, no passado. Porque agora somos grandes amigos. Tudo graças a um toque do Zé, que mostrou como prender e apoiar a mão na alça dos bastões. Parece besta mas fez A DIferença, tanta que nem importa as horas que passamos desfazendo os nós que ele deu no fio do trekking pole na tentativa de deixá-lo mais justinho e eficiente, tipo terapia ocupacional no acampamento.
No caminho fui encontrando várias duplas amigas, ou seja, fui solo-porém-bem-acompanhada. Tipo festinha onde você vai passando e trocando idéias rápidas com a pessoa entre um canapé e outro, conversinha com Betinho + Pedrinho, risadas com Vivi + Carlota, incentivos com a Santuzza + Rafinha. E a cada passo, o topo nevado ia ficando mas visível e mais próximo.
Em algum momento, o sol quente e o calor foram dando lugar a um ventinho. O solo foi virando areia vulcânica negra, até que passamos por uma placa que dizia: Centro de Nieve. Ueba, NIEVE! A partir dali a subida já levava claramente ao topo do El Mocho, que era onde tinha umas formiguinhas minúsculas se movendo –ou seja, ainda tem muuuuito chão até você virar uma delas.
Ali, logo antes de começar a tal da nieve, rolou um rápido pit stop para acrescentar camadas de roupas a minha pessoa. Se eu conseguisse correr feito Cris, Paulinho, Hadi, Lucas & mais um monte de amigos muito mais fortes que eu, provavelmente não ia precisar de tudo isso. Mas, todavia, contudo, entretanto, o vento tava dureza e afinal de contas a placa dizia NIEVE. Aí rolou um fleece bem fininho e um corta vento eficiente, além de luvitchas. Foi perfeito, usei TUDO o que tinha levado na mochilinha –muito menor e mais eficiente do que a que usei em 2012, fiquei super orgulhosa de mim mezzzzz.

Nesse ponto o visual era de outro mundo. Um mar de montanhas atrás, o pico nevado ali na sua frente, céu azulzíssimo, sol, frio, vento. E não é que um cara aponta no horizonte do meu lado e solta um “Olhá lá, O LANIN!!”. Cadê a Ari para ouvir essa? RI tanto sozinha ali que o tchico achou que a alitutde tinha me afetado seriamente. O começo do trecho de neve foi emocionante, era muito surreal estar ali correndo. Mas todo esse momento-mágico-de-sessão-da-tarde acabou no segundo em que vi o trecho que levava ao topo mesmo, ao topo de verdade, ao topo final do vulcão. Pessoas, era uma rampa beeeeem vertical. Com neve fofa. Curtinha curtinha, mas vou repetir: beeeeem vertical + neve fofa. Ou seja, escorregava. E dava uma sensação de que se você olhasse para cima caía de costas e rolava até o acampamento lá no pé da montanha. Você pisava e dava uma afundada e uma escorregada para trás. Para mim, a solução foi usar meus novos melhores amigos trekking pools e tentar pisar nas pegadas de gente mais pesada que eu, que escorrega menos.
Depois de uma eternidade, finalmente ele, O Pico Do Vulcão. Com um p…… vento, frio pra dedéu e todo mundo tirando foto sorridente, incluindo eu. Acho que o frio congela a parte do cérebro que identifica que você está numa situação não exatamente tranquila e confortável e só fica a parte que fala SUBIIII!!! CHEGUEI NO TOPOOOO!! (assim mesmo, com vários pontos de exclamação).
Aí você pensa, bem, eu sou demais, consegui, subi, cheguei no topo. Agora vamos embora né? Que nada. Agora você tem que dar a volta no topo. Que tinha uns 9K, 100% nieve, vento de levar Dorothy de volta pro Kansas e um visual mais incrível ainda. E o que você, que não está correndo para pegar pódio faz nessa situação de, vamos combinar, desconforto? Para e tira fotitos, lógico!
Assim a vuelta no El Mocho demorou pra sempre. Não acabava nunca mais e, apesar de ser a mais bela, foi a mais dura de fazer solo. Nessa hora dupla é tudo. Porque o pulmão aperta, dá uns sonos, a volta fica looooonga. Mas como boa Corredora Zen fui seguindo. Lembrei de umas músicas. Lembrei de uns trechos de livros. Lembrei do blog, pensando “ahá, isso aqui eu tenho que contar!”. Lembrei de tirar fotos, pedi para tirarem a minha, me encantei com a paisagem.
Até que começou a descida. Ah, a descida. Eita coisinha técnica. Nunca achei que ia ficar com saudades da subida inclinada e escorregadia. Mas fiquei. E olha que eu sou a pessoa que AMA descer. Só que a descida ali era com neve fofa que chegava no meio da canela e na qual você afundava e escorregava. Ali tinha que saber esquiar sem esqui. Quem sabia, descia rápido e se divertindo muito. Quem não sabia, demorou uma eternidade. E quando acabou a nieve começou a pedreira, ou seja, cascalhão de pedras que escorregavam da mesma forma, numa inclinação que fica linda na foto mas é jogo duro na vida real.

Mas como tudo acaba nessa vida, a parte que para mim foi a mais técnica e mais difícil da prova acabou. Tudo o que eu queria era correr. E chegar. Então assim que parou de escorregar horrores, abri a passada e fui, montanha abaixo. Só parei no ônibus que levava a gente de volta ao campamento.
É como voltar para casa. Você só está ali há um dia, mas aquele encontro da galera corredora, a espera pelos que estão chegando, entrar no lago gelado, sentar na areia e relaxar, bater um pratão de massa batendo papo com as amigas, ouvir os relatos de cada um, isso é felicidade, em seu estado mais básico.
Porque o cansaço, a dor, os perrengues, tudo isso passa, mas o dia mais lindo de todos os Cruces, o nós-conquistamos-o-vulcão, essa sensação, é para sempre. Dia 1, seu lindo!
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂