Na chegada da prova você pode chorar a vontade
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O ultramaratonista Bruce Fordyce, o Rei da Comrades com nove títulos conquistados, escreve em artigo exclusivo ao Webrun algumas dicas para os competidores que vão disputar a prova na África do sul no próximo dia 24 de maio. O texto a seguir foi traduzido e adaptado para o português, mas aqueles que desejarem poderão ler o original em inglês na segunda página..
“Faltam apenas 30 noites de sono”. Eu lembro que meus pais me diziam essa frase quando eu era uma criança ansiosa aguardando a chegada do meu aniversário, natal ou algum outro evento comemorativo. Para os atletas que vão disputar a Comrades, especialmente os novatos, a partir de agora nós iniciamos a fase crítica até o dia da corrida (desculpem pela alfinetada rs).
Essencialmente não há muito que fazer para melhorar o condicionamento, mas há muitas coisas que podem ser feitas para arruinar as chances de uma boa prova, como overtraining e lesões por excesso de exercício neste período. Assim como a criança travessa, que começa a fazer os deveres de casa e ajuda velhinhas a atravessar a rua por achar que não receberá a visita do Papai Noel, nós temos que nos conscientizar que é muito tarde para isso. Nós não podemos recuperar o treino perdido.
A esta altura do campeonato já devemos ter corrido nossa última prova longa e não devemos participar de competições ou treinos com mais de 20 quilômetros num único período. A prova de que estamos realmente prontos para a Comrades virá em uma ou duas provas de 10 quilômetros ou mais, na qual os tempos rápidos mostrarão o veredicto.
Devemos descansar o máximo possível e fazer uma corrida de ensaio, de aproximadamente 15 quilômetros, usando toda a vestimenta que será utilizada no dia da prova, incluindo tênis, colete, shorts, camiseta, etc. Precisamos estar certos de que no dia da corrida só usaremos roupas usadas e testadas, para que nada dê errado.
A última semana antes da corrida deve ser parecida com a de um feriado. Eu gosto de estar descansado ao máximo. O segredo é ir para a largada tranqüilo, refrescado e muito empolgado em correr. Não será um sprint de meia maratona, são 90 quilômetros de Comrades, com imensas montanhas, com clima quente e úmido, então devemos estar preparados antes da partida.
A prova - Acredito que ao chegar a Durban, todo corredor deveria ter a oportunidade de dirigir pelo percurso da prova. Eu vou correr minha 27ª Comrades, mas vou dirigir por todo o caminho de Pietermaritzburg a Durban, pois é uma ótima experiência e nos lembra o quão longa e montanhosa é a prova. Realmente dirigir pelo percurso nos assusta e um corredor assustado começará de forma cautelosa a prova e se manterá conservador o máximo de tempo possível.
Há um clima maravilhoso em Durban nos três dias que antecedem a competição e é fácil se envolver nesta atmosfera, principalmente durante a Feira (Expo) pré-prova, ocasião em que um espírito de carnaval empolga a todos. Também é importante não passar muito tempo por lá. Os corredores devem pegar seus números de peito e circular um pouco pela feira, mas ir embora o quanto antes. O perigo é ficar muito tempo de pé passeando e, sem nos darmos conta, desgastamos muito nossos pés em vez de usar o tempo para descansar.
Muita gente esquece que a África também tem inverno e que na largada da prova de descida geralmente faz frio em Pietermaritzburg. Em 1965 nevou e em 1982 uma chuva fria caiu sobre nós durante boa parte da jornada. Os corredores verão gelo no chão e a temperatura poderá chegar a 1ºC. Devemos nos lembrar de vestir roupas velhas, que possam ser descartadas durante o percurso.
A Comrades “Down” só começa mesmo a descer por volta do quilômetro 55, já que a primeira metade do percurso é plana e com subidas. Os novatos serão perdoados por acharem que estão correndo uma prova de subida. A prova só começa mesmo na chegada ao litoral, na Faculdade Kearsney, onde os estudantes se postam para torcer. A partir deste ponto a corrida se torna totalmente ladeira a baixo e as já cansadas pernas precisam suportar um impacto severo.
Os novatos devem estimar seus tempos de conclusão e “colar” num dos “buses” que participam da Comrades. Bus é um grupo de atletas que se junta para terminar num determinado tempo e muitos deles são pessoas muito proeminentes. Também é possível correr bem perto de alguém com número de peito amarelo, que é um atleta disputando a prova pela 10ª vez e pela honra de ganhar o número verde permanente. Corredores com números amarelos não têm intenção de completar com algum objetivo de tempo, apenas pretendem chegar são e salvos ao final.
O mais importante de tudo: lembre-se de aproveitar a experiência. Não devemos abusar, correndo além do limite. A Comrades é uma num dia uma aventura para a vida e proporciona memórias eternas. Nós vamos nos odiar durante a prova ao chegar em Pinetown depois de 70 quilômetros, mas vamos nos amar e amar a corrida após a linha de chegada. Os iniciantes devem ser advertidos: é permitido chorar na chegada e entender que você vai chorar! De felicidade.