Conheça cientificamente uma bebida energética

Redação Webrun | Atletismo · 09 fev, 2006

A literatura científica vem crescendo em trabalhos voltados aos benefícios das bebidas energéticas e de seus componentes, em particular. É importante que os profissionais da área da saúde envolvidos com alimentação busquem reais conhecimentos sobre este produto e seu consumo, principalmente por indivíduos sob estresse fisiológico como os atletas as quais bebidas energéticas, aliadas a treinamento e dieta adequada, podem ter caráter ergogênico. Por isso saiba de forma científica o que são os componentes de uma bebida energética.

A Secretaria de Vigilância Sanitária do Ministério da Saúde publicou no diário oficial da União, em 05 de novembro de 1998, a Portaria nº 868, regulamentando a identificação, a produção e a venda das bebidas energéticas, identificando-as como Composto Líquido Pronto para Consumo.

Atualmente, há no mercado aproximadamente vinte e cinco marcas de bebidas energéticas e, analisando a composição destas bebidas, observa-se que a grande maioria consiste numa mistura de carboidratos (cerca de 11g/dl) com taurina (400mg/dl), cafeína (cerca de 32mg/dl), glucoronolactona (cerca de 240mg/dl) e vitaminas do complexo B (100% da necessidade diária). Com base nessas condições, haja vista também o crescimento ascendente destas bebidas, nutricionistas e outros profissionais da saúde envolvidos com alimentação, precisam conhecer seus componentes e estarem atentos a novos trabalhos.

A taurina é um aminoácido derivado dos aminoácidos sulfurados (metionina e cisteína), que se encontra conjugada com ácidos biliares de sódio e potássio, resultando na formação do ácido taurocólico, um dos ácidos da bile alcalina, essencial para absorção das gorduras (GANONG, 1988).

A taurina é o principal aminoácido intracelular livre da maior parte dos tecidos dos mamíferos (STURMAN et al., 1995). Em seres humanos, a taurina é tanto biossíntetizada quanto ingerida como parte da dieta normal. (BELLI et al., 1994). Estudos demonstraram que as maiores concentrações intracelulares de taurina são encontradas no coração, leucócitos, músculo esquelético, retina e SNC, sendo o fígado o local de maior variação nas concentrações de taurina, onde estas são dependentes da dieta ingerida (GAUL, 1989; KENDLER, 1989).

Além das bebidas energéticas, a taurina também pode ser encontrada em frutos do mar (mariscos, ostras), aves (carne escura de frango ou peru) e carne bovina (LAIDLAW et al, 1990).

Existem evidências que a taurina participa de várias funções fisiológicas importantes. No sistema nervoso está associada à osmorregulação, antioxidação, detoxificação e estímulo da glicólise e glicogênese. No fígado, a taurina conjuga-se com ampla variedade de produtos tóxicos como metabólitos de medicamentos e xenobióticos, permitindo que estas toxinas sejam rapidamente excretadas pelo organismo (HUXTABLE , 1992). A taurina pode ainda se complexar com metais pesados e reduzir os níveis destes metais pelo mecanismo de desintoxicação pela redução rápida com a formação de produtos estáveis (AZUMA, 1983).

Em estudos utilizando taurina, através do consumo de bebidas energéticas no exercício, foi demonstrado o efeito positivo deste aminoácido na resposta hormonal, conduzindo para um maior desempenho e tempo de exercício. Além disso, tanto os batimentos cardíacos e as concentrações de catecolaminas foram significantemente mais baixos no grupo que utilizou taurina, sendo estes efeitos os prováveis responsáveis pela resistência prolongada dos atletas (GEIB, 1994). Os mecanismos cardíacos atribuídos a taurina incluem efeito inotrópico positivo, modulação da capacidade do depósito de Cálcio no retículo sarcoplasmático, estimulação na velocidade de bombeamento de cálcio ativada pela ATPase (PASANTES- MORALES, 1982) e as influências nos canais iônicos (BANZER et al in press).

A glucoronolactona é um tipo de carboidrato biossintetizado a partir da glicose, podendo ser encontrado também no vinho tinto, cereais, maçãs e pêras. É essencial para a desintoxicação e metabolismo de ampla variedade de xenobióticos e medicamentos, via conjugação no fígado, que são excretados na urina. Este processo é conhecido como glucuronização (SPONHOLZ, 1984).

Outra função desintoxicadora atribuída à glucoronolactona é a sua complexação com a bilirrubina e, posterior, eliminação pela urina. A glucuronolactona é rapidamente absorvida e metabolizada quando administrada oralmente. (PITKÄNEN et al., 1972)

O inositol, também conhecido como myo-inositol, é um isômero da glicose encontrado na forma livre, na forma de fosfolipídeo e em formas fosforiladas, conhecido como ácido fítico. É encontrado e amplamente distribuído na dieta humana, tanto em fontes vegetais quanto animais. (SCHULZ, 1972). Suas fontes são frutas cítricas (exceto o limão), feijão, pasta de amendoim, lecitina de soja, levedo de cerveja, germén de trigo, etc. (CARVALHO, 2000).

Suas funções farmacológicas assemelham-se às da colina e na forma de fosfstidil inositol encontra-se nas membranas celulares e nas lipoproteínas plasmáticas. Os derivados polifosforilados do inositol são liberados como segundo mensageiros em resposta a uma variedade de hormônios e neurotransmissores. Embora não existam demonstrações de necessidades de ingestão diária, o inositol está presente em altas concentrações no leite materno e sua deficiência está relacionada à distúrbios no transporte e no metabolismo das gorduras (GOODMAN , 2000).

A cafeína é uma das principais xantinas, substâncias que são encontradas em estado natural numa séria de plantas como: café, chás, mate, cacau e guaraná, entre outras. E acrescentada a bebidas energéticas e alguns remédios (GANONG , 1988). Segundo DeLÚCIA et al (1991), sabe-se que as xantinas exercem seus efeitos estimulantes antagonizando os receptores de adenosina e a inibição da fosofdiesterase – com resultante acúmulo de AMPcíclico. Essa ação simpaticomimética indireta resulta em facilitação da liberação dos transmissores adrenérgicos. No sistema nervoso central, as xantinas aceleram a cognição, diminuindo a fadiga e aumentando o estado de vigília. A cafeína antagoniza os receptores de adenosina.

A cafeína exerce efeitos inotrópicos no sistema cardiovascular, prolongando e intensificando o estado ativo das fibras musculares, aumentando sua força e freqüência de contração, resultando aumento do rendimento cardíaco (GANONG, 1988). A contração muscular é fortalecida pela ação da cafeína e outras xantinas, pois aumenta a capacidade de trabalho, relacionada com o estímulo celular, principalmente pelo aumento da glicogenólise e lipólise (DeLÚCIA et al. , 1991).

A meia-vida da cafeína varia de 4 a 6 horas, ou até dois dias, dependendo da idade, peso, sexo, estado hormonal ou o uso do contraceptivo oral. Os derivados xantínicos são rápida e completamente absorvidos pelo trato gastrointestinal, e as concentrações plasmáticas máximas são registradas cerca de 1 hora após sua ingestão (DeLÚCIA et al.; ROBERTSON, 1981).

A cafeína consumida através das bebidas energéticas é um recurso ergogênico utilizados a fim de potencializar o desempenho de resistência. Estudos recentes têm apontado a cafeína como um poderoso agente modulador do desempenho físico em atividades físicas de diferentes naturezas.

A revisão da literatura mostra que, na década de 90, muitos estudos puderam demonstrar aumentos na performance de endurance, devido à ingestão da cafeína (ALVES, 1995; TRICE, 1995; GRAHAM, 1995; PASMAN, 1995; GRAHAM , 1991; PINTO & TARNOPOLSKY, 1997).

Com relação aos exercícios físicos prolongados, os resultados sugerem que o uso da cafeína promove melhoria na eficiência metabólica dos sistemas energéticos durante o esforço contribuindo para um melhor desempenho físico (BRAGA & ALVES, 2000).

Já é usual o enriquecimento com vitaminas em muitos alimentos de consumo geral bebidas energéticas especialmente – fornecendo a combinação de 5 vitaminas (niacina, B6, B12, riboflavina e ácido pantotênico) em concentrações menores ou iguais aos da recomendação vigente. São dissolvidas homogeneamente no líquido e, acrescentadas após a pasteurização, não sofrem perda pelo aquecimento.

Teoricamente, os exercícios aumentam as necessidades ou perda de nutrientes devido a: adaptações bioquímicas associadas ao treinamento; aumento na concentração de enzimas mitocondriais que requerem os nutrientes como cofator, e a necessidade para reposição e manutenção dos tecidos. Além disso, também existem algumas evidências bioquímicas de deficiência vitamínica em indivíduos ativos (van der Beek, 1991). Uma das razões para isso pode ser: ingestões marginais associadas a escolhas dietéticas pobres ou redução de energia ingerida (BEALS , 1998; BEALS, 1994).

Sabe-se que os exercícios são capazes de aumentar as necessidades energéticas e protéicas e, com isso, aumentariam as necessidades diárias de alguns nutrientes, como tiamina, riboflavina e vitamina B6 (MANORE , 2000).

Este texto foi escrito por: Tatyana Dall Agnol

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