Segundo: Tempo importa?
Tenho um certo volume de treino, porque costumo participar de provas de 21km de trilha, mas quando o treinamento específico para os 42km de asfalto começou, eu soube de cara que o jogo seria diferente. Eu tenho resistência e um bom condicionamento cardiovascular, mas e velocidade? Precisaria muito desenvolver essa parte, que obviamente é a mais desgastante de se treinar, porque não sou de ir para uma prova pensando só em terminar. Queria terminar bem, sem desabar no final (acabei desabando na chegada, mas por outro motivo, que conto mais à frente).
Quem me acompanha no Instagram, me viu encaixando sessões de fisioterapia, acupuntura, muito gelo e fortalecimento nos meus horários livres entre trabalho e treino. Fui driblando alguns problemas que tenho nos pés (joanete, sesamoidite, fascite plantar…) e aumentando o volume, ganhando um pouco de velocidade, derrubando todos meus recordes pessoais. Acima de tudo, fui ganhando confiança. Essa mesma confiança, junto com a benção da ignorância, me fez acreditar que conseguiria um tempo bem melhor do que o que acabou saindo.
Não me levem a mal, fazer 3h54min20 na primeira vez é de se orgulhar muito, mas é aqui que os que os dois pensamentos iniciais de juntam: é preciso passar por uma experiência para sair dela com a vontade de fazer melhor. O tempo importa porque ele vira meta a ser batida. Agora, eu já sei como é. Não adiantou em nada ouvir tantos relatos sobre o muro dos 33km, sobre como as pernas ficam pesadas, sobre como a última parte é corrida com a mente e o coração. Só vivendo na pele é possível entender.
“Relata essa corrida de uma vez, Pri!”
O dia começou às 3h40 da madrugada, com o script do ritual todo definido: água quente com limão, tapioca com banana, proteína vegetal com suco de fruta, escova os dentes, protetor solar, veste a roupa definida depois de um mês de testes de cada item, solta um pouco a musculatura dos pés e pernas com rolinho, prende cabelo, confere o que vai no guarda-volume, separa o lanchinho pré-prova, ajeita a suplementação intra-prova nos bolsos, chama o Uber, chega no local de largada, vai no banheiro (importantíssimo), guarda-volumes, aquecimento, come o lanchinho, se posiciona na largada e VAI!
A minha onda de largada foi a segunda, grupo C, às 6h10. Eu estava assustadoramente calma, meio inerte até, quase fora do corpo. Apenas observada tudo à minha volta. Nenhum pensamento passava pela minha mente, nenhum sentimento pelo meu coração. Por muitas semanas, eu só queria que esse dia chegasse de uma vez e agora lá estava eu, há alguns segundos de começar essa experiência transformadora, com a mente limpa, pronta pra absorver cada segundo desse dia. Eu estava pronta, segura, nada iria dar errado.
5, 4, 3, 2, 1… Buzina, valendo!
Começamos a prova ainda de noite, fresquinho, perfeito.
O Goes me mandou dividir os 42km em 4 partes, a estratégia para a primeira parte era não gastar muita energia. Correr confortável. Segui o plano e nem vi passar os primeiros 10km, que pra mim é a parte mais interessante do percurso todo, pelo centro antigo de São Paulo. Escolhi não levar o Ipod porque queria prestar atenção nas ruas, na cidade, ouvir minhas passadas, conversar com as pessoas e acima de tudo: me molhar bastante em toda oportunidade possível. Com certeza, foi uma ótima decisão.
Quando o Sol nasceu, eu já estava perto do Largo São Francisco. Um crepúsculo rosa lindo, ocasionado pela ‘maravilhosa’ massa de poluição que encobre São Paulo. Era entretenimento por todos os lados. Pessoas voltando da balada, trabalhadores começando o dia… Banda na esquina da Rua Ipiranga com a Av. São João, músicos ao lado do Teatro Municipal… Mas o primeiro momento que fez meu coração apertar de fato foi passar em frente aos destroços do prédio que desabou no Largo do Paissandú, e logo em seguida pelo acampamento das pessoas que ficaram desabrigadas, em volta da igreja. Não sou religiosa, mas saiu um “Deus abençoe” da minha boca.

Foto: Arquivo pessoal
Nesse começo de prova, um corredor me perguntou qual era meu objetivo, se queria fazer sub4h, e colou na minha. Contra as orientações do treinador, fui correndo com o Eduardo por boa parte da prova, mas impondo o meu ritmo. Dei algumas dicas de como correr melhor nas subidas e descidas e trocamos algumas experiências de tempos em tempos. Foi ótimo pro tempo passar mais rápido. Fechamos os primeiros 10km pra 53h40.
Um salve pras minhas montanhas, porque enquanto a galera xingava a subida da 23 de Maio, por volta do km 12, fomos navegando tranquilamente por ela. Sinceramente, eu nem a senti. Quando saímos pro Parque Ibirapuera, eu me sentia muito bem! Ali, tinham algumas pessoas na torcida com cartazes. Alguns fotógrafos com caixinhas de som… Foi me batendo o pensamento de que a Meia Maratona já estava quase acabando.
O clima, apesar de seco, seguia nublado e fresco. Perfeito para correr. Passamos pelo primeiro e segundo túneis, mas novamente não reclamei, estava focada. A única coisa que notei é que o asfalto dentro deles era bem mais duro que o das ruas. Fora isso, não me incomodou em nada. O Eduardo, que estava correndo comigo, é uma pessoa positiva, então o mantive por perto. Não tem nada pior que gente reclamando do seu lado. Energia negativa contamina e em uma Maratona pode ser perigosíssimo.
Passamos pela linha de chegada da Meia Maratona com 1h53min27. Eu me sentia muito feliz de estar indo para os 42km. A prova estava uma delícia, e eu não queria que acabasse ali, tão rápido. Neste momento, eu pensava que conseguiria fazer um tempo por volta de 3h40, 3h45, mas sabia que psicologicamente, esse seria o pior trecho do percurso. Fora todo o acúmulo do cansaço, a segunda metade da prova é basicamente o meu quintal, onde faço quase todos os meus treinos. Nada seria novidade, nada me entreteria… As 3 longas retas da Fonseca Rodrigues, Raia da USP e Escola Politécnica não teriam fim.

Foto: Arquivo pessoal
Quando estávamos na Afrânio Peixoto, um pouco antes da Ponte da Cidade Universitária, os primeiros colocados já começavam a passar pelo outro lado. Isso significava que eles já tinham feito 17kms a mais do que nós. É subconsciente, mas não tem como não se colocar em perspectivas e ver o quanto ainda tínhamos pela frente.
Fui focando em manter a alimentação e hidratação impecáveis, porque a única coisa que eu poderia fazer agora seria isso. Ao todo, eu havia levado 3 sachês de gel de carboidrato, 3 cápsulas de sal, um pouco de castanhas com uva passa e um sachê de aminoácidos. Fora isso, eu fui consumindo tudo o que a prova oferecia. O que foi excelente, por sinal.
Dei alguns goles em todos os postos de isotônicos, pegava garrafinha de água em todos os postos de hidratação (as que eu não tomei inteiras, joguei nas pernas e peguei uma nova), comi todas as bananas, os dois géis que ofereceram, bala de goma, refrigerante, tudo!
Até por volta do km 28, eu não sentia absolutamente nenhuma dor. Mas à partir dali, as pernas começaram a pesar e o ritmo baixar. Era uma luta pra manter o pace abaixo de 6 min/km. Ainda na USP, pelo km 30, o Eduardo começou a diminuir, e eu acabei desgarrando. Combinamos de nos encontrar na chegada, mas acabei não o vendo mais.
Agora, era eu e a distância. Lembrei de tudo que o treinador me passou, me foquei, concentrei no ritmo, na respiração. Visualizei a chegada. Mas os quilômetros pareciam não passar. Comecei a sentir desconforto no estômago e minhas glândulas salivares começaram a entrar em super produção. Eu já tive esse problema outras vezes. Fico salivando grosso e cuspindo, salivando e cuspindo. Um incômodo muito grande que vem junto com ânsia de vômito.
Felizmente, no trecho final tinha bastante torcida. Isso fez uma diferença enorme. Não que eu tenha conseguido correr mais rápido, mas pelo menos me mantive entretida e tentei não focar nas dores. Fiquei imaginando como deve ser correr uma prova como Nova York e Londres em que quase todo o percurso é assim. Deve ser lindo demais.
Algo que eu não havia previsto era a emoção incontrolável dos últimos metros. A cada palavra de incentivo das pessoas, eu me emocionava. Completamente oposto ao começo da corrida, quando me sentia esvaziada de sentimentos.
FALTAM 500 METROS: Eu não acredito que está acabando!
FALTAM 400 METROS: “Força, guerreira!”
FALTAM 300 METROS: Não consigo respirar, por causa do choro…
FALTAM 200 METROS: Não existe nada igual a essa sensação…
FALTAM 100 METROS: Curva de entrada do jockey. A linha de chegada está logo ali. O locutor falando para lembrarmos de tudo que passamos para chegar neste momento.
Passo pelo pórtico em prantos. Meio desnorteada, sento no chão e me escondo um pouco. Não pelo cansaço. Desabo de felicidade e de orgulho. Eu corri uma maratona, e eu nunca mais serei a mesma.