Caminhada · 14 jun, 2005
Uma tarde dessas de verão sai para fazer um treino leve no Parque do Ibirapuera. O programado para aquele dia era uma rodagem em ritmo confortável, com freqüência cardíaca baixa, daqueles treinos que a gente vai curtindo o visual e pensando na vida!
Fazia muito calor, o clima estava seco, a poluição do ar bem elevada, pois há muito tempo não chovia em São Paulo. Logo no 3º quilômetro já comecei sentir algum mal estar, mas resolvi continuar o treino, pois sabia que poderia passar, assim como acontece muitas vezes, com praticamente todo mundo.
Para piorar as coisas, na noite anterior, o calor havia atrapalhado meu sono e o número de horas dormindo não foi o suficiente para recuperar o desgaste do dia agitado. Diminui o ritmo para ver se melhorava, mas ainda assim o desconforto não passou. Diminui mais ainda, a mente começou lutar contra o corpo, a tenção nos ombros foi aumentando, os batimentos cardíacos subindo, e, após mais algumas passadas sofridas, achei prudente interromper o treino, caminhar mais alguns quilômetros e pensar no dia seguinte, pois poderia pagar mais caro pela teimosia.
Diante daquela situação desconfortável, relaxei e ri ao lembrar da velha frase de corredor, que muita gente já disse em um treino ou prova, em tom de ironia: Socorro, tem um urso em minhas costas !
Todos nós, independente de nível técnico ou tempo de treinamento, já passamos por uma situação onde o corpo não corresponde, mesmo enfrentando um treino sem um grau de exigência física muito elevada. Os motivos são muitos como: alimentação inadequada para aquele dia, problemas emocionais, uma noite mal dormida, um dia tenso no trabalho, temperatura adversa, falta de recuperação adequada de um treino para o outro, indisposição estomacal, supertreinamento, gripe e etc.
No trabalho bem próximo com alunos e atletas, temos buscado fazer planilhas mais flexíveis e ouvir o máximo possível os orientados, antes, durante e após o treino. Se necessário, trocar a sessão de treino daquele dia por uma outra sessão ou diminuí-la, mesmo que para isso haja algum prejuízo ao plano da semana. Lógico, não se pode confundir este tipo de situação com a velha e famosa preguiça. É preciso estar sempre atento aquelas pessoas mais manhosas, que costumam amolecer, diante da primeira adversidade apresentada. Mas em geral é preciso que haja um plano de treino mais flexível, sobretudo, se considerarmos que o corpo não é uma máquina programada feito um computador, até porque, os computadores também dão problemas, e como dão!
Uma planilha de treinos flutuante seria uma boa solução para esse tipo de situação. Uma planilha onde haja a opção de percorrer uma quilometragem menor ou treinar em ritmo mais fraco, em dias de indisposição ou até aumentar um pouco o ritmo ou volume de treino, em dias onde o corpo sentir que está tudo sobre controle. Para isso, é necessário saber sentir o corpo, ficar atento as condições climáticas, e estar sempre bem perto da pessoa que elaborou seu treino. Daí, mais um ótimo motivo para treinar com orientação de um profissional qualificado, o mais próximo possível, evitar o auto-treinamento e fugir daquelas milagrosas planilhas de livros e revistas, preparadas como se fossem receitas de bolo!
É preciso saber respeitar os sinais do corpo. Algumas vezes será mesmo necessário buscar o limite daquele dia, principalmente quando se almeja uma prova importante ou um recorde pessoal, o que não é nenhum pecado. Todavia, é importante considerar que o resultado final de um objetivo, é a soma de vários treinos e descansos, e não somente o que você conseguiu produzir naquele dia.
Para treinar corretamente e obter sucesso é preciso muita sabedoria. Como diz a famosa frase: o rio atinge seus objetivos, pois aprendeu a contornar os obstáculos.
Bons treinos!
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