
Cris Carvalho e Cilene Sophya venceram desafios pessoais além de se tornarem campeãs do Cruce (foto: Cruce de los Andes/ Divulgação)
Antes de passar pelo pórtico de largada da 11ª edição do El Cruce de los Andes a dupla do Projeto Mulher não saberia se voltaria para o Brasil com uma medalha de ouro no peito. Medalha esta que seria a quinta de Cristina Carvalho e a primeira de Cilene Sophya. A incerteza da dupla, porém, não se resumia somente aos acasos de uma competição dura como o Cruce.
A quatro meses da ultramaratona nos Andes, Cris Carvalho foi diagnosticada com uma espécie de câncer e devido ao tratamento da doença ela não saberia como seu corpo reagiria aos esforços tanto do treinamento como os da competição em si. Entrei de cabeça erguida, treinando como sempre porque atividade física é coadjuvante do tratamento. Eu atravessei as montanhas mais importantes da minha vida com uma treinadora que eu divido confiança e aprendizado, explica.
Superada a desconfiança de que o físico não suportaria o nível de estresse durante os quase 100 quilômetros de trilhas andinas, Cris afirma que a dupla se tornou uma só, um único corpo em movimento e impôs ritmo e estratégia que foram impossíveis de serem acompanhados de perto pelas concorrentes durante os dois primeiros dias.
Sede– Apesar de psicológica e tecnicamente superiores, a dupla precisou vencer o primeiro desafio logo no dia um. Assim como <a href=/outros/n/rosalia-finaliza-o-cruce-de-los-andes-sozinha-e-garante-o-5o-lugar/14473 target=_blankRosalia Camargo, quinta colocada na categoria solo e campeã ao lado de Cris no ano passado, as vencedoras de 2013 também tiveram contratempos com hidratação.
A primeira a sofrer com isso foi Cilene Sophya, vice-campeã do Cruce em 2012. Quando eu suguei água da minha mochila e ela fez aquele barulho de vazia, eu fiquei desesperada, mas não falei nada para a Cris, porque eu não queria dividir isso com ela, então pensei: vou trabalhar a cabeça.
A saída encontrada por ela foi beber o mínimo de água possível a cada três quilômetros para não quebrar logo no primeiro dia. Se você mantiver a sua cabeça tranquila nesses momentos de dor e desconforto, é possível terminar, então eu só molhei a boca durante esses 12 quilômetros finais.
Domínio completo– Apesar da tensão vivida pela dupla, o ritmo imposto por elas foi o mais forte da categoria, o que garantiu cerca de quatro minutos de vantagem para a segunda etapa. E essa vantagem se ampliou para cerca de 15 minutos no segundo dia.
Com esse tempo à frente, o terceiro dia serviu como uma forma de a dupla relaxar. A Cris quis segurar um pouquinho, era muita descida, muito forte, então nós seguramos um pouco para completar a prova, mas sempre controlando no relógio, explica Sophya.
Nada de frio– Ao contrário do que era esperado, o frio intenso acabou sendo um adversário muito omisso durante esta edição do Cruce. Diferente das baixas temperaturas dos anos anteriores, o que preponderou foi o calor inesperado durante as trilhas.
Para Sophya isso chegou a ser um incômodo, principalmente durante os mais de 42 quilômetros do segundo dia. Nessa etapa os termômetros chegaram a marcar 32°C. Foram quilômetros de sensações intermináveis e eu só pensava em acabar o dia, confessa.
Já Cris parece ter aproveitado mais a surpresa que os Andes apresentaram aos ultramaratonistas. Foi verão, uma delícia, e que nos ajudou muito a descansar. Como brasileiras, só agradecemos. Foi mais uma grande vantagem, afirma.
Superação– Após o sexto Cruce e a quinta vitória, Cris acredita que cada participação deixa uma experiência diferente. Amo todas as minhas duplas e trago dentro de mim a força de cada um deles, ressalta.
Sophya vai além. A ultramaratonista se considera muito competitiva e, por ter esse perfil, diz que pouco aproveita as paisagens que a maratona de montanha pode oferecer. Porém, alguns momentos do Cruce foram impossíveis de não serem notados.
Ao avistar o vulcão (Villarrica) na minha frente, uma mistura de felicidade e liberdade tomou conta de mim. E por um instante não pude conter as lágrimas que escorreram, finaliza, colocando em palavras o quão especial foi essa vitória.
Este texto foi escrito por: Renato Aranda