
A largada aconteceu logo após a benção do padre (foto: Alexandre Koda/ webrun.com.br)
Cerca de 800 brasileiros toparam o desafio de encarar uma corrida no deserto mais seco do mundo, na segunda edição do Mountain Do Deserto do Atacama, a 2.450m de altitude. A prova do último domingo (17/03) teve distâncias de 42, 23 e seis quilômetros, com vitória de Cesar Batista Caminão na prova principal, após muita determinação e força de vontade para superar as dificuldades do percurso montado na região norte do Chile.
Direto de San Pedro de Atacama – O dia ainda nem havia raiado e centenas de corredores já faziam o aquecimento e alongamento na praça principal de San Pedro de Atacama, prontos para iniciarem o desafio. Minutos antes do tiro de partida, o padre da comunidade local deu a benção aos presentes e jogou algumas gotas de Água Benta para oficialmente declarar iniciado o Mountain Do Atacama 2013.
Os primeiros quilômetros foram por dentro das ruas do vilarejo, até que veio um pequeno trecho em asfalto, na rodovia que dá acesso ao Vale da Lua. Já em estrada de terra batida, enquanto os participantes dos 23 quilômetros entravam para dentro do vale, os demais seguiam adiante até a Quebrada de Calle.
Neste ponto, no Vale da Lua, os desafios começavam a aparecer, com algumas pedras no caminho que obrigavam os corredores a fazer zigue zagues e até a passar sob um arco de pedra. Muitos passavam rápido, sem perder tempo, enquanto outros aproveitavam as peculiaridades do local para fazer fotos e vídeos com os parceiros de corrida.
Muralha – Conforme a quilometragem aumentava, também era maior a dificuldade do trajeto. Após contornarem cânions e correrem ao lado de cordilheiras de sal, eis que os bravos guerreiros se depararam com uma muralha à frente: a Grande Duna. Por alguns quilômetros a corrida teve que ser substituída pela caminhada, que se mostrava mais efetiva para economizar energias.
Passos largos afundavam na areia fofa, o sol queimava as cabeças e, ao longe, como uma miragem, staffs apareciam no meio do deserto ofertando água, refrigerante, isotônico e até oxigênio suplementar, o mesmo usado por montanhistas para escalar grandes montanhas.
Após a passagem pelo Vale da Morte, já no fim da prova, a placa dos 39 quilômetros indicava que o sofrimento estava quase no fim. Mas ainda faltava a passagem por um povoado na entrada de San Pedro e a leve inclinação da reta que levava à linha de chegada, que para muitos parecia ser uma verdadeira “pirambeira”.
Exaustão, emoção, felicidade. Esses eram alguns dos sentimentos demonstrados na tenda de chegada. Enquanto uns corriam pelo puro prazer da superação, outros homenageavam parentes e amigos, ou experimentavam um novo desafio, como os atletas da equipe Run Up, de Sorocaba (SP).
Os 23 representantes do time do interior paulista nunca haviam participado de uma corrida de montanha e resolveram estrear no deserto. “Nunca fizemos nada parecido”, desabafa Tuca Bertolini. “Foi uma primeira experiência muito difícil, mas o espírito acolhedor da montanha e a energia positiva do lugar compensaram”, completa. Quem também sofreu, mas aprovou, foi Ira Arruda, que fez os 23 quilômetros e chorou muito na linha de chegada. “A gente sente mais orgulho ao completar uma prova como essa. Valeu cada duna, cada grão de areia no tênis e cada pedra que encarei. Essa medalha vai para os meus filhos, que ficaram em casa torcendo”.
Prova Desumana – Assim resumiu o mineiro Marco Antônio Pereira, que não teve muita rodagem de treinos para chegar à maratona do Atacama. “Tenho várias fraturas na perna e o máximo que consegui fazer antes da prova foi oito quilômetros. Estou todo dolorido e só completei por conta da ajuda de três corredores de São Paulo que me deram força durante todo o caminho”.
E o espírito da montanha esteve presente também entre os corredores de elite. O vencedor dos 42 quilômetros, Cesar Batista Caminhão, disputou a liderança durante boa parte do trajeto com José Virginio de Morais, atual Campeão Brasileiro de Corridas de Montanhas. Os dois a todo o momento conversavam, compartilhavam água nos postos de hidratação e incentivavam um ao outro.
A camaradagem durou até o quilômetro 26, quando o gaúcho de Brochier conseguiu escapar e depois só administrou até a linha de chegada. “O Zé foi muito companheiro, isso foi muito legal. Depois que escapei, procurei correr mais forte até chegar à duna, para obter uma boa vantagem”, relata o atleta que é estreante em provas em terreno montanhoso.
José teve sua mala extraviada, correu com equipamentos emprestados de amigos e ainda alcançou um segundo lugar, onze minutos depois do campeão. “Pensei que o desafio fosse apenas correr, mas chegar até o Atacama foi ainda mais difícil. Depois de tudo isso saí no lucro”.
Após a conclusão de mais um Mountain Do em terras chilenas, os organizadores passam a se concentrar nas provas do circuito nacional, na Praia do Rosa (SC), Lagoa da Conceição e Costão do Santinho (ambas em Florianópolis), Canela (RS) e Campos do Jordão (SP).
Este texto foi escrito por: Alexandre Koda