Planilhas coletivas

Treinamento de corrida não é receita de bolo!

O primeiro princípio básico do treinamento desportivo, por tanto uma das primeiras coisas que se aprende quando estudado o assunto, é o princípio da individualidade biológica. Trata-se da variabilidade ou diferença entre indivíduos da mesma espécie. Traduzindo, todos nós somos diferentes, embora pertençamos à mesma espécie. E , se é sabido que todos nós somos diferentes, não faz sentido que o treino que façamos não seja elaborado de acordo com nossas características individuais, muito menos que façamos vários o mesmo treino.

As diferenças entre cada indivíduo estão relacionadas a vários fatores como: peso, altura, sexo, idade, porcentual de gordura, predomínio de tais fibras musculares, freqüência cardíaca, Vo2 máximo e outras mais. Dividimos estas características entre Genótipo, que são as herdadas geneticamente, e Fenótipo, que são as adquiridas por influência do meio. O predomínio de determinadas fibras musculares no organismo, por exemplo, é definida pelo genótipo (herdada dos pais).

Já o VO2 máximo, também tem seu limite estabelecido geneticamente, mas em geral pode e é modificado de acordo com os estímulos de treinamento, pelo fenótipo. Conforme o indivíduo treina ou não, promove alterações em seu VO2 máximo.

Decidi escrever sobre este assunto, pois o que temos visto ultimamente é uma banalização absurda do treinamento de corrida. Pessoas prescrevendo treinamento de corrida coletivos em revistas, jornais e sites, como se fosse uma receita de bolo, sem considerar o básico que são as diferenças individuais.

Planilhas Coletivas - Um dia destes fui convidado a escrever para uma publicação de corrida, que me pedia para falar sobre treinamento para provas de 10 quilômetros e que prescrevesse uma planilha para um corredor que almejasse completar a prova abaixo de 45 minutos. Ora, a maioria dos colegas jornalistas de revistas já conhece de anos minha visão sobre prescrever treinamento sem que haja um personagem específico. Para ser bem sincero, faço questão de dizer que não treino ninguém à distância, sem que o veja correndo pelo menos uma vez por semana.

Costumo até dispensar aqueles corredores que não frequentam os treinos, mesmo que paguem em dia, e nego dezenas de convites para treinar pessoas de outros estados, que não consiga ver durante os treinos.

Aceitei responder às muitas perguntas do jornalista e publicar a planilha de um aluno de nosso grupo, desde que na publicação ficasse muito claro que aquela planilha foi elaborada para ele e que fossem descritas várias de suas características como: profissão, objetivo, tempo, fase do treinamento, tempos em outras provas, limiares ventilatórios , etc. A ideia era mostrar ao leitor a complexidade de um treinamento sério e nunca prescrever uma receita para que os que almejassem correr naquele tempo seguissem.

Para minha grande surpresa, a revista não colocou os dados e disse que aquele era um treinamento por mim recomendado às pessoas que quisessem seguir e fazer o tempo. Errado. Treinamento de corrida não é receita de bolo.

A prescrição de treinamentos coletivos passa longe de ser um prestação de serviço ao leitor, sobretudo por colocar em risco sua saúde, sem que haja um profissional de Educação Física o acompanhando de perto, que possa intervir se possível diariamente, modificando o treinamento e fazendo os ajustes, conforme as necessidades e alterações do treinando.

Um executivo, por exemplo, que não almoçou, teve um dia tenso e chega ao treino estressado, de forma alguma deverá realizar um treinamento intervalado ou algo forte, pois estaria colocando sua integridade física em sérios riscos. Assim uma corredora em determinadas fases do ciclo menstrual e por aí vai. Cada caso é um caso e merece atenção especial.

Cada corredor deve ter seu treino elaborado de acordo com suas características, mas sempre por um profissional de educação física que estudou muito para isso e que esteja sempre o mais próximo possível. Hoje é moderno dizer que há um site onde você coloca alguns dados seus e ele elabora seu treinamento, ou que você mora em outro país, mas conta com o suporte de um treinador virtual, que viu os resultados de seus testes de laboratório e elaborou seu treinamento, mesmo sem nunca o ter visto correndo.

Dinheiro X Ética - Também já fui convidado para coordenar um projeto destes onde alimentaria um site de treinamentos e ganharia muito bem. Porém, neguei sem hesitar, pois penso que é ilegal ou no mínimo amoral adquirir dinheiro ou fama colocando em risco a saúde dos outros.

Não vemos os colegas da área médica prescrevendo tratamentos coletivos em revistas ou sites. Eles sabem que é um absurdo e que o Conselho Regional de Medicina os advertiria seriamente. Mas por que vemos treinadores de corrida prescrevendo planilhas coletivas sem se quer ter visto uma vez quem as realizará? E se a pessoa corre descoordenada, cárdica, tem diabetes, hipertensão e nem se quer passou por uma avaliação médica? Quem deve ser responsabilizado pela saúde do corredor quando este segue um treinamento publicado e sofre algum tipo de problema?

Precisamos levar mais a sério e deixar de banalizar o treinamento de corrida ou de qualquer modalidade que seja. O corpo humano não é uma máquina que reage igualmente conforme o modelo e todos os dias. A justificativa de querer popularizar o esporte e incentivar a população a fazer atividades físicas, porém colocando em risco a saúde, não se justifica. Se queremos fomentar a prática esportiva, sobretudo devemos fazê-lo com responsabilidade, em momento algum colocando os interesses comerciais e financeiros acima da integridade física do cidadão.


Treinamento de corrida não é receita de bolo!

Corridas de Rua · 07 abr, 2011

O primeiro princípio básico do treinamento desportivo, por tanto uma das primeiras coisas que se aprende quando estudado o assunto, é o princípio da individualidade biológica. Trata-se da variabilidade ou diferença entre indivíduos da mesma espécie. Traduzindo, todos nós somos diferentes, embora pertençamos à mesma espécie. E , se é sabido que todos nós somos diferentes, não faz sentido que o treino que façamos não seja elaborado de acordo com nossas características individuais, muito menos que façamos vários o mesmo treino.

As diferenças entre cada indivíduo estão relacionadas a vários fatores como: peso, altura, sexo, idade, porcentual de gordura, predomínio de tais fibras musculares, freqüência cardíaca, Vo2 máximo e outras mais. Dividimos estas características entre Genótipo, que são as herdadas geneticamente, e Fenótipo, que são as adquiridas por influência do meio. O predomínio de determinadas fibras musculares no organismo, por exemplo, é definida pelo genótipo (herdada dos pais).

Já o VO2 máximo, também tem seu limite estabelecido geneticamente, mas em geral pode e é modificado de acordo com os estímulos de treinamento, pelo fenótipo. Conforme o indivíduo treina ou não, promove alterações em seu VO2 máximo.

Decidi escrever sobre este assunto, pois o que temos visto ultimamente é uma banalização absurda do treinamento de corrida. Pessoas prescrevendo treinamento de corrida coletivos em revistas, jornais e sites, como se fosse uma receita de bolo, sem considerar o básico que são as diferenças individuais.

Planilhas Coletivas - Um dia destes fui convidado a escrever para uma publicação de corrida, que me pedia para falar sobre treinamento para provas de 10 quilômetros e que prescrevesse uma planilha para um corredor que almejasse completar a prova abaixo de 45 minutos. Ora, a maioria dos colegas jornalistas de revistas já conhece de anos minha visão sobre prescrever treinamento sem que haja um personagem específico. Para ser bem sincero, faço questão de dizer que não treino ninguém à distância, sem que o veja correndo pelo menos uma vez por semana.

Costumo até dispensar aqueles corredores que não frequentam os treinos, mesmo que paguem em dia, e nego dezenas de convites para treinar pessoas de outros estados, que não consiga ver durante os treinos.

Aceitei responder às muitas perguntas do jornalista e publicar a planilha de um aluno de nosso grupo, desde que na publicação ficasse muito claro que aquela planilha foi elaborada para ele e que fossem descritas várias de suas características como: profissão, objetivo, tempo, fase do treinamento, tempos em outras provas, limiares ventilatórios , etc. A ideia era mostrar ao leitor a complexidade de um treinamento sério e nunca prescrever uma receita para que os que almejassem correr naquele tempo seguissem.

Para minha grande surpresa, a revista não colocou os dados e disse que aquele era um treinamento por mim recomendado às pessoas que quisessem seguir e fazer o tempo. Errado. Treinamento de corrida não é receita de bolo.

A prescrição de treinamentos coletivos passa longe de ser um prestação de serviço ao leitor, sobretudo por colocar em risco sua saúde, sem que haja um profissional de Educação Física o acompanhando de perto, que possa intervir se possível diariamente, modificando o treinamento e fazendo os ajustes, conforme as necessidades e alterações do treinando.

Um executivo, por exemplo, que não almoçou, teve um dia tenso e chega ao treino estressado, de forma alguma deverá realizar um treinamento intervalado ou algo forte, pois estaria colocando sua integridade física em sérios riscos. Assim uma corredora em determinadas fases do ciclo menstrual e por aí vai. Cada caso é um caso e merece atenção especial.

Cada corredor deve ter seu treino elaborado de acordo com suas características, mas sempre por um profissional de educação física que estudou muito para isso e que esteja sempre o mais próximo possível. Hoje é moderno dizer que há um site onde você coloca alguns dados seus e ele elabora seu treinamento, ou que você mora em outro país, mas conta com o suporte de um treinador virtual, que viu os resultados de seus testes de laboratório e elaborou seu treinamento, mesmo sem nunca o ter visto correndo.

Dinheiro X Ética - Também já fui convidado para coordenar um projeto destes onde alimentaria um site de treinamentos e ganharia muito bem. Porém, neguei sem hesitar, pois penso que é ilegal ou no mínimo amoral adquirir dinheiro ou fama colocando em risco a saúde dos outros.

Não vemos os colegas da área médica prescrevendo tratamentos coletivos em revistas ou sites. Eles sabem que é um absurdo e que o Conselho Regional de Medicina os advertiria seriamente. Mas por que vemos treinadores de corrida prescrevendo planilhas coletivas sem se quer ter visto uma vez quem as realizará? E se a pessoa corre descoordenada, cárdica, tem diabetes, hipertensão e nem se quer passou por uma avaliação médica? Quem deve ser responsabilizado pela saúde do corredor quando este segue um treinamento publicado e sofre algum tipo de problema?

Precisamos levar mais a sério e deixar de banalizar o treinamento de corrida ou de qualquer modalidade que seja. O corpo humano não é uma máquina que reage igualmente conforme o modelo e todos os dias. A justificativa de querer popularizar o esporte e incentivar a população a fazer atividades físicas, porém colocando em risco a saúde, não se justifica. Se queremos fomentar a prática esportiva, sobretudo devemos fazê-lo com responsabilidade, em momento algum colocando os interesses comerciais e financeiros acima da integridade física do cidadão.