1968 – Jogos Olímpicos do México

Redação Webrun | Atletismo · 26 ago, 2002

De 12/10 a 27/10/68

Os Jogos foram conhecidos pela atitude e altitude. No final da década de 60, o mundo vivia uma fase conturbada. Um dos problemas era a intervenção americana na Guerra do Vietnã, gerando inúmeros protestos inclusive nos EUA, que ainda estavam traumatizados com os assassinatos de Martin Luther King e de Bob Kennedy. Os soviéticos haviam invadido a Tchecoslováquia, na chamada “Primavera de Praga”, gerando protestos de diversos países. No desfile de abertura, após o México, o país mais aplaudido foi a Tchecoslováquia. Poucos dias antes do início da Olimpíada, milhares de mexicanos, em sua maioria estudantes, fizeram movimentos de protestos devido à pobreza da população e questionando as verbas da organização dos Jogos. Foi necessária intervenção do exército, acarretando muitas mortes e centenas de feridos entre os manifestantes. Apesar deste problema, o calendário olímpico foi cumprido.

As instalações mexicanas eram grandiosas, com o estádio Olímpico (com capacidade para 80 mil pessoas), o Palacio de los Deportes (25 mil), a Arena México (13 mil), o Auditório Nacional (12.500) e Estádio Azteca (98.500). O maior destaque dos Jogos talvez tenha sido o amplo programa cultural. Outro problema muito debatido foi a disputa na Cidade do México, que fica a mais de 2 mil metros de altitude. Seria a 1ª vez que uma grande competição ocorreria nestas condições. Inúmeros países solicitaram a transferência de sede, tendo inclusive a Inglaterra feito um inusitado pedido para que o COI limitasse o período de treinamento em altitude a fim de não favorecer alguns países. Diversos países investiram em treinamentos em altitude.

Os resultados com o ar rarefeito foram surpreendentes no atletismo, tanto que, em todas as provas de menos de 1.500m, foram quebrados recordes olímpicos ou mundiais. Nas provas de campo, também caíram 4 recordes mundiais, inclusive o do salto em distância, pelo americano Bob Beamon, com a incrível marca de 8,90 metros. Nas provas longas e em alguns esportes, como futebol e hockey, as performances foram prejudicadas. Participaram dos Jogos 5.531 atletas representando 113 países. Os EUA obtiveram 45 medalhas de ouro contra 29 da União Soviética. O Brasil ganhou 1 medalha de prata, no salto triplo, com Nelson Prudêncio e 2 medalhas de bronze (1 no iatismo, na classe Flyin Dutchman e 1 no boxe, com Servilio de Oliveira).

Pela 1ª vez a pira olímpica foi acesa por uma atleta feminina, a jovem Norman Enriqueta Basilio.

O americano Al Oerter surpreendeu ao vencer o lançamento do disco pela 4ª vez consecutiva.e note-se que nas 4 vezes em que conquistou o ouro olímpico não era o favorito da prova.

A prova dos 200m foi vencida pelo americano Tommie Smith, tendo John Carlos, seu compatriota, obtido a medalha de bronze. Na cerimônia de premiação, ambos portavam luvas negras e durante o hino balançavam a cabeça e erguiam os punhos em protesto de apoio ao movimento “Black Power” (Poder Negro). O Comitê Olímpico Americano pediu desculpas pelo protesto de seus atletas, mas o COI solicitou uma posição mais dura sob pena de eliminar os EUA dos Jogos. Finalmente o Comitê Americano suspendeu os 2 atletas e os expulsou da vila olímpica.

Lee Evans, que venceu os 400m rasos com recorde mundial (43s8), compareceu à premiação com os 2º e 3º colocados usando uma boina negra, gesto que foi entendido como um apoio a Tommy Smith e John Carlos.

O americano Jim Hines venceu os 100m e estabeleceu novo recorde mundial com a marca de 9s9. Logo após os Jogos, Hines abandonou o atletismo e profissionalizou-se no futebol americano.

Os africanos consolidam o predomínio mundial nas provas de fundo, tendo os atletas do Quênia vencido os 1.500, 10.000 e 3.000m com obstáculos. O etíope Mamo Wolde, que havia sido medalha de prata nos 10.000m, ganhou a medalha de ouro na maratona. Mohamed Gammoudi, da Tunísia, que havia sido 2º nos 10.000m em Tóquio, ganhou a prova dos 5.000m e ficou em 3º nos 10.000m. Gammoudi foi o único atleta que morava em baixa altitude a vencer uma prova de longa distância no México enfrentando atletas que habitavam e treinavam em altitudes maiores.

Nos 800 metros o australiano Ralph Doubell com 1:44.3 igualou o recorde mundial e surpeendeu o queniano Wilson Kiprugut que foi prata com 1:44.5.

Nos 1.500 dominio do queniano Kipchoge Keino com 3:34.9 derrotando o americano favorito Jim Ryun que foi prata com 3:37.8. Ryun era o recordista mundial e fazia 3 anos que não perdia umja prova, mas teve que pagar o preço da altitude e de uma momonucleose contraída pouco antes. Keino ainda conquistou a prata nos 5.000 metros perdendo apenas para Gammoudi.

Nos 3000 steeple dobradinha queniana com Amos Biwot 8:51.0) e Benjamin Kogo ( 8:51.6).

Nos 10.000 metros vitória do queniano Naftali Temu que havia sido bronze nos 5.000 e fez 29:27.4 deixando o etíope Mamo Wolde ( 4º lugar em 1964) com 29:28.0 e bronze para Gammoudi com 29:34.2. O fenomenal Keino também correu a prova mas parou depois de 8.900 metros com cólicas estomacais

Na maratona, super difícil de correr a uma altitude como a do México foi vencida pelo etíope Mamo Wolde com 2:20.26.4 que já havia ganho a prata nos 10.000 metros deixando o japonês Kenji Kimihara com 2:23.31.0 na 2ª posição

No salto em altura, o americano Dick Fosbury venceu com 2,24m e lançou novo estilo que passou a ser adotado por todos e ficou conhecido como “Fosbury Flop”.

Bob Beamon, que havia se qualificado nas eliminatórias apenas no último salto, venceu a final com a inacreditável marca de 8,90 metros, melhorando em 55 centímetros o recorde de Ralph Boston.

A americana Wyomia Tyus repetiu a vitória de Tóquio nos 100m e com novo recorde mundial de 11s.

No boxe, o americano George Foreman, mais tarde campeão mundial dos peso-pesados, ganhou a medalha de ouro nesta categoria e recebeu flores, que entregou ao soviético vice-campeão, num gesto muito aplaudido.

Na natação, o domínio americano foi muito amplo, ganhando 58 das 102 medalhas possíveis. No masculino, o destaque foi o alemão Roland Mathes, que venceu os 100 e 200m costas quando todos esperavam que o americano Mark Spitz fosse reinar.

A prova de melhor nível técnico foi o salto triplo, vencida pelo soviético Viktor Saneiev com 17,39m, novo recorde mundial. Durante a prova, o recorde mundial foi quebrado 5 vezes – 2 pelo italiano Giuseppe Gentile, que terminou em 3º com 17,22m, 2 vezes pelo soviético campeão e 1 pelo brasileiro Nelson Prudêncio, que em seu 5º salto marcou 17,27m e terminou com a medalha de prata.

A ginasta tcheca Vera Caslavska foi considerada a rainha dos Jogos, não só por suas 4 medalhas de ouro e 1 de prata, como por ser da invadida Tchecoslováquia. Além disso, casou-se, no último dia, com o atleta Josef Odlozil na catedral mexicana.

O Brasil participou nas modalidades: atletismo, remo, futebol (eliminado na 1ª fase por Espanha e Japão), natação (o destaque foi o 4º lugar de José Silvio Fiolo nos 100 metros peito e com 1min08s01. Fiolo havia vencido a sua eliminatória), vôlei, pólo aquático, tiro (no qual o atual presidente da Confederação Brasileira, Durval Guimarães, esteve participando), iatismo (medalha de bronze na classe Flying Dutchman para Reinaldo Conrad e Burkhard Cordes, que ganharam a última das 7 regatas; 7º lugar na classe Star para os irmãos Eric e Axel Schmidt), boxe (medalha de bronze para Servilio de Oliveira), esgrima, levantamento de peso, hipismo (novamente com Nelson Pessoa e a melhor colocação foi o 12º lugar de Lúcia Faria) e o basquete, que obteve a 4ª colocação.

O basquete do Brasil foi o 2º no grupo B, perdendo apenas para a URSS, por 76 a 65, mas derrotando Marrocos (98 a 52), Bulgária (75 a 59), México (60 a 53), Polônia (88 a 51), Coréia (91 a 59), e Cuba (84 a 68). Na semifinal, perdeu para os EUA (75 a 63) e novamente para a URSS (70 a 53) na disputa pelo 3º lugar. Os destaques eram Wlamir, Edvar, Mosquito, Ubiratan, Menon, Sucar, Rosa Branca e o jovem Hélio Rubens.

Este texto foi escrito por: Sergio Coutinho Nogueira

Redação Webrun

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