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1970-01-01 -
Manuela ocupa o lugar de destaque na premiação da prova (foto: Manuela Vilaseca/ Divulgação)
Manuela ocupa o lugar de destaque na premiação da prova (foto: Manuela Vilaseca/ Divulgação)

Correr para vencer você mesmo. Correr para superar seu adversário interior, seus limites físicos e psicológicos. Esse é o objetivo maior da ultramaratona Monte Fuji, que circunda um dos vulcões mais icônicos do mundo. Confira a seguir o relato da multiesportista Manuela Vilaseca, que participou do percurso de 85 quilômetros e venceu a prova com o tempo de 11h36min18.

Muito difícil começar a escrever sobre essa prova. Acho que na verdade é porque não sei por onde começar, já que tantas coisas aconteceram. Tudo foi novidade. Tenho na minha cabeça um misto de imagens e sentimentos que são difíceis de expressar. Fico arrepiada só de pensar e às vezes imagino que foi tudo um sonho.

Pensei nos elementos como uma pintura. Digo pintura porque foi uma junção de coisas que definem a perfeição. Seu eu pudesse imaginar, se eu pudesse pedir, não teria capacidade para pedir tão bem. Parece que tudo aconteceu como um passe de mágica.

Ultramaratona circunda o Monte Fuji, um dos cartões postais do Japão   Foto: The North Face/ Divulgação
Ultramaratona circunda o Monte Fuji, um dos cartões postais do Japão Foto: The North Face/ Divulgação

O início da magia– O dia amanheceu lindo e esperávamos o cenário perfeito. A largada do STY (Shizuoka to Yamanhashi, trecho de 85 quilômetros da ultramratona) aconteceu do outro lado do Monte Fuji e fomos para lá com o ônibus da organização. Chegamos três horas antes da largada e o cenário mudou completamente.

Nuvens negras começaram a se aproximar trazidas pelo vento forte e gelado. A previsão mudou para chuva no fim do dia e confesso que fiquei bastante preocupada, porque a temperatura fica muito baixa à noite, principalmente na montanha.

Eu estava com o Marcelo Sinoca e nós estávamos supertranquilos. Não estávamos nervosos e curtíamos muito a oportunidade de estar ali. A equipe Goldwin The North Face nos dava um grande suporte o tempo todo. Consegui um grupo de apoio e preparei minha suplementação para toda a corrida. Dessa forma não perderia tempo nas áreas de apoio.

Hora da corrida– Depois da cerimônia de abertura nos alinhamos na primeira fila para
encarar os 85 quilômetros em volta dessa montanha maravilhosa. Com a perfeição típica japonesa, foi dada a largada em meio a uma grande quantidade de espectadores.

Pelo fato de estar na frente consegui começar muito bem, concentrada e motivada para correr. Sabia que seria incrível, mas não tinha ideia de que seria tão incrível assim. Eu estava extremamente feliz!

Chamei de pintura justamente pela perfeição com que tudo aconteceu. O mesmo vento forte que trouxe as nuvens levou-as embora. O Monte Fuji deu sua cara e fez questão de exibir sua beleza de todas as formas. Às vezes ele estava na nossa frente, às vezes de lado, mas o monte estava sempre ali, lindo. A luz mudava e ele ficava cada vez mais impressionante.

Pegamos uma subida bastante longa no começo e chegamos à cota de 1.800 metros na base do vulcão, misturados naquele cenário de neve, areia vulcânica preta e aquele incrível céu azul.

A descida foi maravilhosa. Quando corremos nesse tipo de terreno é possível acelerar numa trecho bastante íngreme, tornando tudo ainda mais divertido. A mídia estava presente durante diversas partes do percurso, com câmeras ao vivo e fotógrafos posicionados em pontos estratégicos.

Cheguei ao primeiro ponto de apoio e lá estava o Gakuto, com minha caramanhola nova. Foi o tempo de trocar e seguir. Estávamos no meio de uma longa descida. Comecei a entrar num trecho de trilhas e estava sozinha.

Eu admirava a beleza à minha volta e curtia o terreno no qual corrida. Dessa forma cheguei ao A7, marca dos 30 quilômetros de prova, o que pareceu acontecer num piscar de olhos. Eu vinha bem e toda vez que chegava numa área de transição era bastante motivada por todos que me observavam. Minha equipe de apoio estava sempre lá, então era sempre muito fácil pegar meus suplementos e sair.

Surgimento das primeiras pedras– Dali para frente a prova começou a ficar mais dura. Saí junto com o Igor, corredor da Venezuela, e comentávamos como tudo havia passado rápido. Foi então que chegamos ao pé de uma grande subida. Ela fazia um zigue-zague íngreme e em terreno muito macio para cima da montanha. Passamos um corredor e seguimos juntos, mas quando notei o venezuelano havia ficado para trás.

Segui firme e confiante, pois o percurso estava marcado com perfeição. O cenário começava a ficar cada vez mais impressionante. As vegetações muito típicas da região e o Monte Fuji exuberante enquanto a luz mudava do amarelo para o laranja e para o rosa. Eu corria feliz.

Lembro-me de um certo momento com muita clareza. Cheguei ao cume de uma montanha onde não havia vegetação. O Fuji estava ao meu lado, com o lago lá embaixo. Virei para a direita, dando as costas ao vulcão e entrando na trilha de novo. Abri os braços, sorri e agradeci. Um fotógrafo registrou esse momento. Foi um pequeno momento mágico que, apesar de ter sido rápido, consigo congelá-lo perfeitamente em minha mente e eternizá-lo.

Quando cheguei no A8 fui muito aplaudida. Havia ganhado algumas posições na colocação geral e vinha entre os primeiros de toda prova. O Naoki e o Gakuto saíram para a chegada de Jacob e Takero, que seguiram fazendo meu apoio até o final. Já estava praticamente escuro e peguei a minha lanterna de cabeça antes de seguir meu percurso. A subida seguinte foi muito violenta. Ela era bastante íngreme e técnica.

Apesar da temperatura ter caído eu não sentia frio. A felicidade e motivação cura qualquer desconforto e ajuda a mente a seguir focada. Esse é meu princípio, meu remédio. Tenho muito amor pelo que faço e isso é o meu combustível, meu pilar.

Percurso com trechos muito técnicos e paisagens estonteantes fazem parte da ultramaratona   Foto: The North Face/ Divulgação
Percurso com trechos muito técnicos e paisagens estonteantes fazem parte da ultramaratona Foto: The North Face/ Divulgação

O staff ao longo do percurso ficava surpreso quando percebia que era uma mulher que vinha na trilha. Eu não entendia o que falavam, mas via a surpresa na expressão deles. Eu sabia que estava fazendo uma boa corrida.

O A9 chegou muito rápido, mas ali não havia apoio pessoal, apesar de ser uma área de abastecimento da prova. Peguei um pãozinho e saí com mais dois corredores que havia conseguido alcançar. Ali sim veio a subida mais difícil da prova. Ela era simplesmente vertical.

A noite estava linda e a lua cheia brilhava no céu. Eu encarava uma “escalaminhada” por pedras, com cordas que auxiliavam a levantar o corpo. Eu olhava para cima e via uma luz de sinalização do percurso. Enquanto passava por essa luz, olhava para cima de novo e via outra muito mais acima. Foi uma subida impressionante.

A descida desse trecho foi bastante longa e divertida. Eu estava com um problema nos olhos e começava a enxergar um pouco embaçado. Isso me fez torcer o tornozelo com força e confesso que doeu muito. Caminhei um pouco para que a dor forte passasse e aos poucos voltei a trotar e depois correr.

Desse momento em diante tive que me concentrar com muita força. Eu não podia torcer de novo o tornozelo de forma alguma, então tive de correr com muita atenção, escolhendo da melhor forma possível os lugares onde iria pisar. Minha visão piorava gradualmente e isso me preocupava.

Cheguei ao A10 e encontrei o Jacob pela última vez. Dali em diante eu teria a última subida e descida, somando um trecho de 20 quilômetros. Comi um pouco de noodles, abasteci minha mochila e saí. Eu liderava a prova, mas não sabia quanto tempo a segunda colocada estava atrás de mim, por isso fazia tudo sem perder tempo.

Comecei essa subida sozinha. Eu ocupava a 11ª colocação geral da prova e estava muito satisfeita com o resultado, mas sabia que ainda tinha um trecho considerável pela frente.

Mantive o foco e procurei me alimentar e hidratar bem, sempre admirando a beleza do lugar. A minha visão piorava e tive muita sorte com o fato desse último setor não ser muito técnico. Eu estava tendo que administrar coisas difíceis, mas em momento nenhum deixei a bola baixar e nada disso tirar minha concentração.

Se em algum momento eu pensasse em algo ruim, automaticamente mudava meu foco para algo positivo. Quando fica difícil para o corpo, temos que recorrer à mente e foi isso que fiz. Seguia feliz o tempo todo.

Do outro lado do mundo– Ao final da descida cheguei num templo japonês, com árvores enormes. Foi um presente passar por ali. Isso me fez perceber mais uma vez que estava muito longe de casa, mais precisamente do outro lado do mundo.

Entrei em uma pequena via em volta do lago que eu já sabia que estava próxima da chegada. Eu olhava para a direita e via fortes luzes que eu imaginava serem do arco de chegada. Eu estava chegando ao fim.

Nesse momento vem uma enxurrada de sentimentos. Vem o alívio de estar acabando e vem também a tristeza de estar terminando a prova. Lutei tanto para estar ali que eu não sabia se estava triste ou feliz por estar chegando ao fim. Eu tinha dentro de mim um sentimento de euforia incrível e de dever cumprido. Tinha sido tudo tão bom que eu não sabia se tinha sido verdade ou não.

Ultramaratona ao redor do Monte Fuji tem dois percursos, um com 161 km e outro com 85 km   Foto: The North Face/ Divulgação
Ultramaratona ao redor do Monte Fuji tem dois percursos, um com 161 km e outro com 85 km Foto: The North Face/ Divulgação

Cruzar a linha de chegada em primeiro lugar então só completou esse sentimento maravilhoso. Fui recebida pelo Kaburaki, que me felicitou pela vitória, e depois pelo querido companheiro de equipe Marcelo Sinoca, que havia sido o sétimo corredor geral. Além deles, toda a equipe Goldwin The North Face, que nos apoiou, também estava por lá. Foi simplesmente fantástico e festejamos bastante.

Gostaria de agradecer a todos que me acompanharam e que tornaram isso possível. Hoje posso afirmar que cresci e aprendi muito ao longo do processo de treinamento, assim como na prova em si. Foi uma viagem inesquecível que guardarei com muito carinho no meu coração.

Este texto foi escrito por: Manuela Vilaseca