Histórias de corrida e um pouco sobre qualidade de vida, yoga, saúde e alimentação e, claro, provas. Para mim, corrida é um tipo de meditação e escrever um tipo de diversão. Muito prazer, eu sou a Natalia Yudenitsch, mas pode me chamar de Nat.



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Isso ficou claro já na noite de sexta, quando a água começou a castigar as barracas de madrugada. Como a nossa era alugada, no melhor estilo é-o-que-tem-para-hoje, havia o inquietante risco dela nao aguentar chuva forte. Já havia até um plano B de para quais barracas a gente ia correr se a danada alagasse. Que reconfortante, nao? Mas eu dormi tão pesado - apesar do ronco estilo Globo da Morte de Certa Pessoa que negou ser autor de tão doce melodia depois - que só fui me preocupar com isso pela manhã, ou seja, a barraca resistiu firme e forte.
A complicaçao começou com a largada, que ficou sendo
muito, mas MUITO mais tarde do que eu pensava: quase 10h. Na boa,
quem não é elite e não termina a prova em 3h não deveria ter
que largar depois das 8h, pq chega muito tarde. E NUNCA consegue
pegar o almoço pelo qual pagou, então fica a dica: pessoas não-elite, pensem bem antes de gastar seus dolarzinhos suados reservando
os almoços, porque nós nao vimos nem a cor dessa
refeição, poderíamos ter pago só o jantar e ter
gasto o resto com chocolate e vinho que teria sido muito mais bem
pago.
Largar na chuva nunca é bom. Largar na chuva, no frio e
sabendo que ia pegar fila e a pior pirambeira da prova é
infinitamente pior. Mas vambora que faz parte. Já no
comecinho, adivinha? Acertou, fila de novo. Dessa vez pq a trilha
estava um lamão e o povo passava devagar, tateando bastante antes de
decidir onde passar, com medo de escorregar logo no comecinho da
prova. Anota aí, mais 50min de piadas e gritaria do nosso
grupo, só que debaixo de chuva. Um mimo.
Daí pra frente só foi piorando, como esperado. Mesmo
fazendo um percurso alternativo - o que foi um ponto positivo nesse
dia péssimo- porque o principal ia ficar inviável na
chuva, foi uma subida só. Nesse dia eu conheci o trekking
pool, aquele bastão moderninho de caminhada. Olha, tenho que confessar:
não nos demos muito bem. 
No começo, como em todo relaconamento, eram tudo flores. Ele me salvou de morrer afundada na lama movediça das encostas encharcadas, evitou que eu escorregasse e basicamente foi essencial para esses trechos lamacentos. Mas aí a lama diminuiu, a subida ficou mais íngreme e nossa relação começou a ficar desgastada. Eu juro que nao consegui me acertar com ele. Porque meu jeito de subir ladeira da morte pressupoe uma certa mecanica, com as maos se movendo no mesmo ritmo que as pernas e ajudando na subida, estilo curvada-para-frente-mao-no-músculo-da-coxa-a-cada-passada, sabe como é? Pois com o danado do trekking pool nao dá para fazer isso, seus braços tem que seguir um ritmo bem diferente das pernas e nao podem encostar nas pernas.
Teoricamente eu
deveria estar distribuindo meu peso com o 3º apoio e fazendo menos
força para subir, como as pessoas afortunadas que sabiam o usar o bastão
infernal. Não foi o meu caso, me senti fazendo o dobro da força
que normalmente faria, me sentia desengonçada, simplesmente
não conseguia subir. Tipo péssimo.
Minha sábia dupla, habilidosa e faceira com seu trekking pool que só, não estava acreditando na minha dficuldade. Quero dizer, não que ela duvidasse de mim, é que parecia bizarro demais para ser só um problema de relacionamento com um objeto inanimado. Ela me garante que era algo mais que isso, mas juro, eu não estava me sentindo mal, nem fraca, nem com dor. Eu só não conseguia subir como uma pessoa normal, estava mais para zumbi escalador, sabe aquele andar lento e desengonçado de quem já morreu e esqueceram de avisar? Era eu.
Mas uma hora eu consegui começar a ignorar aquele equipamento desconcertante e voltar a acelerar. Tá, eu basicamente comecei a parar de usá-lo, até que a lama acabou ao ponto de eu poder devolve-lo. Um dia quem sabe revemos nosso relacionamento, quando eu superar meu bode e fizer as coisas direito, ou seja, treinando com ele antes para pegar o jeito como fizeram as pessoas mais espertas.
Enquanto isso, a trilha seguia rumo ao céu. O lugar mais lindo do
dia para mim, disparado, foi a Trilha do Abismo, um caminho estreito
tão no alto que vc corria acima das nuvens. PÁRA TUDO E IMAGINA: vc correndo e do seu lado direito a encosta da montanha e do
lado esquerdo um abismo, com as nuvens paradas ABAIXO de vc.
Inesquecível. 
As coisas complicaram quando começamos a nos aproximar do
fim. A chuva apertou muito e mesmo um bom impermeável uma hora joga a
toalha, pq vc já cozinhou por dentro e pq esse entra e sai dos
rios gelados + o temporal já conseguiu te encharcar até
a alma. Aí nós fizemos algo que vcs nunca devem fazer:
perguntar a alguém da oranizaçao quanto fatava para a chegada.
O carra disse com muita convicção: un quilometro e medio.
BELEZA! Mamão no açucar, estamos chegando, nem precisa mais
comer. Acreditou? Dançou playboy. Faltavam mais de
5K. O que é ridículo no Ibirapuera, mas é uma vida no
final do pior dia do Cruce.
Teve uma hora que comecei a correr de puro desespero. Tremia tanto
de frio que achei que ia congelar ali mesmo e um dia, no futuro
distante, iam me achar presa dento do bloco de gelo, tipo vejam a anta
pré-histórica que acreditou na información do
cabrón.
Aí vc finalmente chega e descobre que algo mais deu errado.
Mais da metade das caixas, os banheiros e coisas do camping não
chegaram nem vão chegar. Com a chuva uma ponte quebrou e só
alguns caminhões conseguiram passar. Então, se sua caixa está
lá, vc fica ali mesmo, se não, entra num caminhão de campo de
concentração, anda 500m, desce dele e anda mais 5K até
o acampamento 2, passando por um rio geladésimo.
Acharam péssimo ir até o acampamento 2? Isso porque
vcs não ficaram no acampamento 1 como eu. Por que esse acampamento
ficava num lugar batizado de.. Vale da Merda. Aliás, antes que alguém
reclame, este é um blog fino e de família, que não usa de palavras de baixo calão. O termo, neste
caso, é apenas a descrição literal da verdade. Quase um termo técnico. Porque o
chão desse acampamento era feito de.. bem, não tem um jeito delicado
de dizer, excremento de vaca. Nao estou exagerando, nao dava para ver
nem um pedacinho de grama molhada ali, era esterco puro. E os lugares
que não estavam assim digamos, decorados, estavam alagados.
Daí vem a pior tarefa da noite: montar a barraca na chuva,
no cocô, tremendo de frio, encharcada e a um passo da hipotermia (pelo menos
era essa a sensaçao). Nosso amigo francês de alma bondosa que se
dispôs a ajudar a montar a barraca deve ter ficado impressionado, no
pior sentido possível. Já sentiram o cérebro
congelar? É assim: alguem te fala "pega aquela estaca ali" e seu
cérebro fala "estaca? o que é uma estaca?" e durante
esse processo vc fica imobilizada, tremendo, com cara de ã, tipo protetor de
tela com janelas Windows voando. As pessoas falam com vc e na sua
expressão as janelas continuam voando. Aí quando vc consegue
processar a informação e pega a tal estaca, não consegue
colocá-la onde devia, pq seus dedos estão duros de frio e vc
treme tanto que erra o alvo diversas vezes. Uma delícia,
especialmente se vc lembrar que vc PAGOU para ter essa experiância.
Palmas para vc. Gênio.
Aí vc entra catatônica na barraca, se troca e o cérebro
começa a descongelar, junto com as roupas quentinhas. Nao fica
ótimo, pq afinal nao pára de chover, vc está
literalmente na merda, seu abadá está encharcado, assim
como a mochila, impermeável, luvas e manguito. E vc vai ter
que usá-los no dia seguinte. Oba!
Somando isso ao fato de que no Campo de Refugiados 1 (o nosso) não teve
banheiro, a comida chegou as 20h, tudo na barraca estava úmido
e nao tinha ninguém da organizaçao p/ vc se informar, nao foi
assim um final de dia gostoso. E consta que o povo do Refugiados
2 foi quem se rebelou, dizem que houve gritaria, palavras de baixo
calão, pitís e muitas muitas desistências, já que a
organizaçao estava toda lá. E olha que no camping deles
tinha até banheiro, alem do chão ser de grama com apenas
eventuais presentinhos das vacas aqui e ali. Tem gente que era feliz
e não sabia.
Eu entendo o povo que desistiu. Dava vontade mesmo. Quem tinha ido
no clima um-passeio-mais-longo-entre-lindas-paisagens viu a casa
cair. Mas por outro lado, na montanha CHOVE, gente. Pontes caem. O
que pegou foi a falta de informação nos campings e um preparo
mehorzinho para a chuva, já que sabendo que ia cair o mundo
podiam ter pensado pelo menos numas loninhas de cobertura e numa
logística de largada melhor.
Mas afinal, depois de dormir no Vale da M**** vc acha que a gente ia desistir? ÓBVIO QUE NÃO, NÉ? Porque a lógica diz que piorar não podia, entao o dia 3 só podia ser ótimo. E foi!
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adiantava pensar em dar uma roubada e arriscar umas passadas que a treinadora tem um sexto sentido e grita para não parar, não andar e correr sem nem precisar olhar para trás.
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adquirir lesões com ele. 
Claro que não vou ser xiita nem dizer que a sua lesão obviamente vem do tênis que vc usa, ou que tênis com muito amortecimento faz mal, até pq não tenho conhecimento técnico ou médico adequado para tanto. Mas vou dizer que talvez seja algo para pensar e testar. 
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gosto horrível e revira o estômago, mas para mim tem um efeito igual o de tomar uma daquelas poções de vida de videogame: sinto a barrinha de energia vital recarregando na hora, dá até barato! Quanto ao isotônico, eu só consegui subir a serra de Maresias naquela prova de revezamento pq minha equipe de apoio era THE BEST e sabia que a cenourinha para me fazer seguir em frente era um gator gelado.
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Você não vai voltar a usar aquela polaina coloridona, nem as tirinhas torcidas na testa, para ficar aquela marca bonita. Se bem que a camiseta gigante com cintinho está quase de volta, dependendo do tamanhos das camsetas de prova que alguns organizadores andam distribuíndo, e a pochete.. bem, essa está de volta na corrida, seja para carregar gel, água ou chaves. Mas divago.
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Na 4ª volta parecia que não ia dar. Sempre dava, claro, mas era tudo muito sofrido. Sim, porque a gente Sofria com S maiúsculo. Seja por ver sempre aquela mesma volta no mesmo bat percurso seja porque parecia que o coração ia sair pela boca. Ah, éramos jovens e tolas e achávamos que aquilo era um treino de tiro hard.
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Mas afinal, qual é a do meião? Perguntando para os meus oráculos (alô Vivi? alô Google?), descobri que trata-se de uma meia elástica de compressão. Igualzinha àquela daquele comercial brega que falava de varizes e inchaços e recomendava uma meia com "suave compressão".
tempo é normalmente o dobro do pelotão de elite) fosse usar meião, saria esse modelo aqui ó:
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