Pessoas queridas, acharam que o post era continuação da mentira de 1º de abril né? Né nada, o post é de verdade, aliás, é sobre algumas verdades sobre este nosso mundinho corredor que ninguém fala –mas que eu adoraria ter sabido quando comecei a correr. Teria me poupado alguns sustos, expressões de baixo calão e gafes daquelas que você sai assobiando e andando de lado tipo a saída pela direita do Leão da Montanha, fingindo que você não teve nada a ver com a coisa.
Ah, e por que 6 coisas e não 5 ou 7? Porque as listas normalmente são 5 ou 10 e porque eu quis oras. Mas os comentários estão, como sempre, de braços abertos para transformar a lista em 10 ou mais coisas.
Ah sim, só para garantir acaba de comer aí antes de ler, especialmente se você é um Ser que Tem Nojinho.

1. Correr faz o nariz pingar – especialmente se você mora em locais limpos e despoluídos como São Paulo, seu nariz já deve vir com uma camada de fuligem permanentemente acoplada ao seu interior. Quando você começa a correr, tudo isso tende a se liquefazer, ou seja, escorre ou, se você é uma pessoa discreta, apenas pinga. Não precisa fazer cara de ECA, não é nada exagerado, mas principalmente quando você começa a se aquecer de verdade na corrida, rola uma fungadinha. Como lidar? Quem está começando a correr, tende a se iludir achando que vai conseguir resolver o problema com classe e elegância, ou seja, levando um mimoso lencinho de papel (ou papel higiênico mesmo). Essa postura cheia de finesse não costuma durar muito, porque carregar papel e principalmente pegar, desdobrar, usar e esperar até ver um lixo para jogar fora não é algo muito prático durante a corrida. O papel fica molhado de suor antes de você conseguir usar, o lixo demora MUITO a surgir ou o processo todo atrapalha horrores. Pronto, você acaba de entender porque na corrida a tendência é usar aquele método bonito de se ver, aquele mesmo que não exige lenço, só um pouco de mira, um sopro forte, coordenação motora para não acertar o colego ou o próprio tênis e naturalidade para com os fluidos corporais.
2. Nem toda roupa esportiva serve para correr -eis aí uma Verdade que acaba afetando mais as mulheres do que os homens, por uma questão de quantidade: o moço corredor típico costuma ter uns 3 shorts e talvez uma calça, além de camisetas aleatórias tipo as que vem nos kits das provas (a não ser que more em um lugar que faz frio de verdade, que aí precisa de mais calças e acessórios invernais). Já as mulheres sabem que ter opções é uma coisa boa e que o cara do Paradoxo da Escolha não entende nada de outfit. Mas independente do sexo do corredor (e tá, eu sei que tem mulheres super minimalistas e zero consumistas e homens com um closet dedicado apenas a corrida), existe um mundo de roupas QUE TE ENGANAM. Elas fingem que servem para correr mas não servem. São calças, shorts, tops, saias, meias ou bermudas que ficam ótimos quando você prova mas que assim que se começa a correr começam a cair. Isso mesmo, eu disse CAIR, ou melhor, não ficam onde deveriam e obrigam você a fazer um funcional durante o tiro, juntando os movimentos da corrida com os de levantar a bendita. Fora as meias que o tênis come e os shorts que te assam a perna. Para as moças, ainda tem questões adicionais, como o top: você só vai saber se comprou certo depois de correr 1h ou mais com ele (alguns em 10min já dá para saber que rasgou dinheiro).
3. Não é qualquer lanche que combina com corrida – então você sabe que hoje é dia de treino e quer garantir que não vai faltar combustível na hora do tiro. Pessoa super saudável, conscienciosa e responsável que você é, decide tomar um café da manhã ou lanche bacana uma ou duas horas antes do treino. Perfeito né? Só que quando começa a correr, você ainda não sabe que comidas vão ter quais efeitos no seu corpo corredor. Porque deixa eu te contar uma coisa: correr faz seu intestino funcionar melhor. Que bom! Só que nem sempre isso acontece em horários apropriados, então escolha bem seu lanchinho –no mínimo você evita de ficar conversando com aquele queijo quente o treino todo. No quesito tipos de alimento, é que nem… gosto, cada um tem o seu. Eu me dou super bem com coisas bizarras como banana + creme de amendoim ou iogurte com morango ou ainda torrada com queijo cottage temperada com azeite e pimenta calabresa. Ah, e um cafezinho! Mas eu sou um tipo de alien e você pode ser feliz com uma comportada torrada com geléia. Mas acredite em mim, vale a pena ir testando aos poucos.. E no começo mapear os banheiros no seu percurso, just in case.
4. Correndo você seca, mas também pode engordar – essa mata de desgosto qualquer um que vê no tênis um eliminador de bóias, daquelas que ficam em volta da cintura. A verdade é que a maioria das pessoas emagrece quando começa a correr, principalmente se era sedentária antes. O problema é que, depois de um tempo, nosso esperto corpo acostuma com o exercício e aí para tudo. Quem começa a correr provas longas então, acontece direto. A pessoa fica Olivia Palito fazendo aqueles longões intermináveis N vezes por semana, faz a tal prova e 1 mês depois quando vai ver… ganhou uns quilitos. O motivo é um mix de coisas, mas a principal é que você provavelmente continuou comendo no modo endurance só que o ritmo dos treinos diminuiu bem, ou seja, a prova acabou mas seu apetite não. Também pode ser que você ainda não esteja assimilando bem o volume de treinos para as provas (o que é normal no começo), e o corpo sinta bastante o ritmo puxado e tente acumular o máximo de energia (gordura) que conseguir, tipo comeu – armazenou. Ou então você simplesmente acha que correr é um passe livre para comer tudo o que faz a bóia crescer. Se você se identificou, calma que tem jeito: manera na alimentação ESPECIALMENTE no pós prova e para de usar o treino de tiro como desculpa para se acabar na cerveja com acepipes. Simples assim.
5. O céu não é o limite – começar a correr é uma delícia. Você sai da caminhada com trotinho para seus primeiros 5K muito rápido, o que deixa qualquer pessoa minimamente corredora feliz e animada. A evolução dá gosto de ver: a cada provinha a gente melhora 3min, as vezes até 5min ou mais. Nossa performance vai igual o Superhomem, para o alto e avante. Só que uma hora, essa alegria acaba. Claro que essa hora é diferente para cada um e para alguns ela continua e se transforma em disputa acirrada por pódios. Mas para a maioria, existe um teto, um limite para o quanto dá para melhorar o tempo de tiro, de 10K, de maratona ou de ultra. É aquele momento em que diminuir 2 segundos no seu tiro de 1K é uma missão quase impossível (as vezes nem quase). Só que nem sempre a gente está preparado para isso, e quando acontece rola uma frustração que faz muita gente parar de correr. Não façam isso! Porque sempre tem outro foco para dar no seu treino. Se realmente você chegou no seu limite físico possível de velocidade, sempre dá para melhorar a endurance e começar a tentar provas mais longas ou ao contrário. Se você é das montanhas, talvez não dê para correr muito mais rápido, mas sempre dá para melhorar sua técnica de atravessar rios, correr em pedras, pular raízes e descer em encostas íngremes e escorregadias –e isso melhora MUITO seu tempo nesse tipo de prova. Du-vi-de-o-dó que você já esgotou todas estas alternativas e que chegou no máximo dos máximos tanto na sua velocidade quanto na sua técnica e na sua endurance. E se chegou (parabéns me dá um autógrafo por favor), sugiro acrescentar outras modalidades no seu treino: coloca bike, tenta um triathlon, acrescenta funcional, yoga, remo. Só não vale parar de correr.
6. Você vai mudar sim – esse papinho de que correr é só um hobby que comecei para perder uns quilos não dá certo não, pessoas. Porque quem pensa assim já enjoou de correr e nem vai ler este post. Quem começa a correr e gosta, é que nem testemunha de milagre, vira devoto para sempre e ainda tenta convencer os outros de que é super legal. Então se você começou a correr garantindo para seus amigos da balada que nada vai mudar, você MENTIU. Se você jurou para sua cara metade que os treinos não vão afetar em nada seu dia a dia a dois, você está definitivamente em maus lençóis. Porque a verdade é que você MUDA. Na minha singela opinião, muda para melhor, mas há controvérsias. Mas é inevitável que você admita a contragosto que não dá muito certo comer uma feijoada com caipirinha e ir treinar no dia seguinte com gás total. Ou que a falta de sono faz sua performance encolher de forma lamentável, assim como uma romântica noite de queijos e vinhos (muitos vinhos). Daí o próximo passo é fingir que esqueceu o convite para aquela festa, passar a balada para sábado a noite para poder ir dormir 6ª feira mais cedo e treinar sabadão de manhã. Logo você vai começar a achar estranho que final de semana 10h30 da manhã a galera ainda está dormindo e bocejar naquela reuniãozinha as 8 da noite. Isso sem falar no crescente interesse em acompanhar provas, blogs, sites e revistas de corrida e no renovado interesse em alimentação e treinamento físico. É chato? Bom, só para quem não corre. Você pode com certeza não se transformar em uma pessoa monotemática (por favor não vire um ser uniassunto), mas que a corrida passa a ter um papel importante na sua vida, isso passa. Então minha recomendação na ala sentimental é se arrumar com alguém que também curta algum esporte (não precisa ser o seu), porque mesmo os mais compreensivos uma hora se cansam se não tiverem nada similar ao seu longão de 4h. Quanto aos amigos, aí cabem vários grupos na nossa vida, né não? Abrace a diversidade, não se irrite com as piadinhas e inclua corredores em um destes grupos. Só para já com o discurso “ninguém muda por causa da corrida”.
Este texto foi escrito por: CORREDORA ZEN 🙂