O médico dos esportes de aventura e de endurance, Gabriel Ganme, participou neste último sábado (18/06) da Maratona do Sol da Meia-Noite, realizada na cidade norueguesa de Tromso. Veja o relato dele sobre a prova e as dicas para os atletas que querem participar desse tipo de corrida:
Por Gabriel Ganme
Vamos contar do começo. Como médico do esporte, eu sempre tive a curiosidade de entender o fanatismo dos corredores que fazem provas, especialmente as mais longas. Então, de alguém que fazia apenas corridas intervaladas de 30 a 40 minutos, passei a levar a coisa mais a sério. Contratei uma técnica e resolvi treinar corrida, mas sem metas específicas.
Em pouco tempo passava a correr distâncias e tempos maiores. E mesmo ciente de limitações físicas relativas (tenho prótese no quadril esquerdo e colocarei uma no quadril direito em alguns meses), entrei para a gangue de corredores.
Depois de algumas provas curtas, e sabendo que ia para o bisturi em breve, decidi escolher mais uma meia maratona, que juntasse o desafio da prova a um visual diferente. Como sou muito ligado à medicina dos esportes de aventura, a Maratona do Sol da Meia-Noite caia como uma luva.
Prova aconteceu no sábado (18/06), em Tromso, na Noruega. Foto: arquivo pessoalChegou o dia do desafio
Como havia previsão de chuva leve, testei um equipamento chamado vapor socks. Teria os tênis molhados, mas os pés não. Eu já havia usado as vapor socks em trilhas na neve, mas nunca para correr. Deu certo, o que me salvaria os pés na prova mais tarde.
Fui pegar meu número da corrida e tirar dúvidas adicionais. Uma coisa que me causou estranheza é que a prova ofereceria água e isotônicos a cada cinco quilômetros apenas, então decidi levar comigo quatro sachês de um gel que já uso faz tempo. A previsão da temperatura da prova tinha caído para cinco graus, com garoa.
Fiz refeições sem qualquer fibra, com exceção de uma aveia com iogurte lá pelas 12 horas, garantindo o funcionamento precoce do aparelho digestivo, até para evitar desconfortos posteriores, e comprei uma capa de chuva para a prova.
No começo da tarde fui assistir a largada da primeira corrida, para crianças, e depois para pais e filhos. Sensacional! E sabe quem deu a largada da prova? A Rainha da Noruega chegando com um carro relativamente simples. A propósito, quando estimulamos nossas crianças para a atividade física, prevenimos doenças, obesidade, e uma série de outros problemas de saúde.
No começo da tarde, Gabriel foi assistir a largada da primeira corrida, para crianças. Foto: arquivo pessoalDepois de ver a criançada, fui descongelar no hotel, comer umas frutas, e esperar a largada dos 42 quilômetros. Fiquei espantado com o número de corredores na maratona, que não chegou a mil. Pensando na localização, temperatura e dificuldades, fica fácil entender.
Voltei para o hotel uma hora antes da meia maratona e comecei uns trotes e alongamento leves por 20 minutos. Logo antes da prova, fiz uma besteira que me custou pelo menos 15 minutos no meu tempo de prova, e muitas cólicas. Tinha recebido uma amostra de gel local, e decidi tomar, para garantir o aporte energético inicial. Esqueci daquilo que minha técnica de corrida, Vera Natalini, sempre falava: faça qualquer teste nos treinos, seja suplemento, calçado e roupa, mas não invente nada nas provas.
Sol da Meia-Noite. Foto: arquivo pessoalPróximo da largada, eu me encaixei no pelotão que faria um tempo entre duas horas e 2h15. Largamos em menos de três mil pessoas, e o percurso plano inicial permitiu um bom pace, abaixo de 5min45 o quilômetro, dentro do que eu havia planejado. O visual começou a ficar muito legal assim que saímos do centro da cidade, e corríamos beirando o mar, com vista para o continente nevado. Até que o gel começou a dar notícias, e as cólicas vieram, passados cinco quilômetros de prova. A partir do quilômetro seis, comecei a tomar água, para estimular o reflexo gastrocólico (causado pela chegada do desjejum ao estômago).
Enquanto o percurso da meia maratona ficava apenas na Ilha de Tromso, o da maratona ia até o continente pela ponte, com um visual mais legal, porém com um aclive e declive importantes. Lá pelo quilômetro 11, chegamos ao aeroporto, e a partir daí a volta permitia curtir a catedral ártica, a ponte e os torcedores em roupas muito engraçadas. Havia subidas e descidas no trajeto, relativamente tranquilas, e a torcida sempre nos incentivava.
Gabriel Ganme terminou a meia maratona em 2h24. Foto: arquivo pessoalQuando entrei no centro da cidade, na reta final, de cerca de um quilômetro, minha perna direita (que está aguardando o bisturi em agosto) começou a dar sinais de fadiga, e ameacei terminar andando. Mas, acelerei e cruzei a linha de chegada correndo. Já colocaram a medalha no nosso peito, e nos cobriram com um cobertor de alumínio, pois estava muito frio. Ofereceram bananas e algo que parecia um isotônico, mas que na verdade era um refrigerante com gás. Terminando com o tempo de 2h24, veio a sensação de missão cumprida, de ter curtido um lugar muito legal para correr.
Para finalizar esse depoimento, compartilho com vocês algumas lições que tirei dessa prova:
– A aclimatação deve ser completa, envolvendo clima, fuso horário, alimentação, sono e adição de equipamento especializado. Quanto mais tempo de aclimatação, melhor.
– Bebida alcoólica não combina com o pré-prova (presenciei um corredor bêbado antes da largada). E nem excessos depois.
– Corra o planejado. Não faça modificações de última hora, como eu fiz com o gel. Isto inclui alimentação, hidratação, equipamento, entre outros. Pequenas adaptações, se necessárias, podem ser feitas, como fiz com as vapor socks e o casaquinho impermeável, mas de preferência com algum teste prévio.
– Nenhuma prova vale a sua segurança. Sempre haverá outra oportunidade. Na dúvida, pare, e reavalie se realmente você tem condições de continuar.
Boas corridas!
Gabriel Ganme é especialista em medicina esportiva pela Escola Paulista de Medicina e médico dos esportes de aventura e de endurance.
Este texto foi escrito por: Gabriel Ganme