
Joseph Aperumoi bate Marílson na Meia de SP: potência mundial (foto: Paulo Gomes /www.webrun.com.br)
Nos últimos anos, é notável o crescente número de corredores quenianos em corridas de rua no Brasil. Sabidamente a maior potência do planeta quando o assunto é rendimento em provas de fundo, o Quênia produz tanto atletas para a elite mundial quanto corredores que disputam provas fora dos grandes centros, como o Brasil. Nesta primeira reportagem da série de corredores africanos no País, conheça a equipe Luasa.
Luiz Antônio dos Santos foi um fundista brasileiro de sucesso na década de 90. Bicampeão da Maratona de Chicago (1993/1994), Luiz tem ainda o segundo melhor resultado brasileiro em maratonas olímpicas (10º em Atlanta – 1996) e um quinto lugar na Maratona do Mundial de Atletismo de 1997, em Atenas.
Após se aposentar, virou treinador e abriu sua própria equipe, a Luasa nome originado de suas iniciais. Apesar de se destacar com os corredores africanos, a Luasa não é uma equipe exclusiva de atletas estrangeiros.
Origem– Eu já vinha treinando alguns atletas brasileiros e quando estive na Colômbia com um deles conheci um queniano que estava lá treinando. Ele me perguntou se eu poderia ajudar os irmãos dele aqui no Brasil, conta Luiz. Quando voltei, procurei saber como funcionava e assim começou, primeiro com os irmãos e fomos dando sequência, explica.
Hoje já fui no Quênia ‘mil’ vezes, temos um local definido [a cidade de Eldoret, a dois mil metros de altitude, na província de Rift Valley] e continuo atuando com a família. O técnico conta que sua ideia é promover um intercâmbio entre os dois países.
Da mesma forma que a Luasa traz quenianos para correr no Brasil, leva brasileiros para treinar no Quênia. O William Salgado treinou lá, agora voltou e foi 25º na Meia de São Paulo. O José Roberto fez o melhor tempo dele (1h04min52, foi o 11º), é um grupo que pouco a pouco está crescendo, ilustra.
Seleção– Não faço seleção [com os quenianos], é um grupo de família. Praticamente todo mundo [no Quênia] corre, então a equipe é formada pelos familiares, amigos, quem treina ali em Eldoret, esclarece Luiz.
Os atletas africanos podem ficar no Brasil por um período de até seis meses em um ano, independente de ser um período só ou dividido em intervalos menores. Na embaixada brasileira no Quênia eles tiram o visto de que vem para cá para competir. Sem esse visto, nem saem de lá, completa.
A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) publica o registro de estrangeiros aptos a competir em solo nacional e define que, para correr no Brasil, atletas de outros países devem ter convite oficial da organização dos respectivos eventos. Uma cópia desse convite tem que ser enviada para a CBAt.
Confira na próxima página qual a relação de remuneração dos africanos na Luasa e a opinião de Luiz Antônio sobre a força dos fundistas do Quênia.
Remuneração– Hospedados no centro de treinamento da Luasa em Taubaté (SP), os atletas africanos tem estadia, transporte e alimentação custeados por Luiz Antônio. Tem atleta que vem até aqui e acaba não ganhando nada, mas eu tenho que pagar a passagem dele, pondera o treinador.
Normalmente no nosso contrato, firmado no Quênia, há uma porcentagem definida dos valores de premiação que vai para mim. Segundo Luiz, os devidos impostos vêm descontados na premiação das provas brasileiras.
Potência mundial– O agente e técnico acredita que vários motivos explicam o sucesso do Quênia nas provas de longa distância. Primeiro que eles já têm o privilégio da altitude. Junte isso com a pobreza, então a corrida para eles é a válvula de escape para melhorar a vida, analisa.
É como ser jogador de futebol aqui no Brasil. Lá todo mundo quer correr. A diferença é a dedicação deles, eles levam muito a sério e se dedicam mesmo, levam como uma profissão, complementa.
Em Taubaté, a rotina é bem disciplinada. Eles treinam todos os dias em dois horários, dormem cedo, treinam cedo. Temos regras, porque eles estão aqui para isso, define Luiz.
Sobre uma possível rivalidade com os atletas da MMC/Fila, outra equipe de quenianos no Brasil, Luiz Antônio é apaziguador. Tem espaço para todo mundo trabalhar. Os meus atletas estão quase sempre juntos com os dele [Coquinho, treinador da MMC], então não vejo esse tipo de coisa, encerra.
Confira a segunda reportagem do Webrun sobre as equipes africanas, com a MMC!
Este texto foi escrito por: Paulo Gomes