
No dia das mães, minha filha me deu de presente uma experiência de mergulho. Depois de alguns adiamentos devido a condições meteorológicas e agendas, finalmente aproveitamos o último domingo e fomos para a Laje de Santos, litoral de São Paulo, sem medo de sermos felizes.
Tenho nome de Rainha das Águas (Yara), sou do signo de Peixes, mas tenho medo de água, de mar, de profundidade, de onde não consigo colocar o pé no chão. Um medo irracional, do nada. Ou que talvez tenha surgido na adolescência quando, ainda fazendo aulas de natação, dei um salto numa piscina de uns dois metros de profundidade, pensando em tocar o chão, pegar impulso e subir novamente – só que não achei o chão e me desesperei para voltar à tona. Nada aconteceu, só um leve desespero. O tempo passou e pensei que tinha passado.
Enfim, domingo lindo de sol, estava animadíssima com o programa, fazer uma coisa diferente, estar com minha filha (que se apaixonou por mergulho e quis dividir um pouco desse mundo comigo).

PRIMEIRAS INSTRUÇÕES
Lá atrás, quando ela me convidou, aceitei sem titubear. No carro, indo para a marina, em São Vicente, eu estava tranquilona. Pegando a roupa de mergulho, tudo era o máximo. Aí veio o briefing com o instrutor, o Estrela.
(Ele) O barco balança, é normal enjoar, se passar mal tudo bem.
(Eu, em pensamento) Comigo não tem isso, não enjoo.
(Ele) Vamos colocar a máscara, você faz assim, assim… Na boca o respirador, você faz assim, assim…
(Eu, prestando uma atenção absurda e já sentindo o coração dar uma aceleradinha e pensando) Tá, fácil. É só fazer assim, assim…
(Ele) Eu vou desinflar seu colete, a gente desce pela corda de segurança. Pode dar uma dor, um incômodo no ouvido pela pressão, daí você faz assim, assim… Lá embaixo vou te dar a mão. E como não vamos conseguir falar, vamos combinar uns sinais para que eu possa saber se está tudo bem com você. Assim (fazendo um sinal) é ok; assim (outro sinal) é vamos descer um pouco mais; assim é vamos subir.
Estava vidrada nas palavras e nos gestos dele, tentando decorar tudo.
Entramos no barco, com mais umas 10 pessoas, legais, animadas, todas ali com alguma experiência em mergulho – eu a única novata.
No barco, mais um briefing de como seria o passeio. Uma hora e meia de navegação até a Laje, o mar estava um pouco agitado, poderíamos enjoar…
Aguentei firme e não senti nada, nenhum desconforto até nosso ponto de parada.
Assim que paramos, as pessoas finalizaram seus preparativos, vestindo a roupa, pegando os cilindros. Primeiro iria o grupo experiente – e minha filha estava entre eles. Se eu quisesse, poderia ir para o mar e ficar na superfície me acostumando com a temperatura da água. Preferi permanecer no barco, tomando sol, trocando ideia com o capitão Serginho. Estava tensa – tentando disfarçar – e torcendo para que demorassem a voltar.


CHEGOU A HORA. VAMOS?
Mas voltaram e perguntaram se eu não ia – afinal, ainda nem tinha vestido direito a roupa de mergulho. Fiquei enrolando um pouco. O instrutor Estrela, com a maior paciência, me esperando.
OK, me vesti. Coração na boca. Medo. Pânico. Cheguei ao lado do barco e vomitei de nervoso. Pedi um tempinho. Me acalmei um pouco, bebi água.
Coloquei a máscara na testa, vesti o colete com o cilindro. Sentei na base de onde saltaria. Vomitei de novo. Pedi para esperar um pouco mais. Bebi mais água. Pensei que eu tinha de me acalmar. Então me senti pronta.

Segui as instruções e dei o passo para cair no mar. A gente cai no mar e logo vem à superfície porque está com o colete para boiar.
Mas assim que flutuei, já ao lado do instrutor, disse:
– Não dá, não vou. Tenho medo.
No barco, acho que todo mundo estava na expectativa.
O Estrela pediu que eu colocasse o respirador na boca, que vestisse a máscara e apenas colocasse a cabeça no mar, para enxergar lá embaixo. Fiz isso, voltei e falei:
– Não dá, não vou (coração acelerado, eu em pânico).

Ele foi conversando comigo, pedindo que eu sentisse a respiração pela boca, foi me acalmando. Eu pensando que tinha de me acalmar, controlando minha respiração, minha cabeça. Ele disse que iríamos quando eu estivesse pronta. Até que eu decidi: ok, vamos.
Primeiro fomos até a corda de segurança, onde ele ia desinflar meu colete. Agarrei e pensei que não soltaria por nada. Colete desinflado, começamos a descer. Mas tem que soltar da corda para dar um rolê, né? Aí o Estrela me ofereceu a mão e partimos.
Eu ainda estava tensa. Uma mão segurando a dele e a outra no respirador na boca, pensando que minha vida dependia de respirar por ali – ok, sou dramática!
Daí ele começou a fazer aqueles sinais que tínhamos combinado – e eu não lembrava mais nada. Só sabia fazer ok.
Conforme descíamos, ele me apontava uns peixes.
E eu pensava – ok, peixinho bonitinho, agora podemos subir. Não relaxei de primeira. A pressão no ouvido também incomodava, por mais que eu fizesse o que tinha sido recomendado, a pressão fazia doer meus ouvidos e minha cabeça, como se o cérebro fosse explodir – sim, sou dramática mesmo.
Voltamos à superfície. Ele perguntou se estava tudo bem, se eu queria ir um pouco mais. Eu disse que sim, um pouco mais relaxada. A respiração já estava controlada. O coração em compasso normal.
Descemos mais uma vez, um pouco melhor, um pouco mais fundo, achando os peixinhos mais legais e bonitinhos, pensando na imensidão do mundo e do mar. Mas ainda com uma mão na mão do Estrela e a outra no respirador. Eu até queria ir mais fundo, olhar com mais calma aquele mundo subaquático. Mas o que me fez voltar foi a dor no ouvido.
De volta à tona, eu exibia um sorrisão. Feliz. Nessa altura estava quase pedindo para descer de novo. Porém, era hora do outro grupo voltar a mergulhar.

Eu pareço corajosa, destemida. E acho que sou em várias situações. Mas não em tudo. O medo do mergulho, o enfrentar essa situação de pânico, me colocou muito em contato comigo mesma, me fez pensar que não sou “super corajosa”, que tenho medo – e que não devo vestir essa “fantasia” de “super mulher”. Mergulhei não para provar que sou “guerreira”, “que para mim não existe obstáculo”, “que eu enfrento tudo”- decidi descer porque realmente me acalmei, porque entendi o funcionamento do respirador, senti segurança nas palavras do instrutor e quis pelo menos experimentar o que era mergulhar de cilindro. Não me chame de super, porque não sou mesmo.
Sou uma mulher que está vivendo a vida depois dos 50 com tudo o que ela tem a oferecer, com medos, descobertas, dores e delícias.

P.S. Durante a corridinha de ontem, a imagem do mergulho, o respirador na minha boca, a sensação do ar fresco entrando nos meus pulmões, me ajudaram a fazer um bom treino.
* No Instagram você me acha como @yaraachoa e @avidadepoisdos50 ?