
Adhemar Ferreira da Silva: conquistou em Helsinqui a primeira medalha de ouro para o Brasil (foto: Interesportes)
Helsinqui havia sido escolhida para sediar os Jogos de 1940 depois da desistência de Tóquio mas, em virtude da 2ª Guerra, a disputa foi cancelada. O espírito olímpico reinou em Helsinqui e a hospitalidade finlandesa foi marcante. Diziam até que os finlandeses receberam tão bem os visitantes que, após terem mantido uma tradição de vitórias nas corridas de longa distância, não ganharam nenhuma medalha nestas provas, deixando-as com os visitantes e fazendo real o slogan “You First”.
Construiu-se um belo estádio para 70.000 pessoas em uma cidade com apenas 400.000 habitantes.
Foi a 1ª participação da União Soviética como força esportiva unificada pois, em 1948, havia enviado apenas técnicos e treinadores para acompanharem os Jogos. A Rússia não participava dos Jogos desde 1912. Participaram 5.867 atletas (sendo 573 mulheres) de 69 países em 17 esportes.
Os EUA ganharam 40 medalhas de ouro, enquanto a URSS recebia 22 medalhas de 1º lugar.
O Brasil, em sua melhor participação até então, obteve a medalha de ouro com Adhemar Ferreira da Silva no salto triplo e 2 medalhas de bronze (José Telles da Conceição, que havia sido jogador de futebol, no salto em altura, com 1,98m, e Tetsuo Okamoto nos 1.500 metros nado livre), além do 4º lugar de Ari Façanha de Sá no salto em distância, com 7,23m, e do 6º lugar no basquete.
Estes Jogos marcaram a despedida do sueco Sigfrid Edstron da presidência do Comitê Olímpico Internacional (COI), sendo substituído pelo americano Avery Brundage.
Os atletas ficaram separados politicamente por imposição da URSS. Os atletas dos países da cortina de ferro (URSS, Hungria, Polônia, Bulgária, Romênia e Tchecoslováquia) ficaram na Vila Velha, perto de uma base militar soviética. Apesar disso, os atletas russos demonstraram espírito fraternal e convidavam os demais para confraternizar, comer caviar e para intercâmbio de técnicas e táticas. Após a regata de 8 com timoneiro ,no remo, os soviéticos convidaram os campeões, os americanos, para uma confraternização.
Um dos grandes momentos dos Jogos foi quando Paavo Nurmi, o grande campeão de 1924 e 1928, entrou no estádio carregando a tocha olímpica e depois a passou para o grande Hannes Kolehmainen, herói dos Jogos de 1912. A escolha de Nurmi para entrar no estádio com a tocha teve alguma oposição do COI uma vez que ele havia sido impedido de competir nos Jogos de 1932 em Los Angeles por ter recebido premiação superior à permitida a época após os Jogos de 1928. Nurmi foi ovacionado longamente por todos os presentes à Cerimônia de Abertura
Emil Zatopek, tcheco, de 30 anos, foi o grande destaque dos Jogos, vencendo os 5.000m,10.000m e a maratona. Foi o único até hoje a conseguir este feito. Sua esposa, Dana, também venceu no lançamento do dardo.
O francês Alain Mimoun, excelente atleta, foi 2º nos 5.000m e 10.000m, enquanto o argentino Reinaldo Gorno foi medalha de prata na maratona.
O americano Harrison Dillard, que em Londres venceu os 100m rasos, em Helsinqui conseguiu a medalha de ouro em sua prova, os 110m com barreiras. E o seu compatriota Bob Mathias venceu novamente o decatlo.
O americano Walter Davis era mais um atleta que havia tido paralisia infantil (aos 8 anos) que recebia medalha de ouro em Jogos Olímpicos. Venceu no salto em altura com 2,04m.
A Jamaica, que já havia sido 1ª e 2ª nos 400m em Londres, repetiu a dose em Helsinqui e ainda obteve a medalha de ouro no revezamento 4 x 400m com novo recorde mundial de 3′.03″.09.
O jamaicano Herbert McKenley, que havia sido medalha de prata em 1948, conseguiu nova medalha de prata em Helsinqui nos 400 e 100m rasos, além de obter ouro no revezamento. Na final dos 100m, vencida pelo americano John Remigino, os 4 primeiros colocados fizeram exatamente o mesmo tempo – 10″04.
Os EUA dominaram o atletismo (14 medalhas de ouro), natação masculina (6 medalhas de ouro), boxe (5 medalhas de ouro) e basquete. A URSS dominou a ginástica e lutas, enquanto a Hungria liderou a natação feminina, futebol e pólo aquático.
Na disputa pelo 3º lugar no basquete, o Uruguai derrotou a Argentina por 68 a 59. Mas o jogo foi uma verdadeira luta de boxe e, ao final da partida, o Uruguai estava com 4 jogadores e a Argentina com 3, tendo sido expulsos ou penalizados todos os demais por excesso de faltas.
No boxe, o americano Floyd Patterson venceu na categoria peso-médio. Posteriormente, seria campeão mundial dos peso-pesados. Ainda no boxe, o sueco Ingmar Johansem, que depois seria também campeão mundial dos pesados derrotando Patterson, foi desclassificado da final por falta de combatividade, deixando de receber a medalha de prata, que ficou sem ganhador.
Nos 800 metros o americano Malvin Whitfield venceu com 1:49.2 derrotando o favorito e campeão dos 400 metros de 1948 o jamaicano Arthr Wint que fez 1:49.4. Wint que em Londres havia ganho o ouro nos 400 e prata nos 800 voltou a ganhar a medalha de prata nos 800 e deve ser registrado que entre os dois Jogos Olímpicos ele serviu o exército na Guerra da Coréia. Wint participou ainda em Helsinqui da medalha de ouro obtida pela Jamaica revezamento 4 x 400 em novo recorde mundial com 3:03.9
Um dos momentos mais emocionantes dos Jogos foi a vitória de Joseph Barthel nos 1.500m em 3:45.1 surpreendendo os favoritos. Barthel chorou muito após a surpreendente vitória e demonstrou grande emoção ao ouvir o hino nacional e ver a bandeira no topo do mastro de seu pequeno País, Luxemburgo.
Nos 3.000 metros com obstáculos o americano Horace Ashenfelter venceu com recorde mundial em 8:45.4 derrotando o soviético franco favorito Vladimir Kzantsev
Emil Zatopek que em Londres em 1948 havia ganho medalha de ouro nos 10.000 metros e prata nos 5.000 metros veio a Helsinqui para se consagrar. Inicialmente venceu com certa facilidade os 10.000 metros em 29:17.0, novo recorde olímpico derrotando o francês Alain Mimoun que já havia perdido para ele em 1948. Após os 10.000 metros esperava-se que Zatopek fosse disputar a Maratona, mas antes disso ele surpreendeu entrando na pista para disputar os 5.000 metros e nova medalha de ouro com 14:06.6, também novo recorde olímpico e derrotando uma vez mais ao francês Alain Mimoun com 14:07.4. Após os 5.000 metros Zatopek surpreendeu quando lhe perguntaram porque optara pelos 5.000 metros ao invés da maratona afirmando que disputaria também a maratona. E foi na Maratona que veio a consagração de Zatopek pois conseguiu sua 3ª medalha de ouro em Helsinqui sendo até os dias de hoje o único a conseguir vencer nos mesmo Jogos os 5.000,10.000 e Maratona ( Lasse Virem tentou repetir o feito em 1976, mas terminou a Maratona em 5º após ter vencido os 5.000 e 10.000 metros). Na Maratona Zatopek fez 2:23.03.2, novo recorde olímpico derrotando o argentino Reinaldo Gorno com 2:25.35.0. Deve ser destacada que esta era a estréia de Zatopek em Maratonas. Zatopel voltaria a competir em 1956 nos Jogos de Melbourne na Maratona e terminou em 6º,m as não se pode considerar um fracasso pois havia sido operado de hérnia do disco apenas 6 semanas antes
O Brasil participou nos seguintes esportes: levantamento de peso, boxe, tiro, esgrima, pentatlo moderno (6º por equipes), natação (medalha de bronze para Tetsuo Okamoto), pólo aquático, remo, iatismo, atletismo (medalhas de Adhemar Ferreira da Silva e José Telles da Conceição), futebol (eliminado nas quartas de final pela Alemanha), basquete (6º lugar) e hipismo (4º no individual com Eloy de Meneses e a 4ª colocação por equipes na Prova das Nações, surpreendendo com Renyldo Ferreira – capitão da equipe -, Álvaro Dias de Toledo e Eloy Massey Oliveira de Meneses).
Adhemar Ferreira da Silva venceu o salto triplo ao saltar 16,22, novo recorde mundial. Na prova, Adhemar superou o seu antigo recorde mundial por 4 vezes. Sua série de saltos foi excepcional, tendo registrado as seguintes marcas: 15,95m, 16,12m, 15,59m,16,09m, 15,98m, 16,22m e 16,05m. Adhemar, satisfeito e muito simpático, foi calorosamente aplaudido e deu a volta olímpica para receber uma grande aclamação, sendo assim o verdadeiro criador da Volta Olímpica para comemorar as vitórias.
Este texto foi escrito por: Sergio Coutinho Nogueira