Pessoas, estoy de vuelta del Cruce! Pelo título, vcs já notaram que essa prova vai render váááários posts, então quem já está com sono desde já melhor ir assistir maratona Agente 86 ou algo assim. Para resumir e acabar com o suspense principal, sim, a prova é O Máximo. E sim, é casca. Vc passa uns perrengues que jura que nunca-mais-na-minha-vida-entro-numa-roubada-dessas e depois que acaba já começa a planejar a próxima e acha tudo lindo, até o congelamento cerebral que vc sofreu depois de passar horas na chuva gelada.
Mas estou me adiantando. Como toda boa história, essa começa com uma jornada. Nada complexo, teoricamente só pegar avião para Buenos Aires, dali para Bariloche e dali o transfer para Cerro Catedral. Longo mas simples né? Seria se as bagagens viajassem junto com vc. 
Porque a nossa aventura começou mesmo no aeroporto de Bariloche, depois de 2 voos tão lotados de equipes brasileiras conhecidas que super parecia aquela excursão de busão da 6ª série. Com direito a pessoas gritando, zilhões de piadinhas infames, gente atirando bolinha de papel em quem dormia, pessoas dando olhares de reprovação e um clima de alegria geral. Que lindo.
Em Buenos aquele verão ameno, uns 24°C. Todo mundo de bracitos de fora, alguns shorts, muita descontração. Aí chegamos em Bariloche e o piloto avisou: temperatura local 8°C. E baixando. Nossa dupla, previnida e control freak que só, já estava de botas do Gato de Botas e uma jaqueta bem quente na bagagem de mão. Ótimo, pensamos em tudo. Em tudo menos na possibilidade das suas malas não chegarem.
Na esteira do aeropuerto de Bariloche, uma coisa estranha. Um mocinho não parava de tirar malas da esteira e acumular numa pilha cada vez maior no canto. De quem seriam? E por que as nossas não chegavam? Meia hora mais tarde, depois que apenas uns 30% das pessoas do voo tinham conseguido resgatar metade de suas malas, um aviso singelo: gente, as malas de vcs não vieram nesse voo! Era muito peso e como já estávamos trazendo as bagagens do voo de ontem, que também não chegaram junto com seus donos, não deu para trazer as de vcs, foi mal. Amanhã a gente manda pro hotel, beijo tchau.
Simples assim, não adianta chorar, reclamar, gritar, dar pití. Hoje não tem mais voo Buenos-Bariloche e só amanhã as 10h chega um novo. Para mostrar o quanto vcs são importantes, nós mandamos entregar no hotel e that´s it.
Aí teve aquela cena do povo de blusa de alcinha tiritando de frio e gente que tinha trazido a bike sentindo aquele frio no estômago porque a bike superequipada estava perdida em algum lugar entre Buenos e Bariloche. Aliás, tenha MEDO, muito medo desse aeroporto. Coisas ruins acontecem ali. Suas malas somem e quando aparecem parece que uns 150 anões de Minas Morgul tentaram escavar diamantes com picaretas da sua bagagem – e conseguiram, porque vem faltando umas partes.
Mas como eu sou uma pessoa zen, fui para o hotel curtir o friozito, que aliás estava ótimo. O hotel era bacanito, com cara de casinha do Papai Noel e um visual estonteante da janela. No dia seguinte, hora de pegar o kit Cruce.
Nesse quesito, nota 10 para a organização: vc andava por um shoppingzinho passando por vários estandes e recolhendo coisas na sacola, tipo um videogame. E olha só quanta coisa: fleece, chip, pratos, talheres, copo, canecas térmicas, garrafinha, barrinha, chá mate, chocolates, toalha, bandana e, claro, o abadá. Abadá é como batizamos a camiseta da prova, pq afinal de contas como chama a vestimenta obrigatória para participar de um evento coletivo? Abadá gente, lógico. Que era até personalizado com seu nombre e bandeira do seu país, um luxo. Só mais tarde é que a gente lamentou que fosse só 1 abadá. Porque pensa, é para usar o mesmo nos 3 dias né? Cheirosinho que só.
Um toque muito bacana foi ter a bandeirinha para poder colocar na sua mochila. As nossas fizeram o maior sucesso, super detalhe legal. Depois disso o jeito foi passear em Bariloche, já que as malas não tinham dado o ar da graça. Super chato, uma cidade fofa, com várias ruas infestadas de lojas compráveis, lugarzinhos simpáticos para comer e beber e muito chocolate. Um inferno. Nem tem do que ficar reclamando.
Aí na volta, começa a corrida: pegar as malas voando, separar tuuuuudo para o seu container, levar as coisas até ele (que ficava lááááá embaixo, num campo), fazer tudo caber, fechar, entregar e pronto. Graças aos deuses que ainda existem cavalheiros nesse mundo, senão nossa dupla de mocinhas finas de família teria penado com aquele monte de coisas desengonçadas sendo levadas rampas e escadas abaixo até o tal local das caixas. 
No dia seguinte, o momento mais esperado de todos, após um traslado de 1h: a largada. Aliás, um toque: largue cedo. Não tão cedo que vc atrapalhe a elite, mas não tão tarde que vc pegue a massa de caminhantes e pene horas para ultrapassá-la em trilha estreitas.
Descobertas iniciais, anote no seu check list:
- arrume um manguito, que foi o equipamento categoria revelação da prova; em um clima esquizofrênico como o da Patagônia, que uma hora congela e outra faz sol, não dá para ficar parando vestindo e tirando roupa
- bandana é tudo de bom, leve a sua (ou use a da prova), evita o suor, protege suas orelhas do vento gelado, segura a onda do cabelo e tem mais umas 1001 utilidades, igual aquele produto
- tênis p/ trilha é essencial. Parece redundância dizer isso, mas não é. Não ache que o seu tênis de treino no parque serve. Não serve. O grip é tudo nessa vida quando vc precisa subir uma montanha lamacenta. Ah, e leve o 2º par para a prova também. E, precisa sim. (se vc for elite isso não vale para vc, que provavelmente consegue correr perfeitamente até de papete e deve estar achando esse post um tédio)
- calça ou bermuda com bolso. Sim pessoas, faz diferença o tal bolso, não é frescurite. Pq tudo o que vc não quer é ter que mexer na mochila, então todas as comidas e acessórios que vc for usar durante a prova têm que estar a mão, nos bolsos que ficam no fecho da frente da sua mochila (tipo na sua barriga) e nos bolsos da calça.
- Óculos. Essa não é unanimidade, mas se vc é como eu e adora um óculos escuro, leve aquele de lente rosa ou vermelha, não vai se arrepender
- Meia de compressão. Se vc tem, leve, aqui ela faz uma diferença. Se não tem, não vai morrer por isso, não se estresse.
- Impermeável. Não vá para a Patagônia sem ele. Certifique-se de que ele é impermeável MESMO e não vai te deixar na mão se vc tiver que correr na chuva forte por horas, porque provavelmente vc vai ter que.

- Luvas. essa também é só para quem tem frio nas mãos como eu. Foi minha salvação e ficava no bolso da calça. Congelou, veste um pouco. Esquentou, taca no bolso.
- Hipoglós: não saia sem deixar seu pé realmente besuntado nele. Nada de passar de levinho e deixar absorver, é para deixar melequento e nojento e tacar a meia por cima. Vale a pena gente, terminamos o Cruce sem uma bolhazinha sequer, o pé cansado mas inteirão.
- Meias: tecnológicas, tipo dry fit ou similar, nada de meia de algodão.
- Camiseta dry fit: leve para por debaixo do abadá, senão vc não aguenta o futum de correr 3 dias com ele e nem sempre dá para lavar e secar (no nosso caso isso nem foi cogitado pelo timing das coisas).
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂